Mar: metonímias possíveis da/para a poesia
Hoje é dia da terceira intervenção acerca do aldravismo, em suas manifestações. Vai mais um prefácio, desta feita, ao livro de "prosopoemas" de Gabriel Bicalho, intitulado Âncoras flutuantes.
Prefácio
Prefácio
O aldravismo, em sua proposição e em suas realizações, até o presente
momento, não é pós-moderno. Qualquer
referência ao termo “pós-modernismo”, aqui, expõe imediatamente as retinas um
tanto fatigadas de qualquer leitor de poesia ao risco de ser acusado de
perpetuar certa moda intelectual passageira, fútil e sem importância. Um dos
problemas é que o termo está em moda e, ao mesmo tempo, é irritantemente
difícil de definir. Essa palavra não tem sentido, deve ser usada sempre que for
possível. Este “axioma” – ainda que o termo seja discutível, neste caso – serve
de exemplo da provocação em nada pós-moderna, implícita no exercício poético do
Aldravismo. Adiantando um passo: a experiência proso-poética de Gabriel
Bicalho, como as demais, originadas no cenáculo do Aldravismo – atenção: estou
longe de desmerecer, tanto o termo usado, quanto à infundada “ironia” que
supostamente alguém há de associar a meu raciocínio, aqui! –, é prova cabal e
suficiente que “moderno” e/ou “pós-moderno” são termos que “reduzem” a
espessura da aventura poética do aldravista em questão. De novo, peço atenção
para o termo “aventura” – sempre com o mesmo norte semântico – aventura no
sentido de descoberta e ousadia, não no sentido de irresponsabilidade e/ou
gratuidade.
Chamo de
fragmentos aos pequenos prosopoemas que Gabriel Bicalho cria. Na falta de termo
mais “adequado” – se é que ele existe ou, antes, teria que existir... –, o
termo “fragmento” remete ao princípio metonímico do poeta aldravista,
acompanhando a maré de seu grupo, neste percurso de, já, dez anos. O fragmento
remete à ideia de uma totalidade desejada pela poesia, ainda que ciente de sua
precariedade inata, expressão vocabular que, como a maré que envolve as âncoras
do poeta. O fragmento, então, é signo que permite à voz poética o trânsito
pelas águas da existência e as marés da poesia, livres aqui da ressaca,
fenômeno natural que poria a perder todo e qualquer esforço de conservação de
formas, quaisquer que fosse. Os prosopoemas de Gabriel Bicalho, então,
metonimizam o fazer poético, dissolvendo em águas novas a poesia que sai do
“ventre de Minas”.
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âncoras que vicejam no acobreado mar de palavras que constituem os prosopoemas
aqui apresentados. A ilustração das âncoras, para além o texto a que remetem,
também apontam para o fundo, indicando o direcionamento do raciocínio poético
do autor. Ambígua e simultaneamente, estas âncoras seguram o barco do desejo
poético, em sua expressão, ao mesmo tempo em que deixam ao sabor das marés, os
sentidos que, metonimicamente, oferece ao leitor. Este “compadrio” ou, mesmo,
esta cumplicidade, são peças fundamentais na construção do(s) sentido(s)
expressos pelos prosopoemas de Gabriel Bicalho. Renovando experiências vanguardistas
dos haicais, em perspectiva mais profunda; e, mais diuturnamente, o desafio das
“aldravias”, o texto de Gabriel Bicalho anuncia a certeza de que a criação
poética renasce como Fênix, de suas aparentes cinzas mortais. O mito
revisitado, mesmo que inconscientemente, corrobora a veraz sedução que as
aldravias exercem sobre os caminhos (e descaminhos!) da Literatura no Brasil.
Há que reconhecer que, por menos reconhecida que seja uma proposta, não se faz
suficiente dizê-lo. Há que se experimentar em carne viva – como na dicção de
Chico Buarque de Holanda – para então ser possível avaliar.
Âncora é
palavra originalmente circunscrita à cultura marítima. Peça de ferro forjado
destinada a reter o navio, segurando-o pela amarra num fundeadouro. Neste
sentido, os textos de Gabriel Bicalho podem ser lidos como objetos que
asseguram ao sujeito poético, sua estabilidade existencial e emotiva. Nas
palavras que se movimentam qual maré – na inexistência metonímica de pontuação
(exceção feita ao final de cada fragmento e uma ou outra ocorrência rara) – a
construção de cada fragmento confere ao pensamento poético movimento encapelado
de indagações existenciais, ao sabor de ventos insuspeitados vindos das
montanhas: implícita min
eiridade, latência aldrávica que instiga e seduz o
leitor.Âncora
é também termo afeito à aeronáutica, nomeando aparelho com vários ganchos
articulados que o aeronauta lança da barquinha para se agarrar ao solo e parando
o aeróstato. Já nesta camada semântica, o já referido “vento” que sopra das alterosas
redinamiza o movimento interno de cada uma das “âncoras”, desta feita, bólido
errante num mar de palavra que mesmeriza o olhar poético. A insistência em
perguntas que não se respondem, a repetição de ideias e sensações, conduz o
poeta pela atmosfera do fazer poético que não abre mão de sua liberdade – ainda
que tardia!
