Ecos do passado - final

Depois de um período extenso - ainda que nem tanto - de ausência, volto para concluir a série que reúne textos que escrevi e sobre os quais não tenho informações mais detalhadas como origem, objetivo e localização. É isso, então, acabou!


De um como e um porque sem saber (ao certo onde)

As coisas se tornam menos importantes do que as ideias das coisas: tudo o que for feito às ideias das coisas inevitavelmente acontecerá também com as coisas.                                       .
(Fraser, citado por Freud em Totem e Tabu)

Toda dicotomia – e a que encadeia História e Literatura não escapa a esta regra – leva a pensar em dúvida, em questionamento. Os anos 60 e 70 estão embutidos neste quadro referencial. Eles foram um fervilhar, direto e constante, de ideias. Eles espalharam-nas como pó. Este texto acompanha e respeita esta tradição. O jogar ideias pode parecer uma prática criticável mas abala estruturas, incomoda e faz pensar. Como um ventilador ligado sobre um prato de farofa, come­ço com uma pergunta, uma dúvida: e se Américo Vespúcio, como o Jesus, de Saramago, se questionasse sobre os rumos de sua viagem, de sua missão, negando-se a embarcar? Talvez não estivéssemos aqui, pensando a dicotomia descoberta/invenção, presente de certa forma na cultura brasileira, mediada que é por uma Literatura formada e escrita numa lín­gua segunda, importada, imposta e, aqui mesmo, caracterizada por uma diferença plural que, por paradoxal que seja, identifica uma diferen­ça. Se o descobridor da América não tivesse descoberto a América, é bem provável que a cultura brasileira; não necessitasse de seu estatu­to de objeto de pesquisa constante. Parece claro afirmar que todo ob­jeto de pesquisa é um “objeto de desejo”.
A América, na palavra que a identifica, pode ser lida como um chiste perverso, construído com um nome de homem, e colocado na berlinda através desta mesma palavra. Muitos são os eventos que têm aconteci do aqui, sob a égide dos quinhentos anos de descobrimento da América. Fico pensando no padre que celebra a missa das vinte horas, na catedral. Desde o início do mês de outubro, ao lado do comentarista, ele fala da comemoração dos quinhentos anos de evangelização da América. 0 filme A missão é uma obra de arte que deve ser lembrada aqui. Não ape­nas por se tratar de uma obra de arte de inegável valor, mas também por colocar em discussão os custos e as consequências desta evangelização. É preciso que se diga que os jesuítas primaram pelo recalcamento da cultura autóctone para impor a religião católica aos índios que na América já viviam. Com esta atitude eles podem ser arrolados entre aqueles que, num certo sentido, inventaram a América. Sim, porque o desejo de trazer para cá a cultura europeia – portuguesa, espanhola, ou italiana, tanto faz – esboçou uma terra outra, radicalmente diferente da realidade que aqui se encontrou depois da descoberta. Respondendo a uma questão sobre o assunto, o crítico e ensaísta Wilson Martins fez declarações bastante instigantes, a saber:
Sim, mas as pessoas não pensam na alternativa. O que se queria? Que Colombo não descobrisse a Améri­ca? Outro a teria descoberto. As consequências seriam as mesmas. Ninguém nega o horror que foi o processo civilizatório, mas, de um ponto de vista rea­lista, não podemos evitar essas violên­cias que ocorrem a longo da História. Na Europa a civilização foi feita à custa de hecatombes de populações, guerras e, destruições. E é o que chamamos de civilização. Ou aceitamos esses males para obter o fim que desejamos ou então não fazemos nada. Os índios não podem ser conservados na Idade da Pedra em pleno século XX. Ou se adaptam ou serão destruídos. Não porque tais pes­soas vão lá para destruir os índios. Eles serão destruídos no processo civilizató­rio porque não viverão mais no seu tempo. Sei que essa é uma posição impopular, mas temos que enfrentar essas questões seriamente.

