Ecos do passado - final
Depois de um período extenso - ainda que nem tanto - de ausência, volto para concluir a série que reúne textos que escrevi e sobre os quais não tenho informações mais detalhadas como origem, objetivo e localização. É isso, então, acabou!
A Literatura, representação em palavras, signo gráfico que não diz nada
se o olhar do leitor por ele não passar, continua a tradição atávica para a
espécie humana: ler. Ler a América, hoje, e reler textos que passaram a compor
o acervo de bibliotecas estranhas e familiares. É assim que funciona, caso se
leve a sério o que diz Freud quando pensa sobre Das Unheimliche. Os escaninhos da História alimentam as traças do esquecimento, ou não,
como poder-se-á ver com a contribuição de Deonísio da Silva. A América é um
objeto de desejo de um conjunto de feitos grandiosos, de personagens heroicos, quase
míticos. Por outro lado, o rever estes textos desnuda uma outra coisa,
inesperada. A palavra constrói um outro sujeito, duplo, perdido entre espelhos:
o da memória e o da História.
De um como e um porque sem saber (ao certo onde)
As coisas se
tornam menos importantes do que as ideias das coisas: tudo o que for feito às ideias
das coisas inevitavelmente acontecerá também com as coisas. .
(Fraser, citado
por Freud em Totem e Tabu)
Toda dicotomia – e a que encadeia História e Literatura
não escapa a esta regra – leva a pensar em dúvida, em questionamento. Os anos
60 e 70 estão embutidos neste quadro referencial. Eles foram um fervilhar, direto
e constante, de ideias. Eles espalharam-nas como pó. Este texto acompanha e
respeita esta tradição. O jogar ideias pode parecer uma prática criticável mas abala
estruturas, incomoda e faz pensar. Como um ventilador ligado sobre um prato de
farofa, começo com uma pergunta, uma dúvida: e se Américo Vespúcio, como o
Jesus, de Saramago, se questionasse sobre os rumos de sua viagem, de sua missão,
negando-se a embarcar? Talvez não estivéssemos aqui, pensando a dicotomia
descoberta/invenção, presente de certa forma na cultura brasileira, mediada que
é por uma Literatura formada e escrita numa língua segunda, importada, imposta
e, aqui mesmo, caracterizada por uma diferença plural que, por paradoxal que
seja, identifica uma diferença. Se o descobridor da América não tivesse
descoberto a América, é bem provável que a cultura brasileira; não necessitasse
de seu estatuto de objeto de pesquisa constante. Parece claro afirmar que todo
objeto de pesquisa é um “objeto de desejo”.
A América, na palavra que a identifica, pode
ser lida como um chiste perverso, construído com um nome de homem, e colocado
na berlinda através desta mesma palavra. Muitos são os eventos que têm aconteci
do aqui, sob a égide dos quinhentos anos de descobrimento da América. Fico
pensando no padre que celebra a missa das vinte horas, na catedral. Desde o início
do mês de outubro, ao lado do comentarista, ele fala da comemoração dos
quinhentos anos de evangelização da América. 0 filme A missão
é uma obra de arte que deve ser lembrada aqui. Não apenas por se tratar de uma
obra de arte de inegável valor, mas também por colocar em discussão os custos e
as consequências desta evangelização. É preciso que se diga que os jesuítas primaram
pelo recalcamento da cultura autóctone para impor a religião católica aos
índios que na América já viviam. Com esta atitude eles podem ser arrolados
entre aqueles que, num certo sentido, inventaram a América. Sim, porque o
desejo de trazer para cá a cultura europeia – portuguesa, espanhola, ou italiana,
tanto faz – esboçou uma terra outra, radicalmente diferente da realidade que
aqui se encontrou depois da descoberta. Respondendo a uma questão sobre o
assunto, o crítico e ensaísta Wilson Martins fez declarações bastante
instigantes, a saber:
Sim, mas as pessoas não pensam
na alternativa. O que se queria? Que Colombo não descobrisse a América? Outro
a teria descoberto. As consequências seriam as mesmas. Ninguém nega o horror
que foi o processo civilizatório, mas, de um ponto de vista realista,
não podemos evitar essas violências que ocorrem a longo da História. Na Europa
a civilização foi feita à custa de hecatombes de populações, guerras e,
destruições. E é o que chamamos de civilização. Ou aceitamos esses males para
obter o fim que desejamos ou
então não fazemos nada. Os índios não podem ser conservados na Idade da Pedra
em pleno século XX. Ou se adaptam ou serão destruídos. Não porque tais pessoas
vão lá para destruir os índios. Eles serão destruídos no processo civilizatório
porque não viverão mais no seu tempo. Sei que essa é uma posição impopular, mas
temos que enfrentar essas questões seriamente.
