Um livro de poesia
Livros, geralmente, apresentam prefácios. Geralmente. Num deles, de poesia, cujo autor é amigo particular, há um desses prefácios, escrito por mim. O livro se chama Apocalíptico. O autor, José Sebastião Ferreira, poeta aldravista e aldravianista. Figura sui generis, poeta de mão cheia. Segue o prefácio.
Prefácio
A Literatura Brasileira atual
apresenta características que performam ecos do Modernismo, principalmente no
que diz respeito à liberdade de expressão: incorporação da linguagem coloquial,
verso livre, abandono das formas fixas, etc. Além disso, valorização de fatos
do cotidiano, aproximação entre a prosa e a poesia e questionamento sobre a
própria linguagem literária. O que dizer então de experiências estéticas que,
aproveitando-se de lições já cristalizadas no tempo, promovem a respiração da
poesia, propondo novas formas de expressão para o gozo plástico do código
linguístico?
Conta a lenda que os homens
pré-históricos, num ato inexplicável (até hoje), começaram a representar suas
ideias em desenhos (as famosas pinturas rupestres). Com esse ato eles criaram a
noção de uma linguagem que, se se pode pensar assim, ultrapassava os então
conhecidos meios de comunicação social. Assim, esses homens legaram, no mínimo,
a oportunidade de seus “iguais” fazerem o mesmo na corrente de Cronos, com todas
as variações que o imponderável futuro ia possibilitando. E continua a fazê-lo.
Dessa lenda surge a ideia mestra do Aldravismo: a de que é sempre possível
inovar (e não há outra maneira para fazê-lo satisfatoriamente), senão partindo
do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Esse eterno recomeçar, signo
nietzschiano do “fracasso” humano, cobre de glória a iniciativa do Aldravismo,
como se pode constatar nos poemas reunidos no presente volume.
Ultrapassando a fase das pinturas
rupestres, trata-se aqui de palavras e dentre miríades delas destaco uma:
“Aldrava”. Indica o dicionário do Houaiss, que esse termo provém de “aldraba” –
pequena tranca metálica para fechar a porta, com dispositivo por fora para
abrir e fechar, ferrolho; em 1896, o termo indicava uma espécie de tranca usada
para escorar portas e janelas; já em 1712, peça móvel de metal, em forma de
argola, mão, etc., que se encontra do lado de fora para chamar; batedor. Pode
também identificar perneira de couro usado pelos sertanejos; ou, ainda, pequena
tranca de ferro que segura a cara do leme por ante-à-ré da parte superior da
madre do leme.
Estranha palavra essa que remete,
em sua história étimo-semântica, a uma ideia de aprisionamento, mas ao mesmo
tempo de abertura e chamamento. Principalmente quando utilizada por um poeta
que insiste na simplicidade como instrumento de expressão poético-identitária:
a coragem de J.S. Ferreira reside na sua lírica expressão da mineiridade que,
ao olhar para o mundo, encontra-se na percepção dos desvãos da realidade, no
flagrante desconcerto diante da harmonia desfeita pela mão do homem, como o que
se lê aqui. Esse, a meu ver, o espírito da criação no exemplo dos poemas que
compõem Apocalíptico: mais uma pepita
de ouro na já vasta produção aldrávica. Tocando numa “ferida” (paradoxalmente)
muito cultivada pela “academia” esses poemas ilustram o desejo constante de uma
superação, através dos recursos mais simples que a espécie humana já conheceu:
a linguagem.
Aqui se encontra o núcleo da
ideia de “eco” acima mencionado. Simples, por um lado apenas, pois a
complexidade desse “fenômeno” explicita-se em tantas e tão variadas formas, que
não se pode sair impune do uso do adjetivo “simples”. Na contramão da acepção
dicionarizada de aprisionamento, a aldrava, aqui, abre caminhos para um
exercício de experimentação que em nada se torna pejorativo, quando observado
sob a perspectiva de uma manifestação “regional” de cultura – o que de novo,
ratifica a ideia de “eco” do Modernismo em suas preconizações estéticas.