Será que as coisas se passaram tão simplesmente assim? Outro teria realmente descoberto a América? As consequências teriam sido realmente as mesmas? A justificativa parece um tanto tendenciosa para não dizer sintomá­tica da indiferença. O argumento da civilização enquanto processo também de sofrimento, é uma falácia ambígua e perigosa. A sombra da resignação não parece atenuar os efeitos de um calor que vem de dentro, que incomoda, que parece não encontrar um refrigério adequado a suas apoquentações. É perigoso afirmar que o tempo do processo civilizatório pode petrificar situações, depende do ponto de vista. Quem, realmente, quer assim? Alguém perguntou à população Americana à época do descobrimento, se ela queria passar por um processo “civilizatório”?
É bom pensar também que tudo o que se conhecia sobre a terra descoberta sempre foi mediado pela palavra. As metrópoles envolvidas no evento ficaram sabendo de tudo através das cartas, dos comunicados, das descrições verbais de quem aqui aportou. Palavra esta que mimetizava o dado concreto, filtrada que era pelas subjetividades em combate, na luta pela posse definitiva da nova terra. Há, então, uma espécie de atribuição de empenho que se faz a Literatura, enquanto repositório de textos informativos. A etimologia da palavra “Literatura” e insidiosa. Repleta de curvas e sinuosidades, é apenas uma palavra, entre tantas ou­tras. Tal como América. Se o navegador italiano não tivesse deixado a sua terra natal, talvez a descoberta da América não se desse; ou melhor, seria impossível a sua invenção. Pois que a América é apenas um nome atribuído a algo que ganha consistência depois de nomeado; um lu­gar identificado por alguém, em algum momento, por algum motivo. A coisa foi encontrada ao cabo de uma viagem. Sujeito, olhar e viagem voltam-se miticamente para algo desconhecido. Com estes três elementos pode-se pensar no caráter transitório que marca todo e qualquer descobrimento. Depois de identificado por um nome que pode ser inventado, o que se descobriu passa a ser conhecido, deixa de articular o fantástico, o inesperado, o mágico da descoberta. Está descoberta a América. Está inventada a América? Para finalizar esta primeira abordagem do que me proponho dizer, quero apresentar a “verdade” sobre Colombo, nas palavras de Jô Soares:

Neste momento de comemorações sobre a descoberta da América, muito foi dito a respeito de Cristóvão Colombo. Colombo para os mais íntimos. Uns se pronun­ciaram contra, outros, a favor, outros, muito pelo contrá­rio. Desbravador? Descobridor? Devastador? Conquista­dor? Várias novas teorias foram formuladas. Faltou, no entanto, clareza.
Colombo era, quando menino, bem criança. Homem do seu tempo. Colombo foi filho de seus pais, e também neto de seus avós, pertencendo desde cedo à família.
Extraordinário navegador, possuía ele ainda a peculiari­dade de só exercer suas habilidades marítimas quando a bordo de caravelas e seus conhecimentos náuticos se restringiam aos navios e a outras embarcações. O que poucos sabem é que Colombo era um homem que tinha os pés no chão, sempre que estava em terra firme.
Dizem alguns cronistas bem informados e documenta­dos que Colombo demonstrava muito mais talento e inteligência do que todos os que eram menos dotados do que ele. Tanto, que passou para a adolescência na puberdade e depois disso ficou adulto. Quando menos se esperava, Colombo, num rasgo cronológico, atingiu a maioridade aos 21 anos.
Se ainda pairavam dúvidas quanto à verda­deira origem de Colombo, hoje pode-se dizer, sem sombra de dúvidas, que ele veio ao mundo na sua cidade natal, exatamente no dia do seu aniversário, que, aliás, era comemorado anualmente. Num ponto, todos os historiadores con­cordam: Colombo casou-se com sua mulher.
Além de exímio navegador. Colombo era homem de várias habilidades e foi perito em tudo aquilo que de melhor fazia. Registros da época narram, com detalhes, que sua memória era tão fantástica que ele conseguia se lembrar nitidamente de tudo aquilo que não esquecia. Pessoa de poucos amigos. Colombo se dava com quem conhecia e tratava com indiferença todos aqueles que não eram das suas relações. Uma frase da época o definia perfeitamente: “Amigo dos seus amigos, inimigo dos seus inimigos”.
Ao contrário do que dizem, antes de ver o mar, Colombo jamais tinha pisado numa nau. Hoje sabe-se, pelos relatos de antigos marinheiros que viajaram com ele, que, no fundo, Colombo era uma pessoa de temperamento suave, a não ser quando se exaltava, e, afirmam ainda, que o famoso navegador só se cansava em momen­tos de exaustão. Seus homens o admiravam, pois nunca foi visto dormindo quando acordado.