Será que as coisas se passaram tão simplesmente
assim? Outro teria realmente descoberto a América? As consequências teriam sido
realmente as mesmas? A justificativa parece um tanto tendenciosa para não dizer
sintomática da indiferença. O argumento da civilização enquanto processo
também de sofrimento, é uma falácia ambígua e perigosa. A sombra da resignação
não parece atenuar os efeitos de um calor que vem de dentro, que incomoda, que
parece não encontrar um refrigério adequado a suas apoquentações. É
perigoso afirmar que o tempo do processo civilizatório pode petrificar
situações, depende do ponto de vista. Quem, realmente, quer assim? Alguém
perguntou à população Americana à época do descobrimento, se ela queria passar
por um processo “civilizatório”?
É bom pensar também que tudo o que se
conhecia sobre a terra descoberta sempre foi mediado pela palavra. As
metrópoles envolvidas no evento ficaram sabendo de tudo através das cartas, dos
comunicados, das descrições verbais de quem aqui aportou. Palavra esta que
mimetizava o dado concreto, filtrada que era pelas subjetividades em combate,
na luta pela posse definitiva da nova terra. Há, então, uma espécie de atribuição
de empenho que se faz a Literatura, enquanto repositório de textos
informativos. A etimologia da palavra “Literatura” e insidiosa. Repleta de
curvas e sinuosidades, é apenas uma palavra, entre tantas outras.
Tal como América. Se o navegador italiano não tivesse deixado a sua terra
natal, talvez a descoberta da América não se desse; ou melhor, seria impossível
a sua invenção. Pois que a América é apenas um nome atribuído a algo que ganha
consistência depois de nomeado; um lugar identificado por alguém, em algum
momento, por algum motivo. A coisa foi encontrada ao cabo de uma viagem.
Sujeito, olhar e viagem voltam-se miticamente para algo desconhecido. Com estes
três elementos pode-se pensar no caráter transitório que marca todo e qualquer
descobrimento. Depois de identificado por um nome que pode ser inventado, o que
se descobriu passa a ser conhecido, deixa de articular o fantástico, o
inesperado, o mágico da descoberta. Está descoberta a América. Está inventada a
América? Para finalizar esta primeira abordagem do que me proponho dizer, quero
apresentar a “verdade” sobre Colombo, nas palavras de Jô Soares:
Neste momento de comemorações sobre a
descoberta da América, muito foi dito a respeito de Cristóvão Colombo. Colombo
para os mais íntimos. Uns se pronunciaram contra, outros, a favor, outros, muito
pelo contrário. Desbravador? Descobridor? Devastador? Conquistador? Várias
novas teorias foram formuladas. Faltou, no entanto, clareza.
Colombo era, quando menino, bem
criança. Homem do seu tempo. Colombo foi filho de seus pais, e também neto de
seus avós, pertencendo desde cedo à família.
Extraordinário navegador,
possuía ele ainda a peculiaridade de só exercer suas habilidades marítimas
quando a bordo de caravelas e seus conhecimentos náuticos se restringiam aos
navios e a outras embarcações. O que poucos sabem é que Colombo era um homem
que tinha os pés no chão, sempre que estava em terra firme.
Dizem alguns cronistas bem
informados e documentados que Colombo demonstrava muito mais talento e
inteligência do que todos os que eram menos dotados do que ele. Tanto, que
passou para a adolescência na puberdade e depois disso ficou adulto. Quando
menos se esperava, Colombo, num rasgo cronológico, atingiu a maioridade aos 21
anos.
Se ainda pairavam dúvidas
quanto à verdadeira origem de Colombo, hoje pode-se dizer, sem sombra de
dúvidas, que ele veio ao mundo na sua cidade natal, exatamente no dia do seu
aniversário, que, aliás, era comemorado anualmente. Num ponto, todos os
historiadores concordam: Colombo casou-se com sua mulher.
