“Essências: sonhos, frutos e luzes”

Seguindo a ordem, trago hoje um texto que escrevi para apresentar um livro de Andreia Aparecida Donadon Leal, poeta mineira, amiga dileta. Espero que seja do agrado de quem ler.
Tríades, trios, triângulos: a poesia de Andreia


Três são as fases da vida; três, as partes do dia; três, as pessoas da Santíssima Trindade e os lados do triângulo. Número cabalístico, de simbologia mais que milenar e de uma inexplicabilidade visceral. sonhos, frutos e luzes: três elementos que compõem a “essência” de que fala a poesia de Andreia Donadon Leal. Destas três, duas são voláteis, efêmeras, etéreas: sonhos e luzes. A outra, concreta, sustenta a própria existência humana, faz parte de sua alimentação. Nesse processo, a poesia se faz veio mais que privilegiado. Nesse curso, penso em três mitos: Helena, Sísifo e eterno retorno.
O primeiro fala do rapto de Helena, que a mitologia grega descrevia como a mais bela das mulheres. Desencadeia lendária guerra. A mulher é personagem da Ilíada e da Odisseia: filha de Zeus e da mortal Leda – esposa de Tíndaro, rei de Esparta. Ainda menina, é raptada por Teseu, depois libertada e levada de volta para Esparta por seus irmãos Castor e Pólux. Para evitar disputa entre pretendentes, Tíndaro fez com que todos jurassem respeitar a escolha da filha. Ela se casou com Menelau, rei de Esparta, irmão mais novo de Agamenon, que se casara com uma irmã de Helena, Clitemnestra. Helena, contudo, abandonou o marido para fugir com Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. De certa forma, ela trai seu destino, tomando as rédeas dele por decisão apaixonada. Muitas vezes, o entendimento das atitudes humanas não se faz perceber pela clareza do discurso, mas pela sinuosidade da “poesia”. As aspas se justificam: o campo semântico é muito amplo! Helena foi adorada como deusa da beleza em Terapne e diversos outros pontos do mundo grego. Sua lenda foi tomada como tema de grandes poetas da literatura ocidental, de Homero e Virgílio a Goethe e Giraudoux. Por que não dizer de Andreia Donandon Leal também? Veremos...
O segundo, Sísifo encarnava, na mitologia grega, a astúcia e a rebeldia do homem frente aos desígnios divinos. Sua audácia, no entanto, motivou exemplar castigo final de Zeus, que o condenou a empurrar eternamente, ladeira acima, uma pedra que rolava de novo ao atingir o topo de uma colina, conforme se narra na Odisséia. Ele é citado na Ilíada, de Homero, como filho de Éolo – aqui, o movimento dos ventos é muito forte em se simbolismo dinâmico, metonimizado nos caminhos e descaminhos que a existência oferece ao sujeito da poesia, como nas andanças de Andreia pelo “ser” feminino que povoa suas linhas. A lenda mais conhecida sobre Sísifo conta que aprisionou Tânatus, a morte, quando esta veio buscá-lo, e assim impediu por algum tempo que os homens morressem. Quando Tânatus foi libertada, por interferência de Ares, Sísifo foi condenado a descer aos infernos. Quem pode negar, com absoluta segurança, que a poesia é a expressão dessa índole impulsiva, que encontra no verso uma saída para a “danação” de existir? Assim, o fazer poético de Essências transfigura, quase que pelo avesso, a condenação de Sísifo. Explico-me. Em lugar de prefigurar uma danação, em sentido pejorativo, a poesia faz-se arauto de outra forma de existir, pela palavra. Uma espécie de aldrava que expande o horizonte de expectativas de quem observa poeticamente a paisagem como esboço de uma existência sempre por fazer – como o sentido na mistura de cores e formas numa tela – outra metonímia poética.
Por fim, o eterno retorno, conceito desenvolvido por Friedrich Nietzsche, considerado por ele próprio um dos seus pensamentos mais aterrorizadores. Foi durante um passeio em 1881 que Nietzsche refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se “repetem”. Em um de seus “aforismos” o que leva o número 56, o filósofo diz:
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
A ideia a destacar é a de que polos se alternam nas vivências numa eterna repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio,… tudo vai e tudo retorna. Porém, esses polos não se opõem, mas são faces de uma mesma realidade, isto é, um complementa o outro, são contínuos de um jogo só. Alegria e tristeza são faces de uma única coisa experienciada com grau diferente. A ideia de temporalidade, como sequência, escapa a este pensamento. A realidade, para o filósofo, não tem finalidade nem objetivo a cumprir, daí as alternâncias que repetem. O devir não ocorre de modo exatamente igual, mas são variações de sentidos já vivenciados, faces da mesma realidade. A alegria e a tristeza que senti não serão iguais no amanhã, mas voltarei a experimentar esses estados em suas diferentes variações.
Essa mesma alternância é metonimizada pela poesia de Andreia. No conjunto de seus versos, nada há que não corrobore esta tese. De fato, o próprio fazer poético é, em si mesmo, exercício de repetição e de alternância, de avanço e retorno, como bem queria o filósofo. Assim não fosse, teríamos que destruir as hipóteses de Harold Bloom, por exemplo. Mas a história, neste caso, seria outra. Aqui, não procuro avatares para a refiguração de um possível ater ego para a voz poética, que se denuncia a si mesma nos versos de Essências. Ainda que o pessimismo possa ser localizado no substrato, a poesia neste livro não pode ser do mesmo modo chancelada. Ao contrário, é um grito de vitória sobre o pessimismo, no sentido em que se faz ouvir de dentro da própria experiência existencial. Fica, então, para sempre irrespondida, a questão: se tudo retorna – o prazer e o desprazer, a dor e o deleite, a alegria e o sofrimento – pode-se mesmo viver até a eternidade onde nada de novo irá acontecer além de vivências com nuances variadas de uma mesma realidade?
Insistir. Verbo transitivo indireto e intransitivo. Pode significar “pedir novamente (algo) a (alguém), apesar de já ter recebido uma ou várias recusas”; “aconselhar (algo) a (alguém) novamente ou várias vezes”; “emprestar particular importância a algum assunto, sobre o qual se volta e se estende mais do que o normal; repetir, reiterar”; “não desistir; perseverar, continuar”. Nos dois primeiros casos, o verbo é transitivo indireto. Da lição gramatical fica o insigt poético da autora: a mediação de uma subjetividade outra – a do leitor – para o trânsito de sentidos que as imagens suscitam aldravicamente nos versos que passeiam pelas páginas de Essências: sonhos, frutos e luzes”. Aqui, a poesia pede novamente, aconselha inúmeras vezes, a quem enfrenta os versos para recusar a opacidade e abandonar a preguiçosa atitude decifrar códigos pela superficialidade dos signos. A contiguidade de seus sentidos empresta importância a assuntos corriqueiros para mergulhar na intransitividade do feminino. É como se os mitos não deixassem de eternamente se repetir a cada linha de poema que é escrito. Não é diferente aqui!
O sentido aqui é outro: sem militância de gênero, sem discursividade proselitista, a poesia de Andreia desvenda o feminino em sutilezas verbais que não se envergonham de deambular pela experiência empírica de viver. O aspecto intransitivo do verbo cede lugar a uma sensibilidade elaborada em figuras sutis de colorido contundente: estar vivo e criar. Nada como perseverar, continuar, não desistir. Percebe-se, logo nas primeiras linhas, a insistência no sonho como matéria de criação poética. Fica clara a visão lúcida do fazer poético que se dá por associações, muitas vezes, inconscientes, reelaboradas pela linguagem metonímica. Quem adentra estas páginas, logo se dá conta da contiguidade entre sentido poético e inconsciente. As aparentes incongruências oriundas da passagem do tempo revelam a visualidade da experiência de existir como em “Envelhecer” e “Fruto”, não sem deixar de curvar-se à experiência do religioso:

Oração

a poesia
em todos os tempos
sempre foi a oração
dos que amam
(...)

De quebra, a sombra protetora e fulgurante de Fernando Pessoa, caminha lado a lado com a criatividade da autora, em suas reflexões. O universo feminino transcende fronteiras de gênero, sepulta rotulações reduoras e acende a chama da interação – atitude “insistentemente” reiterada, clamando pela inlocução com o leitor na fatura da poesia:

Reflexão

no cais
e
no caos
em busca de mim mesmo
(...)

 O cais poético é o mesmo em qualquer língua, em qualquer tempo. O movimento da maré não prescinde a subjetividade ambivalente que aproxima, elide mesmo autor e leitor, nas malhas dos versos. Em qualquer um dos textos, o que se pressente, às vezes, literal, às vezes sub-repticiamente, é a imagem de um corpo que se desenha poeticamente em palavras. O corpo, como índice do poético que se transmuta em palavras articuladas por sinédoques questionadoras, inquisitivas, exploradoras de sentidos, oculta-se na imaginação de quem lê. O feminino se esconde em subterfúgios semânticos, indiciados por figuras recobertas de simplicidade e de sentido literal: transposição da ideia equivocada da criação como dificuldade ou elaboração hermética – idiossincrasia aldravista.
A princípio a relação corpo e poesia é bastante óbvia. A construção/elaboração da linguagem é articulada em formatos estéticos, seja pela fala, seja para cifragem de códigos. Relaciona-se com a emergência do corpo, por dar consistência ao que apreende emocionalmente do ambiente, no intuito de tornar-se ambiente, ao expressar-se. Uma forma de dizer que a linguagem poética é o modo de o sujeito se tornar um no/com o todo. A materialização da experiência no todo é sempre, e sob quaisquer circunstâncias, mediada pelo corpo em sua integridade.
O corpo agencia suas próprias concepções em linguagem. Quando se afirma que no humano tudo é linguagem, algo, no entanto, fica em espreita. A função mais imediata do corpo é a comunicação. O próprio estar do corpo no ambiente já é comunicação. Já há uma relação explícita de comunhão entre os fenômenos da natureza corporal e os fenômenos da natureza do ambiente em que ele se coloca. A partir desse ambiente, com todos os demais, a circunstância repete-se nos mais amplos espectros do sentido. Do simples estar do corpo, toda uma rede de interlocuções com o espaço-tempo já está em andamento. Real e/ou do virtualmente. O corpo é eminentemente material, isso, no entanto, não o limita à sua concretude. A carne ao se reconhecer carne projeta sua própria existência pra si mesma e ao fazê-lo imagina, é tomada por um fluxo de imagens, que desestabiliza seus estatutos de material hiper concreto: a linguagem poética. Deseja o que projeta em imagens, e se coloca a cada instante em carne e forma expressiva desestabilizando também o ambiente – o fluxo espaço-temporal. A filosofia de Merleau-Ponty que o diga. A experiência de consciência é o produto mais obvio derivado dessa comunicação:

(...)
Seu corpo
retrato permanente
em
minhas ocres paredes,
enlouquecem minha razão.
(...)

Enlouquecer pela razão não é perder o veio de sentido do existir. Na associação feita pela poetisa, a imagem do tempo que passa, associa-se à da percepção de que tudo o que é vivo se decompõe. Não há metafísica que consiga explicar, em termos absolutos, a derrisão incontornável desta constatação. Nos versos de Andreia, pensar o corpo é como escrever autobiografia: registra-se o vivido, sem o temor da crise, ou da deliberada acusação de sua falência. A coragem de encarar a decomposição, que aqui me faz lembrar Cioran, não impede a originalidades nas cores usadas pela autora. Na verdade, a cada passo, seus versos reiteram a miríade de nuances que o fato de estar vivo denuncia e sustenta: implacabilidade do destino desenhada pelo verso grácil, numa tela sempre em mutação cromática, iluminada pela razão que se liquefaz na tinta que escorre da tela. Andreia é artista plástica. Como tal, utiliza de forma interessante, sutil, delicada e peculiar algumas técnicas pictóricas, criando as pontes aldrávicas de seu dizer poético.
Na experiência do existir do questionamento/desejo da carne (Por que só sou nesse quando e nesse onde?) a existência do espaço-tempo e do corpo se desfaz, virtualiza-se. A própria concretude da carne é, portanto, sua mais clara abstração. Aqui, ela se expressa pela associação às frutas, à terra, ao útero que vai secando na medida em que o corpo se arrasta pelas pedras de Mariana, de Granada, Barcelona ou Santa Bárbara.  A universalidade dessas visões não pode ser questionada, sob pena da perda de sentido do exercício poético de expressar a subjetividade. Não é esse mesmo o fazer poético mais genuíno?