Tantas viagens fizeram com que, no fim da vida. Colombo dominasse com perfeição todas as línguas que falava sem dificuldade. Alguns pesquisadores dizem até que quando ele conversava usava a palavra, deixando apenas para redigir tudo aquilo que escrevia. Além disso, essas viagens fizeram com que o famoso navega­dor conhecesse todas as regiões do mundo a não ser aqueles lugares onde nunca esteve.
Tamanho era o empenho de Colombo naquilo que fazia que certa vez, na Itália, um velho marinheiro ao vê-lo tão atarefado cumprindo seus afazeres no convés não resistiu e exclamou em genovês arcaico: “Quiste, quan labut, lavór”. Em português significa: “Este, quando labuta, trabalha”.
Finalmente, é fundamental que se esclareça de vez o famoso episódio do ovo. Por mais que isto venha a contrariar opiniões abalizadas e consternar especialistas e acadêmicos, é preciso que se revele a verdade: o ovo não era de Colombo. Era de galinha.

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Descobrimento, em certa medida, é o assunto de Asas do desejo e Europa, filmes que voltam seu olhar para um país destruído, em pleno processo de reconstrução. Uma situação análoga ao descobrimento, porque uma coisa diferente está aparecendo. 0 cenário em ruínas de Europa dialoga com o contraste entre cores e preto-e-branco de Asas do desejo. Em ambos os textos fílmicos, um outro indivíduo descobre, de novo, um país. Algo desconhecido, não nomeado, ainda, 0 olhar estrangeiro pousa sobre a paisagem circundante, um descobrimento outro, diferente.
A voz do narrador em Europa condiciona o protagonista a obedecer às suas ordens. A onisciência narradora é incomparável, e no desenrolar da alegoria, é possível ler o desenvolvimento de um outro olhar: o da crítica, presente no discurso do anjo, em Asas do desejo. Passados cinco séculos, esta se volta sobre si mesma, a crítica, centralizando forças e atenção sobre o novo continente, para deslindar a dúvida fundamental: descoberta ou invenção? A coisa pode se complicar quando se pensa que a América são três: sul, centro e norte; se misturam numa infinidade de diferenças em que a Literatura, mesmo com a diversidade linguística, consegue identificar num texto comum a ser decodificado, reelaborado, narrado e, depois, criticado; para que o princípio do prazer não seja subjugado pe­lo da realidade.
É bom pensar nos caminhos que a Literatura Brasileira, em sentido lato, tem tomado para continuar um processo de construção de sua própria identidade, enquanto parte constitutiva da América. Trabalho de Sísifo, inútil em si mesmo, pois a linguagem não tem o status de obje­to de posse. As palavras escapam, sempre e mais. Assim, na Literatura, tout court, sempre acabam se concentrando discussões que, sob a chancela de interdisciplinaridade, pulverizam o nome de um continente.
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Peitorais desenvolvidos, bicos do peito duros de prazer, múscu­los abdominais torneados e latejantes; pele branca, cabelos lisos e olhos azuis: o macho branco que está sempre no comando, como Caetano jamais nos deixa esquecer. Em nada estranho, porém estrangeiro, esse indivíduo continua sendo o parâmetro de qualidade, um biotipo a ser imi­tado, padrão de beleza, de sedução, de poder: e a inteligência?
Do Robson Crusoé, de Defoe, ao Jesus Cristo, de Saramago, passando pelo Peri, de Alencar, o macho branco continua vomitando regras. A Literatura as alegoriza, num desejo latente de vitória sobre a insignificância. Ou seria o contrário? Mesmo as propostas culturais de movimentos de apoio e expressão de minorias, os valores organizados de po­líticas universalizantes e fraternas, tudo se estabelece a partir dos parâmetros europeus, brancos, quase arianos...
O desespero do homem americano quase corresponde ao delírio es­pecular da Alice, de Lewis Caroll. A pulsão escópica orientou a armada de Colombo e não colocou nenhum ovo em pé. Certos discursos podem come­ter o deslize de repetir obviedades, como aconteceu com a página de Jô Soares. Apesar disso, podem não ser totalmente inválidos, fazendo levantar uma lebre, que num piscar de olhos se transforma...