Além de exímio navegador. Colombo
era homem de várias habilidades e foi perito em tudo aquilo que de melhor fazia.
Registros da época narram, com detalhes, que sua memória era tão fantástica que
ele conseguia se lembrar nitidamente
de tudo aquilo que não esquecia. Pessoa de
poucos amigos. Colombo se dava com quem conhecia
e tratava com indiferença todos aqueles que não
eram das suas relações. Uma frase da época o definia perfeitamente:
“Amigo dos seus
amigos, inimigo dos seus inimigos”.
Ao contrário do que dizem, antes de ver o mar, Colombo
jamais tinha pisado numa nau. Hoje sabe-se,
pelos relatos de antigos marinheiros
que viajaram com
ele, que, no fundo,
Colombo era uma pessoa
de temperamento suave, a não ser quando
se exaltava, e, afirmam ainda, que o famoso
navegador só se cansava
em momentos de exaustão. Seus
homens o admiravam, pois nunca foi visto
dormindo quando acordado.
Tantas viagens
fizeram com que, no fim da vida. Colombo
dominasse com perfeição
todas as línguas que falava
sem dificuldade. Alguns
pesquisadores dizem até que quando ele conversava
usava a palavra,
deixando apenas para redigir
tudo aquilo que escrevia. Além disso, essas viagens fizeram
com que o famoso navegador conhecesse todas as regiões do
mundo a não ser aqueles
lugares onde nunca esteve.
Tamanho era o empenho
de Colombo naquilo que fazia que certa vez, na
Itália, um velho marinheiro ao vê-lo tão atarefado
cumprindo seus afazeres no convés não resistiu
e exclamou em genovês arcaico: “Quiste,
quan labut, lavór”. Em
português significa: “Este, quando labuta, trabalha”.
Finalmente, é fundamental que
se esclareça de vez o famoso episódio do ovo. Por mais que isto venha a
contrariar opiniões abalizadas e consternar especialistas e acadêmicos, é
preciso que se revele a verdade: o ovo não era de Colombo. Era de galinha.
******
Descobrimento, em certa medida, é o assunto
de Asas do desejo e Europa, filmes que voltam
seu olhar para um país destruído, em pleno processo de reconstrução. Uma situação
análoga ao descobrimento, porque uma coisa diferente está aparecendo. 0 cenário
em ruínas de Europa dialoga com o contraste entre
cores e preto-e-branco de Asas do desejo. Em ambos os textos
fílmicos, um outro indivíduo descobre, de novo, um país. Algo desconhecido, não
nomeado, ainda, 0 olhar estrangeiro pousa sobre a paisagem circundante, um
descobrimento outro, diferente.
A voz do narrador em Europa
condiciona o protagonista a obedecer às suas ordens. A onisciência narradora é
incomparável, e no desenrolar da alegoria, é possível ler o desenvolvimento de
um outro olhar: o da crítica, presente no discurso do anjo, em Asas do
desejo. Passados cinco séculos, esta se volta sobre si mesma,
a crítica, centralizando forças e atenção sobre o novo continente, para
deslindar a dúvida fundamental: descoberta ou invenção? A coisa pode se
complicar quando se pensa que a América são três: sul, centro e norte; se
misturam numa infinidade de diferenças em que a Literatura, mesmo com a
diversidade linguística, consegue identificar num texto comum a ser
decodificado, reelaborado, narrado e, depois, criticado; para que o princípio
do prazer não seja subjugado pelo da realidade.
É bom pensar nos caminhos que a Literatura
Brasileira, em sentido lato, tem tomado para continuar um processo de
construção de sua própria identidade, enquanto parte constitutiva da América. Trabalho
de Sísifo, inútil em si mesmo, pois a linguagem não tem o status de objeto
de posse. As palavras escapam, sempre e mais. Assim, na Literatura, tout court,
sempre acabam se concentrando discussões que, sob a chancela de interdisciplinaridade,
pulverizam o nome de um continente.
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Peitorais desenvolvidos, bicos do peito duros
de prazer, músculos abdominais torneados e latejantes; pele branca, cabelos
lisos e olhos azuis: o macho branco que está sempre no comando, como Caetano jamais
nos deixa esquecer. Em nada estranho, porém estrangeiro, esse indivíduo
continua sendo o parâmetro de qualidade, um biotipo a ser imitado, padrão de
beleza, de sedução, de poder: e a inteligência?