Em
sentido figurado, “âncora” pode apontar para alguma coisa que serve para
proteger, para amparar; espécie de arrimo, amparo. Aqui se encontra o clímax
desta poesia que se impõe pelo inesperado da construção, pela leveza das
imagens e pela constância do convite: pensar, rever, imaginar. Os prosopoemas
“ancoram-se” na certeza do viver poético que cristaliza experiências em versos
não pontuados, que se concentram em fragmentos enleados pelo movimento marítimo
da poesia de Gabriel Bicalho. Na aparente ausência de elaboração, num “fingido”
exercício de simular circunstância – afinal a poesia jamais deixa de ser
fingimentos que se confirma, constatação que se desfaz: paradoxo axiomático – o
poeta desenha sua rota pelas veredas aquáticas da experiência universal do
sujeito em sua precariedade. A palavra lhe serve, então, de “âncora”, espécie
de tábua de salvação, desesperada e liricamente deseja pelo bateau ivre de Rimbaud:
âncora final
veleiro noturno o tempo passa sem a clara lua no azul nublado deste céu escuro
neste mar amaro que me vem dos olhos veleiro soturno sob a luz funérea de um
farol de sombras que nos faz em trevas velejando agora retina à rotina da rota
maldita de um remar sem remos marujos caramujos que seremos sempre em velados
veleiros flutuantes âncoras pelos negros mares de afogar-nos plenos de tristeza
e a sós reprimindo os sonhos loucos pesadelos pelas noites frias sem saber se
somos fomos ou seremos só restos de nós: quantas vezes mais velejaremos tristes
aos insólitos limites da eternidade?
Por
fim, esse substantivo de dois gêneros na/da cultura da informação, âncora,
refere-se ao profissional do jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos
noticiários, cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações
e apresentando-as, frequentemente com comentários opinativos. Neste diapasão
semântico, a palavra que nomeia os fragmentos do livro de Gabriel Bicalho
também encontra eco. Qual “jornalista”, o poeta palmilha o cotidiano,
recobrindo sua banalidade com o véu da imaginação poética. Sua caravela singra
o encapelado oceano do viver, pontuando sutilezas que, vez por outra, se
anunciam à vista maruja do sujeito poético que, singelamente, abstém-se de
opinar – no sentido de conduzir a opinião alheia. Exercício essencialmente
aldrávico – para deixar abertas as próprias feridas, como a convidar o
samaritano olhar do leitor:
âncora 27
só um poeta só ousaria contemplação embora não aceite a agonia da gaivota
quando um seu vôo rasante desenha versos brancos no azul celeste e pios
alucinados timbram o ritmo do mais triste poema traçado à plenitude da
liberdade e da vida enquanto que ele impotente e desesperado nas mãos espreme a
areia que lhe escorre
O paradoxo que nomeia o volume se desfaz na
certeza da descrição poética é uma epopeia vivida por esse Ulisses mineralizado
na/das alterosas. A voz poética anuncia a certeza de que os contrários se
atritam na confecção inconsútil do tear poético do Aldravismo. Em sua proposta
de método poético (sem redução a um punhado de princípios e práticas estéreis e
prefixadas) o Aldravismo contempla a experiência mater da poesia que é a contiguidade. Ao lado da comparação, o
poema promove séries infinitas de associações livres, o que faria o gozo de
qualquer psicanalista. Dessa prática associativa, perde-se num horizonte de
expectativas infinito, a possibilidade de se delinear um sentido. Ao olhar do
leitor, esboça-se outro sempre renovado, tantas vezes quantas retomar a leitura
dos prosopoemas. Ideal de qualquer fazer literário, ainda que denegado, essa
“repetição” traduz bem o desejo aldrávico de associar, sempre e mais, através
da concentração vocabular, reduzida – sempre que possível – ao mínimo.
Exercício difícil do dizer poético que as “âncoras” conseguem conservar
fundeado no oceano de possibilidades que os prosopoemas oferecem generosamente.