(...)
Impetuoso,
pleno de ira intelectual,
discrepante con la realidad,
filete de carne arrancado, con las uñas,
del codo destrozado.
(…)

Essa incessante pulsão poética do corpo pelo prazer de cada instante delimita suas ações, contorna suas formas projetadas, individualiza e socializa a identidade em decifração atualizada no ambiente, agora já sem distinção entre o fora e o dentro, ancorada nesse limiar que é a linguagem, por sua vez ancorada à língua – as vezes traços, as vezes pele, as vezes forma, as vezes sons, mas sempre mecânicas de articulações e músculos testando a materialidade, através de relações de natureza mais diversa! O que o corpo quer então da poesia? Decifração? Ludicidade? Comunicação? Comunhão? Se tudo é linguagem, se no universo também as relações se configuram em termos de interlocuções e contrapartidas, a ordem, o nível, os códigos desse jogo ao serem notados pelo corpo convidam o corpo, essa individualidade, a um mergulho no universo, um mergulho que a depender dessas individualidades, do tempo e do espaço, sob qualquer dos pretextos acima, mas um mergulho irrevogável. Irrevogável, sobretudo, por questões materiais.
A materialidade emergente do corpo no/do espaço-tempo, denuncia sua condição de imediatez: agora/aqui, não só em termos reais. A imagem é ainda mais efêmera e eterna. A relação entre o corpo e a linguagem, pode se dizer, é a da emergência do desdobramento, não da meta, mas do desdobramento. Esse mesmo desdobramento que faz da proposta do Aldravismo muito mais que mera repetição utilitária do conceito de metonímia. Ao contrário, essa revisitação reacende chama bruxuleante da poesia que se pensa moribunda. Das alterosas, o apontar a metonímia como vetor de força poética, já, por si só, denuncia a vontade de vencer o próprio tempo, tempo poética, sem data e sem geografia.
A cada interação de dados entre as individualidades do sistema ocorre dentro da própria comunicação um desdobramento, um devir de encantamentos possíveis. A reafirmação do tempo pela expectativa de novos possíveis encantamentos. Qualquer que seja o objeto de encantamento criado pelo corpo na sua construção cultural. A partir desse encantamento a poesia se instaura no real a partir do corpo. Expressa tal individualidade no ambiente, e a partir daí o ambiente carece de novas operacionalizações, provocado por sempre novas desestabilizações, ad infinitum, mas sempre agora aqui. Nada mais parecido com o eterno retorno aqui já aludido!
O infinito-agora rejeita a burocracia. Rejeita o cumprimento de normas e procedimentos lúgubres. O infinito-agora se realiza no vivo, na contradição, na ansiedade, na curiosidade, na falha, no medo, enfim na instigação do vivente. O presente, dado a sua complexidade só pode ser tratado pelo poético. Por isso o corpo-agora-vivo rejeita o prosaico. Rejeita a hora, e se encanta com o tempo, rejeita o caminho pra se perder no espaço. Rejeita futuro e passado pelo sonho presente. Submerso no presente, a individualidade-corpo procura a poesia mais que o contato. Não apenas devido ao reconhecimento da efemeridade do contato, mas, sobretudo, pela urgência de eternidade presente contida na relação que o corpo pode ter com o espaço-tempo, que no fim das contas é a única possível. Qualquer outra relação com o ambiente se torna impossível já que o corpo de qualquer individualidade é criado em ficção na cultura, a própria burocracia relacional é um poema. Tentativa de poema, mas poema. Daí, a proximidade com o castigo de Sísifo: prática sem fim que não cansa, nem mata. Ao contrário revivifica as energias vitais e, em sua representação retorna sempre ao começo, sem fugir de seu próprio destino. De certa forma, a sombra de Helena ainda paira por aqui! Um poema: único modo do humano-corpo se aproximar do não eu, se é que ele existe:

(...)
todos fingem que não veem
a decrepitude do seu ser
que caminha rastejante pelas ruas,
dói o desprezo
dói o não ao caso
dói a filha da puta da vaidade,
maldita praga que corrói
lentamente
ossos
entranhas
e
fissuras
em cada ponto do corpo.
(...)