Caixa de Texto: hA Literatura, representação em palavras, signo gráfico que não diz nada se o olhar do leitor por ele não passar, continua a tradição atávica para a espécie humana: ler. Ler a América, hoje, e reler textos que passaram a compor o acervo de bibliotecas estranhas e familiares. É assim que funciona, caso se leve a sério o que diz Freud quando pensa sobre Das Unheimliche. Os escaninhos da História alimentam as traças do esquecimento, ou não, como poder-se-á ver com a contribuição de Deonísio da Silva. A América é um objeto de desejo de um conjunto de feitos grandiosos, de personagens heroicos, quase míticos. Por outro lado, o rever estes textos desnuda uma outra coisa, inesperada. A palavra constrói um outro sujeito, duplo, perdido entre espelhos: o da memória e o da História.
Na superfície escorregadia e translúcida do texto, a imagem se esboça, quase miragem, a pulsar num desejo, ato contínuo, que se esgarça na tentativa vã de um toque, da petrificação de um lugar... América. Afinal, estamos aqui, falando de cultura brasileira, uma realidade sul-americana, veiculada pela língua brasileira.
Em La conquéte de l’Amérique, Todorov delineia o que seria um projeto do grande outro para o europeu conquistador, bravo e prepotente – aqui, de novo, um vislumbre do que o Romantismo tanto buscou. Não fosse uma pseudosaga cantada em prosa e, principalmente, em verso – como em Camões, por exemplo, acompanhando alente de aumento instituída ensaisticamente por Eduardo Lourenço –, o patriarcado da Língua Portuguesa poderia estar difuso em fragmentos, sujeitos diluídos e alienados em discursos outros, quem sabe, numa Literatura sem fronteiras nacionais, se isso fosse possível. Não seria o retorno de um grande e perigoso recalcado? A língua indígena foi recalcada pelo português, pelo espanhol, pelo italiano, mesmo que, hoje seja possível encontrar todo um acervo lexicográfico presente e efetivo na língua portuguesa, oriundo desta recalcada. É no sentido de uma miscigenação linguística que a língua portuguesa da corpo a desejos, sonhos, invenções e descobrimentos de microrrealidades brasileiras: um espelho, dentre outros, da América.
A corte portuguesa aporta na fonte de suas riquezas por obra e graça das mandíbulas anglicanas que, sôfregas e vorazes, ameaçavam manchar a reputação de uma raça mistificada em verso e prosa. Este é um dado curioso, maquiado pelo discurso da oficialidade histórica, que, muito contribui para a mudança de perspectivas no ensino de nossa Literatura. Outro não era o principal interesse da citada corte, senão a ex­ploração colonialista do Brasil, parte da América. A língua, mátria velosiana, fez seu papel de chancela, de carimbo de oficialização: marcou a diferença. Falada, ela parece ser mais bem assimilada pelas men­tes pensantes de então. O caráter tacanho da inteligência colonial no duplo sentido da adjetivo se sente ameaçado quando o mestiço Machado de Assis coloca em dúvida a força potencial de uma nacionalidade telúrica, para estabelecer o caráter de questionamento, de busca da origem do processo de construção de uma identidade através da Literatura. Em “Instinto de Nacionalidade”, o escritor carioca golpeia implacável a crença num gigante ainda deitado em berço esplêndido.
O descobrimento do Brasil ecoa e repete o da América. Numa sequência perversa de aparentes coincidências, o ato de nomear uma nova terra, um novo lugar, aqui repetido, alça foros de grandiosidade e do­cumento. A invenção da América traz consigo a descoberta de um... poder outro, diferenciado: o poder do nome, a força da palavra, o desenho lexical de um desejo, contorno de um vazio. 0 caso Brasil volta a chamar a atenção de leitores ciosos da verdade, mesmo que esta seja apenas uma e não toda. O Brasil, na sequência alfabética de seu nome, repete a América, em quadros históricos diferentes, é claro. A pulsão escópica e a escrita literária, no entanto, parecem mumificar um mesmo e único objetivo: satisfazer um desejo.