O barco ancorado flutua sobre o mar de palavra, assim como o porta-voz da
notícia anuncia a dúvida íntima de cada semelhante. Errantes no mesmo oceano,
poeta e leitor se “ancoram” na certeza de que, como já disse Pessoa: “navegar é
preciso”!
O estatuto do
processo de que resulta a obra literária é motivo de polêmica desde sua
denominação. A noção de gênio, surgida no Renascimento humanista quando
recoloca o homem no centro do universo, retomada e radicalizada pelo Romantismo
e seu culto da individualidade, deu origem à ideia de que a atividade do escritor
é criação, à feição divina, livre e todo-poderosa. O artista, nessa concepção,
seria um ser dotado de talento especial pela natureza, podendo este ser ou não
aperfeiçoado pela educação estética, com poderes para alterar a configuração da
realidade, acrescentando-lhe novos elementos. Remontando ao irônico Íon, de
Platão, esse demiurgo conseguiria realizar a sua obra apenas graças à
inspiração, recebida dos deuses, ou auferida em estados de êxtase e delírio,
sem conhecer, portanto, os modelos de suas criaturas mas alcançando uma
dimensão superior de verdade tanto quanto a da natureza. A noção de inspiração
será substituída pela de efusão espontânea de um espírito excepcional entre os
românticos e bastará para justificar o reconhecimento público do trabalho como
obra-prima.
Nesta visão, muito
pouco parece restar para a criatividade humana. O sujeito, em seu desejo de
expressão e criação vê-se praticamente tolhido pelo ímpeto de certa natureza
inefável. O desafio aldravista assenta-se exatamente nesta “pulsão poética”.
Como suas similares freudianas, os poetas aldravista, como aqui o exemplo de
Gabriel Bicalho reforça e consolida, ascendem a horizontes amplos de
experimentação estética. Sua busca incansável de comunicação – sem as
restrições de código e/ou de meio – não se submete a limites estreitos de
visão, seja Renascentista, Romântica ou quejandos. Assim, a modernidade e/ou
pós-modernidade aventada no início deste prefácio, desfaz-se como bruma seca,
no primeiro raio de sol. Os “prosoversos” são como os raios deste sol
metafísico que a poesia aldravista engendra.
Pierre Macherey
opõe-se ao entendimento dessa questão, afirmando que “as várias teorias da
criação têm em comum o eliminarem a hipótese de fabricação ou de
produção", negando o trabalho produtivo ao erigir-lhe um monumento (a
criação) que o oculta. Na sua perspectiva, a obra é produto de um trabalho, é
construída. Ele diz que o poeta é operário de seu texto. De fato, o escritor
não fabrica os materiais com que trabalha; não os encontra espontaneamente
ordenados, peças errantes, prontas para ajudar a edificação de qualquer
ossatura. As palavras não são elementos neutros, transparentes, que teriam o
dom de se abolir, de desaparecer no conjunto que servem para constituir,
dando-lhe matéria, tomando a sua ou as suas formas. Os motivos que determinam a
existência da obra não são instrumentos independentes, prontos a servir
qualquer sentido: têm peso específico, força própria, conservam autonomia. A
necessidade da obra é um produto. No rastro deste raciocínio, não há como negar
a efetividade da afirmativa, principalmente quando se depara com os prosopoemas
de Gabriel Bicalho: exercício profícuo desta “produção” que se auto-lê.
Parece óbvio que
essa visão de trabalho produtivo é defensável, levando em conta que advoga ser
a necessidade da obra fabricada pelo escritor a partir da heterogeneidade de
materiais e de injunções sócio históricas, conformando uns e outras numa ilusão
de ordem e unidade cujo efeito é contradizer a desordem gerada pela ideologia
na compreensão do real. Nesse sentido, a obra é sempre inacabada, incompleta,
existe pelos seus silêncios, pelo que não diz daquilo que está fora dela. A
pergunta a ser feita pelo leitor poderia ser, então, “por meio de que relação,
em relação a quê diferente dela, é produzida a obra?”. Nos ecos metonímicos que
o Aldravismo produz, esta pergunta emerge constante: leit motif para a produção de Gabriel Bicalho. Seus prosopoemas
reverberam a dúvida constitutiva da sinédoque: figura mater para a poesia que se faz no limiar de gêneros, prosa e
poesia.