Regional, sim, sem medo da
palavra, pois é exatamente do que se trata, quando se fala do “aldravismo”. A
proposição implícita nos poemas atesta a fertilidade do pensamento local, sem
demérito de seu perímetro cultural, pois, sem ele, nada do que se conhece como
cultura haveria de permanecer consolidado ao longo do tempo. A discussão sobre
o cânone, as referências à cultura popular – sem, necessariamente, subscrever
qualquer das perspectivas dialéticas que esse binômio já suscitou em nosso meio
– fazem jus ao caminho trilhado pelo autor que ultrapassa qualquer
“classificação”, uma vez que se coloca de maneira aberta e consciente à
leitura, num gesto rasgado de abnegação e disponibilidade, traços de
generosidade intelectual, raro, em nossos dias.
Os poemas que compõem o volume
não deixam de acompanhar o mesmo tom e, em seu conjunto, justificam e
exemplificam, ao mesmo tempo, os protestos de manifestação do aldravismo,
enquanto via peculiar, marcada por subjetividade igualmente peculiar que se
enuncia em cada verso: desta vez, eco do “modernismo” de Ezra Pound quando
preconiza o mínimo de palavras para o máximo de sentido. Sem entrar no mérito
supostamente crítico, arrisco opinião pessoal: trata-se de manifestação poética
de valor cultural inegável que intriga pela simplicidade e se destaca pela
crueza com que desenha o perfil regional de Minas Gerais, de maneira, até,
original. O trabalho em seu conjunto merece atenção, não apenas por seu
conteúdo, o que já se justificaria, mas por sua contribuição a um exercício tão
pouco praticado, principalmente, por aqueles que se dizem intelectuais. Assumir
essa “identidade” não é jamais manter uma pose, mas se fazer, concretamente,
instrumento de explicitação de ideias e ideais, artísticos acima de tudo, com a
convicção de se estar construindo algo que contribua para incentivar a leitura,
em seu sentido mais elevado e amplo. Esse é, a meu ver, o propósito aqui, o
que, por si só, já justifica a leitura dos poemas aqui comentados.
Há que se destacar a
personalíssima incorporação da lição da poesia concreta, do início do século 20
– especificamente, no poema “Vulcão” – solto no meio de outros que desenham a
geografia da percepção do mundo sob o olhar sofismado do sujeito poético. Os
poemas respiram certo ar ingênuo, que os fazem se aproximar da poética de Mário
Quintana. Noutra perspectiva, a da constatação do fato, a lembrança trazida é a
de Drummond: um misto de melancolia e decepção numa linguagem que, em tudo e
por tudo lembra Minas Gerais.
A arte Aldravista é expressão de liberdade, rompimento de
barreiras formais de produção e ousadia na criação de conceitos novos; é arte metonímica, em que autor e leitor
percebem porções daquilo que é possível. Daí que os poemas de Apocalíptico
sejam a demarcação de uma geografia subjetiva, expressão do espanto platônico
que ensina e esclarece. Neste caso, o esclarecimento escapa diante do impacto
que a interferência humana causa mundo afora. O leitor metonímico é aquele que
busca algo que só ele viu. A obra aldravista não é presa a uma forma exclusiva
e está autorizada a ser experimentação de formas compostas de qualquer
substância. Assim é que J.S. Ferreira encarne este leitor ao longo de seus
poemas, destilando a visão sensivelmente marcada pela experiência.