Do Robson Crusoé, de Defoe, ao Jesus
Cristo, de Saramago, passando pelo Peri, de Alencar, o macho branco continua
vomitando regras. A Literatura as alegoriza, num desejo latente de vitória
sobre a insignificância. Ou seria o contrário? Mesmo as propostas culturais de
movimentos de apoio e expressão de minorias, os valores organizados de políticas
universalizantes e fraternas, tudo se estabelece a partir dos parâmetros
europeus, brancos, quase arianos...
O desespero do homem americano quase
corresponde ao delírio especular da Alice, de Lewis Caroll. A pulsão escópica
orientou a armada de Colombo e não colocou nenhum ovo em pé. Certos discursos
podem cometer o deslize de repetir obviedades, como aconteceu com a página de
Jô Soares. Apesar disso, podem não ser totalmente inválidos, fazendo levantar uma
lebre, que num piscar de olhos se transforma...
Na superfície escorregadia e translúcida do
texto, a imagem se esboça, quase miragem, a pulsar num desejo, ato contínuo,
que se esgarça na tentativa vã de um toque, da petrificação de um lugar... América.
Afinal, estamos aqui, falando de cultura brasileira, uma realidade sul-americana,
veiculada pela língua brasileira.
Em La conquéte de l’Amérique, Todorov
delineia o que seria um projeto do grande outro para o europeu conquistador,
bravo e prepotente – aqui, de novo, um vislumbre do que o Romantismo tanto
buscou. Não fosse uma pseudosaga cantada em prosa e, principalmente, em verso –
como em Camões, por exemplo, acompanhando alente de aumento instituída
ensaisticamente por Eduardo Lourenço –, o patriarcado da Língua Portuguesa
poderia estar difuso em fragmentos, sujeitos diluídos e alienados em discursos
outros, quem sabe, numa Literatura sem fronteiras nacionais, se isso fosse
possível. Não seria o retorno de um grande e perigoso recalcado? A língua
indígena foi recalcada pelo português, pelo espanhol, pelo italiano, mesmo que,
hoje seja possível encontrar todo um acervo lexicográfico presente e efetivo na
língua portuguesa, oriundo desta recalcada. É no sentido de uma miscigenação
linguística que a língua portuguesa da corpo a desejos, sonhos, invenções e
descobrimentos de microrrealidades brasileiras: um espelho, dentre outros, da América.
A corte portuguesa aporta na fonte de suas
riquezas por obra e graça das mandíbulas anglicanas que, sôfregas e vorazes,
ameaçavam manchar a reputação de uma raça mistificada em verso e prosa. Este é
um dado curioso, maquiado pelo discurso da oficialidade histórica, que, muito
contribui para a mudança de perspectivas no ensino de nossa Literatura. Outro não
era o principal interesse da citada corte, senão a exploração colonialista do
Brasil, parte da América. A língua, mátria velosiana, fez seu papel de
chancela, de carimbo de oficialização: marcou a diferença. Falada, ela parece
ser mais bem assimilada pelas mentes pensantes de então. O caráter tacanho da
inteligência colonial no duplo sentido da adjetivo se sente ameaçado quando o
mestiço Machado de Assis coloca em dúvida a força potencial de uma nacionalidade
telúrica, para estabelecer o caráter de questionamento, de busca da origem do
processo de construção de uma identidade através da Literatura. Em “Instinto
de Nacionalidade”, o escritor carioca golpeia implacável a crença
num gigante ainda deitado em berço esplêndido.
O descobrimento do Brasil ecoa e repete o da América.
Numa sequência perversa de aparentes coincidências, o ato de nomear uma nova
terra, um novo lugar, aqui repetido, alça foros de grandiosidade e documento.
A invenção da América traz consigo a descoberta de um... poder outro,
diferenciado: o poder do nome, a força da palavra, o desenho lexical de um
desejo, contorno de um vazio. 0 caso Brasil volta a chamar a atenção de
leitores ciosos da verdade, mesmo que esta seja apenas uma e não toda. O
Brasil, na sequência alfabética de seu nome, repete a América, em quadros
históricos diferentes, é claro. A pulsão escópica e a escrita literária, no
entanto, parecem mumificar um mesmo e único objetivo: satisfazer um desejo.