O olhar do europeu civilizado e racionalista se espelha no verde-amarelo que começa a identificar as letras que a colônia produz e tece. Fantasma mítico que faz com que o tecer, o tecido, o texto, encarne, para ambos, colonizador e colonizado, a posse da terra e, para­doxalmente, o pavor de uma castração simbólica. O primeiro grito pode ter sido a manifestação de um instinto, o machadiano, que ecoa na Semana de 22, apesar de todas as sombras e dos nichos vazios. Este toma forma, corporifica-se numa desejada pós-modernidade, mais desejada que consistente. É assim que se pode pensar num modelo de entendimento do processo de formação de uma identidade para a Literatura feita aqui, a partir das direções opostas de um mesmo projeto. No caso do Romantismo, esta direção volta-se para a faceta política da História; no caso do Modernismo, volta-se para a faceta estética. Ambos tinham um mesmo e único objetivo: desenhar o perfil de uma cultura, uma língua, literariamente trabalhada. Daí poder-se pensar também que o corte com o público, que marca um certo momento do Modernismo, e a contraface da moeda que procurava, sob a égide do olhar estrangeiro, esboçar desenho desejado do mesmo público.
Como consequência, é impossível desconhecer a luta incruenta da ficção de um João Gilberto Noll, principalmente em Bandoleiros, Rastros de verão e O quieto animal da esquina. Obras cujo lirismo fracassado – no que este qualificativo tem de nietzscheano, portanto, de construti­vo – só encontra respaldo nos delírios urbanos, cosmopolitas, metropo­litanos, de um Caio Fernando Abreu em Onde andará Dulce Veiga?. Ambos os conjuntos de obras buscam um caminho na encruzilhada de atalhos que a cultura brasileira desenha. Estas narrativas apontam para um traço te­lúrico que faria parte constitutiva da cultura brasileira. No meio desta “turba insone” e assanhada, Clarice Lispector poderia ser a bandei­ra que o vento não toca, por força da microscopia social na intimidade feminina de A hora da estrela. Intimidade feminina e narrativa. Imóvel, ela abate, fulmina com o olhar desenhado na letra arfante de uma escrita que tateia, dedilhando um teclado desconhecido: a memória nacional, mais que isso, a memória continental. Existe a sombra de um destino de grandiosidade que sucumbe diante de uma facilidade mágica de encontras inesperados: seria essa a es­sência da descoberta?
No quadro caótico que a Literatura desenha na terra descoberta por Colombo primeiro e por Cabral depois, a diferença se entranha e, nas entrelinhas, desenha uma identidade mestiça, sem contornos defini­dos. Assim, refletem As mulheres de Tijucopapo e O lago encantado de Grongonzo, romances de Marilene Felinto, nordestina que escarafuncha e explora a língua pátria, construindo e reconstruindo imagens de uma particularidade singular: Herança do regionalismo de 30? Esta visada se choca profundamente com a aparente ingenuidade regionalista de Charles Kiefer, em A face do abismo e Valsa para Bruno Stein, textos em que as raízes mais prosaicas e ancestrais insistem em florescer. Aqui é possível pensar num projeto que busque redesenhar o perfil cultural da Literatura gaúcha, no seu viés marcado pela imigra­ção, reinscrevendo está mesma Literatura na historiografia literária nacional. Charles faz o passeio por uma linguagem simples e direta, pelos campos do estrangeiro enraizado em solo brasileiro, em solo americano, minando a prepotência de uma identidade robusta e bem calcada, pura. Não só a imigração como o fluxo migratório interno causam modificações radicais no texto literário que a América produz. Isso é resultado de urdiduras diferenciadas que promovem e liberam a constituição de uma identidade confusa, alienada nas malhas da própria letra. Como encontrar o genuinamente brasileiro? Como “ensinar” o caos dos cursos de Literatura, no segundo grau e de Letras?
O descobrimento da América, mulher que emblematiza o navegador, no retorno de um recalcado coletivo, pelo menos para o europeu, e mais um trunfo da linguagem. A terra; sempre esteve aqui, respeitados os abalos sísmicos e as acomodações da camada terrestre do planeta. A América já é antes de ser descoberta. Esta invenção fica espetando a consciência que tendenciosamente tem servido de desculpa para exageros, trambicagens e arapucas homéricas em que, mais uma vez, o sujeito se perde.
