Conselhos para uma boa convivência em sociedade
Se for funcionário da secretaria de obras do governo –
federal, estadual ou municipal, não interessa – combine com seus colegas um
rodízio. Conforme o número de elementos na turma, dois ficam trabalhando, os
demais discutem, cospem no chão, mexem com as mulheres que passam, falam de
futebol, recamam do governo e bebem água.
Quando for viajar de avião, não se esqueça de levar o cabo
de força do celular para ligar numa das tomadas disponíveis no aeroporto. Quando
enxergar uma, corra e faça bastante alarido, para mostrar que o espaço é seu.
Sente-se numa cadeira e espalhe as bagagens pelas demais, fazendo cara feia
para quem perguntar se o assento está ocupado. Para finalizar com chave de ouro,
corra para a fila do embarque, prestando atenção para esta não ser a do grupo
marcado em seu bilhete, assim que o funcionário da companhia pegar no microfone
para iniciar o embarque.
Ao almoçar num restauram à la carte, lembre-se de
chamar o garçom fazendo bastante alarde, para mostrar quem é que dá as ordens.
Numa festa de casamento, não se esqueça de correr para a
mesa dos doces, assim que vir alguém pegar um. Corra, pegue um prato ou uma
sacola plástica e encha-os. Se não se preveniu, encha as duas mãos e corra de
volta para a mesa, fazendo de conta que ninguém percebeu o que você acabou de
fazer. Fingir faz parte do protocolo.
Numa corrida do Uber, peça, assim que entrar no carro, para
ligar o ar condicionado e peça água. Pegue umas balinhas e jogue o invólucro no
chão. Não sabe o que é invólucro. Tem nada não. Chupe a bala e jogue o resto no
soalho do carro. Daí a pouquinho, reclame do ar condicionado e da estação da
rádio. Chegado a seu destino, reclame da água que estava morna. E não deixe
fazer avaliação negativa do atendimento.
Numa loja de roupas, convença o/a balconista a pegar todas
as peças que você indicar. Obviamente, você vai fazer isso aos berros, para
mostrar que tem dinheiro e comprar o que quer. Olhe tudo o que puder/quiser. No
fim, não compre nada e destrate o/a balconista. Ele/ela está ali pra isso
mesmo.
Quando for usar banheiro público, não se esqueça de entrar
no reservado falando ao celular. Fale alto, afinal quem conversa com você tem
que entender o que está falando. Use vocabulário chulo, gíria e lugares comuns,
muitos lugares. Descreva o ugar em que você está e diga que está gostando
muito. Ao sair, não dê descarga. Não lave as mãos e não se esqueça: continue
falando (bem alto) ao celular.
Quando for ao cinema – bem, hoje já não existe “cinema”, mas
apenas salas de projeção em centros de compra, mas vale a metonímia. Se não
sabe o que é isso consulte um dicionário, ou, antes, pergunte ao google –, depois de comprar os bilhetes no totem – fazê-lo
no balcão vai exigir de você uma educação que você não tem, afinal, você é
moderno/a –, reclame da ausência de um carrinho de mão e de um balde pra você
carregar a pipoca e a coca-cola (respectivamente!) que você quer comprar.
Afinal você está ali pra comer. Não utilize o assento que você mesmo escolheu
ao comprar o bilhete. Fale alto, use o celular e coloque as patas inferiores
sobre o encosto da poltrona à frente. Depois deixe tudo esparramado por lá.
Você não quer tirar o emprego das faxineiras...
Há muitos outros, mas você deve estar cansado demais para
aprender o básico. Viva bem!


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