Do consenso de que a arte deve
ser, antes de tudo, expressão de liberdade, o critério passa a ser o rompimento
com barreiras formais de produção, especialmente aqueles que ousam criar
conceitos novos. Essa perspectiva abre caminho para a percepção do elemento
mais importante da produção artística – o sujeito de sua produção. Assim, o
aldravismo que se exercita no presente volume acordou que produção não é via de
mão única, não é imposição do sujeito “autor”. A produção constitui em algo de
mão dupla: de um lado o autor da obra de arte e de outro o autor da leitura dessa obra. A obra exposta
através da publicação passa a ser um produto disponível, mas morto. É somente
no ato de leitura que ela recupera a vida, não na proposta do autor, não na
intenção do autor, mas na visão do leitor. O leitor se apropria de todas as
prerrogativas de construtor de sentido. Nesse ponto, encontra-se o cerne da
proposta de J.S.Ferreira: o leitor, não sendo capaz de recuperar o sentido
integral da consciência do autor, deverá buscar o sentido possível, aquele
autorizado pelas condições de produção da leitura. A proposta da Estética da
recepção está, então, presente no cerne da composição de seus poemas, o que não
deixa de ser outro eco do Modernismo: experimentação de formas compostas de
qualquer substância – som, imagens, letras, sinais, figuras, matérias sólidas,
vazios.
A leitura destacada na juventude,
conforme diz Calvino, é formativa e representa crescimento como qualquer outra
experiência pois, de fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas
pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso,
inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido
de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes,
termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas
de beleza; todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco
ou nada do livro da juventude.
O aldravismo de/em Apocalíptico, de fato, não busca
unidade, em sentido absoluto, mas a heterogeneidade que pudesse manter
características e estilo de cada um. Trata, inicialmente, de tornar pública a
poesia: forma de apresentação; a mesma que foi encontrada por J.S.Ferreira para
sair do isolamento – aquele imposto pelo fato de morar em cidade pequena do
interior, sem visibilidade porque fora, portanto, da rota de circulação
editorial concentrada nas grandes capitais. Síntese desse ímpeto pode ser entendida
a partir do pressuposto de que para ter acesso à simples existência literária,
para lutar contra a invisibilidade que os ameaça de imediato, os escritores têm
de criar as condições de seu ‘surgimento’, isto é, de sua visibilidade
literária.
A liberdade criadora que emana do
presente volume não lhe foi proporcionada de imediato: só foi conquistada à
custa de lutas sempre denegadas como tal em nome da universalidade literária e
da igualdade de todos diante da criação e da invenção de estratégias complexas
que provocam tal reviravolta do universo dos possíveis literários.
Justifica-se a produção literária
como uma porção de algo maior. Os universos completos são discursivamente
inatingíveis. Daí, aquilo que é possível pode ser comportado no interior de um
texto e compreender a voz possível de um sujeito que se percebe autorizado a
falar com liberdade, independentemente das pressões institucionais que tem
atitude de mover-se na resistência do outro, levantar-se de si na força do
peito do outro, não requer a anulação do outro, nem impõe ao outro a condição
de ancoradouro apenas, sem de longe recorrer ao pedante conceito acadêmico de
alteridade, pois reconhece em si mesmo a mesma condição de suporte do outro.
Ancora o outro e ancora-se no outro, promíscuo na condição de tocar e se deixar
tocar.
Da mesma forma, a visão de mundo,
do ponto de vista do poeta, é a de um ator, no palco, mirando a plateia
ofuscada pela luz em linha oposta. O cenário é poesia jogada na vida
escancarada do desnudado teatro, em que as luzes da ribalta impedem que atores
tenham visão da plateia. O ponto de vista a partir do palco, ofuscado por
luzes, é a realidade percebida – está lá, mas é sombra apenas; responde, mas
não tem rosto; reage, mas não se faz ver em gestos. É a mais lúcida visão do
poder já revelada na poesia. Focos de luz nos atores, sombra na plateia. Assim,
visual e auditivamente, o eco se esboça, marca identitária da poesia aldravista
que se deseja livre desde a concepção até o gozo estético que proporciona.
Parabéns ao poeta e fica o convite para os possíveis leitores de Apocalíptico: deleitem-se!
José Luiz Foureaux de Souza
Júnior
Mariana, Março, 2013


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