O Brasil se torna independente com o gritodo Ipiranga, conforme reza a tradição. O grito é acompanhado por um cortar os laços e a cena se passa perto de um riacho. A simbolicidade destes elementos não afasta a hipótese do grito primal, do parto, 0 efeito ainda e de mise-en-abîme. A América reproduzida no Brasil ou o Brasil reproduzido na américa? Ao lado disso, há que considerar o fato de que a Medicina é um dos primeiros cursos a marcar a entrada do Brasil no mundo da universidade. É bom lembrar, então, de Michel Foucault, no conjunto de suas obras, quando e enquanto ausculta o Ocidente, rastreando os sintomas, os indícios de um controle que joga por terra a autonomia de uma identidade para inscrevê-la na esfera do proibido. É a sublimação que se consuma. Luiz Costa Lima trabalha nesta direção, quando considera a questão da documentalidade do ficcional, até certo ponto vítima de um veto in­devido e, por que não, perverso. Estaria, talvez, aí, uma das chaves de leitura para uma outra questão: a dependência cultural, embasada na díade: economia, e etnia. Neste contexto, a Literatura Brasileira receberia o estatuto de invenção, pois tinha a necessidade de identificar-se e à nação recém descoberta, em sua autonomia. A repetição do processo coloca o Brasil e a América no mesmo plano analógico, apesar de um ser parte da outra. A Literatura de invenção na América e no Brasil, em particular, descreve a tangente que se- desloca do outro para o eu, em termos de uma identidade cultural. Talvez aqui esteja delineada uma pequena pista para o esclarecimento do sucesso do realismo-mágico ou, ainda, de uma certa narrativa fantástica, em solo americano.
Seria o momento de recordar as labirínticas bibliotecas borgeanas, caminhos que se cruzam entre paredes, vedando a visão do exterior. Do mesmo modo, os longos colóquios político-culturais de Vargas Llosa, principalmente em Conversa na catedral e Tia Julia e o escrevinhador. Para completar, poder-se-ia evocar a obra de Garcia Marques, no caso de Cem anos de solidão e A triste história de Candida Eréndira e sua avó desalmada. Não se podem deixar de lado, no entanto, nomes como os de Julio Cortazar, Alejo carpentier, Lezama Lima e Cabrera Infante, para não alongar demais a lista e o assunto. Todos numa galeria inteiramente cosmopolita que se abre nesse flanco da Literatura latino-americana; bem ao gosto da dicotomia que funda este texto. Invenção e descoberta confundem-se numa rua de mão dupla. Esta duplicidade, esta ambigüidade, se realiza no texto fantástico. Mas o que é fantástico?
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Mesmo que haja um pouco de ingenuidade, os anos 60 e 70 não po­dem ser descartados do dossiê americano, desdobrado em terras brasileiras. Este desdobramento, para mim, é eminentemente literário. É neste sentido, neste âmbito, que inscrevo minhas observações e meus delírios. A América foi descoberta. Ela foi inventada também. Não há como negar esta evidência. Trata-se, no entanto, de uma palavra que, enca­deada a outras, articula um discurso. 0 fluxo incessante de acontecimentos, registros e identificações promove uma abertura maior para a Literatura produzida, principalmente, de cinco séculos para cá.
A América foi inventada, porque sempre há necessidade, e uma necessidade zen de explicar origens e destinos. Desta forma, a marca da diferença se faz sentir, como vetor que esclarece a direção e o sentido da construção de uma identidade. A América é um processo e parece bastar a constatação óbvia da sua dinamicidade. O mais é especulação, tentativa, sonho, desejo, delírio. A América é, na verdade, escrita. Escrever é um ato de inteligência, requer aprendizado. Sendo resultado da utilização da língua, para dar forma à cultura. Este ato de escrever, aqui e agora, tentou delinear o esforço de um olhar particular – o bra­sileiro – sobre a dualidade que emblematiza a América. As obras e seus autores estão aí, muitas vezes, esperando por esse olhar, para não fi­carem mudos diante do fluxo da História, este ato de escrever revela um desejo particular, muitas vezes vilipendiado, mas isso já é uma outra história...



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