O corpo, essa integridade analítica, individualidade universal, tem poucas saídas a não ser tentar a poesia, sem nunca atingi-la de fato, se se pretende vivo. Tudo mais é a burocracia do existir: comer, cagar, dormir, trepar, viver e morrer. Na verdade, outra poesia, outra ficção, que o ego pode suportar, se consegue reter na máscara o momento fugaz do flash sobre a maquilagem, mas o corpo não o consegue, ao que parece. Para além dele, na poesia de Andreia, talvez a insistência das flores, outro elemento da alucinação poética que desenha o imaginário feminino. Desde Ventre de Minas, a ideia de percorrer o interior do ser eclode na poesia de Andreia. Em seu livro de estreia, Cenário noturno, a escuridão uterina é alegoria implícita na poesia de busca de conhecimento interior que Andreia desenvolve. Sua experiência e talento de artista plástica contribuem sobremaneira para a elaboração de seu discurso poético, que trilha as mesmas sendas de perquirição da intimidade, sobretudo, feminina. Aqui, o sol, o dia, a luz são elementos aparentemente contraditórios. Apenas aparentemente, dado que sua visualidade ilumina as mesmas sendas – objeto de desejo da voz poética. Num jogo de espelhos imaginário, o verso de Andreia não funciona como espada de Dâmocles, antes tece inconsútil discurso de delicadeza e fulgor que imprimem no inconsciente a marca do feminino, rasura de desejo, sem sexismos.
O caminho do fazer artístico é trilhado sob perspectivas variadas. Sempre à luz da intuição feminina que poeticamente transcende o lugar comum para anunciar a miragem de verdades interiores nem sempre desveladas. O processo acompanha o ritmo da própria existência como se não houvesse a mínima possibilidade de separar uma coisa da outra:

Arte

A arte me encanta
luz do dia
ou talvez me espante
breu da noite,
manchas nas telas
tons da manhã
que busco interpretar
esmorecer da tarde.

O que eu poderia dizer mais...? O processo de escrita de si é tão antigo quanto o próprio processo de escrita. Considerando a escrita como sistema de símbolos formalmente estruturado que segue determinadas regras comuns, pode-se dizer que tal processo de registro do cotidiano do sujeito, de forma não oral, é anterior inclusive ao próprio aparecimento da escrita formal. Esta referência genérica é alimentada pela poesia de Andreia Donadon Leal. Artista plástica, a autora, com seu traço verbal, rasura a memória coletiva de seus leitores com registros visuais que bem podem lembrar variações de pinturas rupestres. Estas, por sua vez, trazem em sua “herança” cultural o limite entre o concreto e o possível. Por um lado, tal prática, ainda que ancestral, prefigurava o desejo constante de comunicação, ao mesmo tempo em que viabilizava a expressão deste mesmo desejo em imagens verossímeis e concretas, num discurso icônico de representação por contiguidade. Na poesia de Essências, esta dubiedade expressiva ganha reforço vocabular, ancorado nas associações íntimas feitas pela poetisa.
Obviamente, não é possível deduzir que os motivos que levaram o homem pré-histórico a desenhar em paredes de cavernas sobre si são os mesmos que fizeram o homem moderno escrever em diários pessoais, nem mesmo o que leva o sujeito contemporâneo a escrever em blogs que são de cunho individual e pessoal, porém estão disponíveis em espaços públicos. O fim da Idade Média e o início da Idade Moderna marca o que se convencionou chamar de início do processo de escrita de si, tal como é hoje conhecido! Escritas individuais, o diário pessoal é representante desse “gênero”, ainda sem superar a força vital da poesia. Antes disso, esses escritos tinham caráter público. No Renascimento, a partir da experiência de perda de referências, devido à falência do mundo medieval e a abertura do ocidente ao restante do mundo, o homem é lançado a uma condição de desamparo: crise. Um passo muito curto para alcançar a outra margem do rio: referências internas. Diante disso parece assentada, definitivamente, a pedra fundamental da poesia que, em sua “essência”, faz muito mais que metaforizar realidades, substituindo-as em seus significantes, para realcar-lhes sentidos ocultos, outros, vários. Metonimicamente, como no caso de Essências, a aventura é pela escrita poética como via crucis da própria existência: fica de fora o gólgota. O sujeito, desamparado das explicações de sua existência a partir do divino, estaca diante do dilema de se autoconhecer. A escritura poética de si funciona como espelho que possibilita se enxergar pelo avesso.
O sujeito, diante da crise exterior, não tem o conhecimento e o esclarecimento sobre o que realmente acontece no mundo. Como se sente inseguro, busca a segurança voltando-se para o seu interior, usando a escrita poética de si como uma dessas ferramentas. Existem tantas outras possibilidades que poderiam ser trazidas, como a vontade de guardar segredos, ou a possibilidade de utilizá-la como registro de memórias a ser acessadas no futuro... Prevalece a poesia em suas “Essências: sonhos, frutos e luzes”. Evoé, Andreia!

Contagem, inverno de 2011.


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