O olhar do europeu civilizado e racionalista
se espelha no verde-amarelo que começa a identificar as letras que a colônia
produz e tece. Fantasma mítico que faz com que o tecer, o tecido, o texto, encarne,
para ambos, colonizador e colonizado, a posse da terra e, paradoxalmente, o
pavor de uma castração simbólica. O primeiro grito pode ter sido a manifestação
de um instinto, o machadiano, que ecoa na Semana de 22, apesar de todas as
sombras e dos nichos vazios. Este toma forma, corporifica-se numa desejada
pós-modernidade, mais desejada que consistente. É assim que se pode pensar num
modelo de entendimento do processo de formação de uma identidade para a Literatura
feita aqui, a partir das direções opostas de um mesmo projeto. No caso do Romantismo,
esta direção volta-se para a faceta política da História; no caso do
Modernismo, volta-se para a faceta estética. Ambos tinham um mesmo e único
objetivo: desenhar o perfil de uma cultura, uma língua, literariamente
trabalhada. Daí poder-se pensar também que o corte com o público, que marca um
certo momento do Modernismo, e a contraface da moeda que procurava, sob a égide
do olhar estrangeiro, esboçar desenho desejado do mesmo público.
Como consequência, é impossível desconhecer a
luta incruenta da ficção de um João Gilberto Noll, principalmente em Bandoleiros,
Rastros de verão e O quieto animal da esquina.
Obras cujo lirismo fracassado – no que este qualificativo tem de nietzscheano,
portanto, de construtivo – só encontra respaldo nos delírios urbanos,
cosmopolitas, metropolitanos, de um Caio Fernando Abreu em Onde
andará Dulce Veiga?. Ambos os conjuntos de obras
buscam um caminho na encruzilhada de atalhos que a cultura brasileira desenha.
Estas narrativas apontam para um traço telúrico que faria parte constitutiva
da cultura brasileira. No meio desta “turba insone” e assanhada, Clarice
Lispector poderia ser a bandeira que o vento não toca, por força da
microscopia social na intimidade feminina de A hora da estrela.
Intimidade feminina e narrativa. Imóvel, ela abate, fulmina com o olhar
desenhado na letra arfante de uma escrita que tateia, dedilhando um teclado
desconhecido: a memória nacional, mais que isso, a memória continental. Existe
a sombra de um destino de grandiosidade que sucumbe diante de uma
facilidade mágica de encontras inesperados: seria essa a essência da
descoberta?
No quadro caótico que a Literatura desenha na
terra descoberta por Colombo primeiro e por Cabral depois, a diferença se
entranha e, nas entrelinhas, desenha uma identidade mestiça, sem contornos
definidos. Assim, refletem As
mulheres de
Tijucopapo e O
lago encantado de Grongonzo, romances de Marilene Felinto,
nordestina que escarafuncha e explora a língua pátria, construindo e reconstruindo
imagens de uma particularidade singular: Herança do regionalismo de 30? Esta
visada se choca profundamente com a aparente ingenuidade regionalista de
Charles Kiefer, em A face do abismo
e Valsa para Bruno Stein, textos em que as raízes mais
prosaicas e ancestrais insistem em florescer. Aqui é possível pensar num
projeto que busque redesenhar o perfil cultural da Literatura gaúcha, no seu viés
marcado pela imigração, reinscrevendo está mesma Literatura na historiografia
literária nacional. Charles faz o passeio por uma linguagem simples e direta,
pelos campos do estrangeiro enraizado em solo brasileiro, em solo americano,
minando a prepotência de uma identidade robusta e bem calcada, pura. Não só a imigração
como o fluxo migratório interno causam modificações radicais no texto literário
que a América produz. Isso é resultado de urdiduras diferenciadas que promovem
e liberam a constituição de uma identidade confusa, alienada nas malhas da própria
letra. Como encontrar o genuinamente
brasileiro? Como “ensinar” o caos dos cursos de Literatura, no segundo grau e
de Letras?
O descobrimento da América, mulher que
emblematiza o navegador, no retorno de um recalcado coletivo, pelo menos para o
europeu, e mais um trunfo da linguagem. A terra; sempre esteve aqui,
respeitados os abalos sísmicos e as acomodações da camada terrestre do planeta.
A América já é antes de ser descoberta. Esta invenção fica espetando a consciência
que tendenciosamente tem servido de desculpa para exageros, trambicagens e
arapucas homéricas em que, mais uma vez, o sujeito se perde.