Entretanto, o
elemento criativo não precisa ser tomado no sentido religioso, teológico e
tautológico – de o sujeito criar o humano, como para os renascentistas. Outro
sentido do termo criação pode ser convocado para explicar a gênese da obra
literária. Tal constatação afasta definitivamente este livro do risco de ser
reduzido à esfera do que se convencionou chamar de moderno e/ou pós-moderno. O sentido
de superação desaparece no fulgurar de imagens fluidas, fazendo flutuar as
âncoras que bordejam certo mar de palavras. A construção, ou fabricação de algo
implica, decerto, materiais, técnica e projeto, elementos presentes na
literatura. Nesse rumo de pensamento, a obra é produto: o escritor precisa ter
conhecimento dos gêneros e da tradição literários, de técnicas narrativas ou
poéticas, deve escrever a partir de alguma motivação, seja ela um impulso cego,
inconsciente, ou um intento pensado, engajado, é obrigado a pesquisar soluções
para os problemas e impasses surgidos ao longo do processo produtivo,
valendo-se da experiência própria ou alheia. Não poderia ser outro o resultado.
O livro de Gabriel Bicalho é exemplo acabado desse fazer poético. O partido da
metonímia como procedimento de criação, faz de seus textos expressão desse
“além da tradição”, sem prestigiá-la na medida mesma de sua superação – em
sentido mais que restrito, em nada valorativo. Isso seria desmerecer a própria
poeticidade dos fragmentos. Além disso, efetua seu trabalho em certas condições
sociais e econômicas: pertence a uma classe e a um grupo com ideologias
específicas, lida com o jogo de forças políticas na área da cultura, expresso
nos órgãos oficiais, nas organizações acadêmicas, na indústria e mercado do
livro. Tudo isso pesa na gênese da obra, prende-a a constrições materiais e
ideológicas, mas não exclui o fator criatividade.
Reduzir o processo
de construção da obra à ideia de produção impede a possibilidade de explicá-lo
como manifestação da liberdade, uma vez que o trabalho é sempre uma atividade
determinada pela necessidade de sobrevivência, primeiramente de transformação
da natureza em cultura para que não se pereça entregue à primeira e depois de
alienação da força de trabalho em troca de dinheiro, nas sociedades
capitalistas. Marx vê no trabalho a fonte de humanização do homem, desde que
não alienado, mas a História não tem proporcionado sociedades economicamente
livres da alienação. Talvez seja por isso mesmo que, por tantas vezes, tenha
sido anunciada a morte da poesia. O livro de Gabriel Bicalho é denúncia da
falácia de tal afirmação, mesmo que repetitiva.
Diante de uma
concepção de trabalho não autônomo, o do artista da palavra não pode ser
assimilado ao do operário. Apesar de fazer parte da mesma engrenagem do
capitalismo, o escritor extrai de sua arte o prazer da construção, da
satisfação de uma necessidade, e não necessariamente a entende apenas como meio
de remuneração. No fazer artístico em geral preserva-se, a despeito da
mercantilização inevitável, o valor de uso, seja para o produtor, seja para o
consumidor, mesmo que o valor de troca impeça, por exemplo, o escritor de viver
de sua arte e o leitor de adquirir o livro. O Aldravismo compreende a lição
marxiana e a põe em prática, espalhando poesia num mercado tão cioso de suas
“materialidades”. O pensar poético do Aldravismo, aqui ilustrado pelos
prosopoemas de Gabriel Bicalgo, é prova incontestável de que não é
indispensável a desarticulação entre poesia e sociedade. A aparente
superficialidade e/ou alienação a poesia – para aqueles que ainda não
compreenderam sua vicissitude de expressão plena – transcreve a possibilidade
de aproximação de dois mundos: material/espiritual, poético/pragmático,
consciente/inconsciente. As binomias multiplicam-se ao infinito.
Nessa medida,
pode-se pensar em criação literária como aquela atividade que, valendo-se de
materiais simbólicos, preexistentes, recombina-os de modo a obter um objeto
verbal antes inexistente, criando, no sentido do termo, laços e rupturas onde
antes não os havia, de modo a reconfigurar o já existente. Não se trata de
defender a ideia de intencionalidade genial, pois é sabido, desde a refutação
dos new critics da falácia intencional, que a obra não diz o que o autor
quer: ela é, e é algo diverso para cada leitor. Todavia, na sua gênese, o não
intencional é que se mostra criativo e é possível pensá-lo não de um ângulo
idealista ou essencialista, mas a partir dos elementos materiais que o escritor
agencia. Assim, as âncoras de Gabriel Bicalho não são antigas, nem modernas nem
pós-modernas. Seus prosopoemas são uma proposta, convite ao prazer da leitura.
(Mariana, junho de
2011.)



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