Como “se dar bem” com uma tese de doutoramento.
Leia toda a obra de Walter Scott e tudo o que encontrar
sobre ela. Leia os três romances indianistas – O guarani, Ubirajara
e Iracema – do José de Alencar, e um que outro comentário, resenha ou
artigo sobre eles. Afinal você vai escrever uma tese de Literatura Comparada. A
sua proposta – você vai dizer isso na “Introdução” da tese e, depois, na hora
de fazer a sua defesa – é comparar o trabalho ficcional dos dois, cada um
utilizando sua língua, como instrumento de consolidação da identidade cultural
à qual pertencem, utilizando, para tanto, o desenvolvimento de um uso
nacionalizado” da própria língua: o scottish, no caso do Scott e o “brasileiro”,
no caso de Alencar. Só esta proposta já vai angariar muitos “ah” e “oh”, tanto
da banca de qualificação, quanto de alguns colegas – não todos porque, afinal,
todo mundo é humano e “a inveja mata”. Escreva umas 450 páginas, espaço 1,5,
margens de dois centímetros em papel A4; pode usar Times New Roman ou Arial. Tudo
isso vai depender dos preceitos normativos exarados no regulamento do curso de
pós-graduação ao qual você está vinculado(a). Dessas 450 páginas, 50 serão
reservadas para Introdução, Conclusão e Bibliografia. As outras 400 podem ser
divididas em dois momentos: uma montagem do “arcabouço teórico” de que você vai
se servir para desenvolver sua tese e a “análise” propriamente dita – não se
esqueça: comparativa. Veja que você já tem aí quatro capítulos que podem ser
divididos em subcapítulos e este, por sua vez, em secções que podem, a seu
critério, se espraiarem por tópicos e subtópicos. O negócio é seduzir o leitor –
a banca, sobretudo, dado que depois de defendida e aprovada (se aprovada!) a
tese vai ganhar a sóbria, circunspecta, conspícua, irrecorrível e seráfica
pátina do tempo em alguma prateleiras aqui e alhures: suprema glória do
academicismo mais erudito das/nas ditas “universidades” tupiniquins (Eu escrevi
mesmo universidades?). Em outras palavras, o cartapácio vai comer poeira por
todo o sempre. Pois bem. No desenvolvimento escrito de sua... tese, você deve
se aprofundar cirurgicamente sobre os detalhes mais ínfimos do processo de
constituição e consolidação do scottish, exemplificando com passagens
mais que esmiuçadas dos textos do Walter Scott. Pra não dizer que você se
esqueceu do “recorte” comparatista de seu trabalho, você solta aqui e ali,
exemplos do Alencar, acompanhados, comme il faut, de comentários genéricos,
que servirão, é claro, para corroborar tudo o que você disse a respeito do
outro autor. Claro está que esse tratamento é mais que admirado pelos doutos
arguidores que vão primar nos elogios, destacando sua acuidade, seu cuidado,
sua atenção, sua delicadeza, a profunda imersão no “universo scottish”
que serve, entre outras coisas, para justificar a aparente falência do escritor
tupiniquim. Isso ratifica a importância de língua inglesa e sua coerência em
relação ao que você já faz e vai continuar fazendo: enaltecendo a literatura de
língua inglesa, salpicando suas apresentações de detalhes curiosos da produção
ficcional “da terra”, em sua mesmice, sua futilidade, sua superficial faceta
festeira, descompromissada e ingênua. Mais “oh” e “ah”, com sorriso matreiro da
banca e da plateia – numerosa, claro, afinal, seu orientador é o coordenador do
programa. Pronto. Você conclui sua defesa. Recebe seu diploma de conclusão do
doutoramento. Já pode usar o “Dr.” na frente de seu nome e empinar o nariz
quando forem apresentar você numa das miríades de mesas de comunicações livres
nos inumeráveis congressos mundo afora. Aqueles que te dão 15 minutos pra você
falar, enquanto quase ninguém presta atenção e, ao final, todos saem correndo
para os fuxicos de bastidores no coffee break. O mais chato que pode
acontecer é você se deparar, na banca, com um “ferrinho de dentista” que vai
elogiar a manufatura da sua tese mas vai fazer aquela pergunta que você temeu
escutar durante as quase quatro horas de defesa e arguição: “cadê a comparação?”.
E você não vai responder. É este mesmo “ferrinho de dentista” que, na reunião
fechada da banca para as deliberações finais, vai se recusar a assinar a ata de
defesa que destaca sua tese com menção de louvor e recomendação para
publicação. Ele estraga a sua festa. Põe água na sua fervura. O argumento vai
ser a pergunta não respondida, por óbvio! Mas ele é só mais um “ferrinho de
dentista”! Boa sorte!
PS: para sua alegria, o tal “ferrinho de dentista” jamais
vai voltar a ser convidado para uma banca na universidade em que você se
doutorou!


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