O Brasil se torna
independente com o gritodo Ipiranga, conforme reza a tradição. O grito é
acompanhado por um cortar os laços e a cena se passa perto de um riacho. A
simbolicidade destes elementos não afasta a hipótese do grito primal, do parto,
0 efeito ainda e de mise-en-abîme.
A América reproduzida no Brasil ou o Brasil reproduzido na américa? Ao lado disso,
há que considerar o fato de que a Medicina é um dos primeiros cursos a marcar a
entrada do Brasil no mundo da universidade. É bom lembrar, então, de Michel Foucault,
no conjunto de suas obras, quando e enquanto ausculta o Ocidente, rastreando os
sintomas, os indícios de um controle que joga por terra a autonomia de uma
identidade para inscrevê-la na esfera do proibido. É a sublimação que se consuma.
Luiz Costa Lima trabalha nesta direção, quando considera a questão da documentalidade
do ficcional, até certo ponto vítima de um veto indevido e, por que não,
perverso. Estaria, talvez, aí, uma das chaves de leitura para uma outra
questão: a dependência cultural, embasada na díade: economia, e etnia. Neste
contexto, a Literatura Brasileira receberia o estatuto de invenção, pois tinha
a necessidade de identificar-se e à nação recém descoberta, em sua autonomia. A
repetição do processo coloca o Brasil e a América no mesmo plano analógico,
apesar de um ser parte da outra. A Literatura de invenção na América e no
Brasil, em particular, descreve a tangente que se- desloca do outro para o eu,
em termos de uma identidade cultural. Talvez aqui esteja delineada uma pequena
pista para o esclarecimento do sucesso do realismo-mágico ou, ainda, de uma
certa narrativa fantástica, em solo americano.
Seria o momento de recordar as labirínticas
bibliotecas borgeanas, caminhos que se cruzam entre paredes, vedando a visão do
exterior. Do mesmo modo, os longos colóquios político-culturais de Vargas
Llosa, principalmente em Conversa na
catedral e Tia
Julia e o escrevinhador. Para completar, poder-se-ia evocar a
obra de Garcia Marques, no caso de Cem
anos de solidão e A
triste história de
Candida Eréndira e sua avó desalmada. Não se podem deixar de
lado, no entanto, nomes como os de Julio Cortazar, Alejo carpentier, Lezama
Lima e Cabrera Infante, para não alongar demais a lista e o assunto. Todos numa
galeria inteiramente cosmopolita que se abre nesse flanco da Literatura
latino-americana; bem ao gosto da dicotomia que funda este texto. Invenção e
descoberta confundem-se numa rua de mão dupla. Esta duplicidade, esta
ambigüidade, se realiza no texto fantástico. Mas o que é fantástico?
******
Mesmo que haja um pouco de ingenuidade, os
anos 60 e 70 não podem ser descartados do dossiê americano, desdobrado em
terras brasileiras. Este desdobramento, para mim, é eminentemente literário. É
neste sentido, neste âmbito, que inscrevo minhas observações e meus delírios. A
América foi descoberta. Ela foi inventada também. Não há como negar esta
evidência. Trata-se, no entanto, de uma palavra que, encadeada a outras, articula um discurso. 0 fluxo
incessante de acontecimentos, registros e identificações promove uma abertura
maior para a Literatura produzida, principalmente, de cinco séculos para cá.
A América foi
inventada, porque sempre há necessidade, e uma necessidade zen de explicar origens e destinos.
Desta forma, a marca da diferença se faz sentir, como vetor que esclarece a
direção e o sentido da construção de uma identidade. A América é um processo e
parece bastar a constatação óbvia da sua dinamicidade. O mais é especulação,
tentativa, sonho, desejo, delírio. A América é, na verdade, escrita. Escrever é
um ato de inteligência, requer aprendizado. Sendo resultado da utilização da
língua, para dar forma à cultura. Este ato de escrever, aqui e agora, tentou
delinear o esforço de um olhar particular – o brasileiro – sobre a dualidade
que emblematiza a América. As obras e seus autores estão aí, muitas vezes,
esperando por esse olhar, para não ficarem mudos diante do fluxo da História,
este ato de escrever revela um desejo particular, muitas vezes vilipendiado, mas
isso já é uma outra história...


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