De viagens


As mangueiras, frondosas, ladeiam o passeio, dos dois lados, da avenida Presidente Vargas. O risco de queda de mangas, é claro, existe. Mas a beleza do quadro, em seu conjunto urbano, não admite certos retoques que lhe tirem as cores. Exuberante é a palavra, penso, correta, para descrever não apenas este túnel verde, mas todas as praças da capital do Pará. Que surpresa! A impressão que se tem, a princípio, não é lá muito alvissareira. Percebe-se, com engano, que a cidade se apresenta suja. Como disse, é engano. A falta de restauração dos muitos casarões que se espalham pela cidade, sobretudo no cetro, é que causa esta enganosa impressão. A cidade é limpa, cuidada, nos limites da higiene urbana e da decência. Mesmo na região em que se concentram muitos casarões. Muito diferente do Maranhão. Claro está que não visitei TODA a cidade, por impossível. No entanto, as cercanias pelas quais caminhei, empapado de suor, por conta do vento morno úmido que sopra durante todo o dia, mesmo antes e depois das duas ou três chuvas diárias, mostram uma cidade que ainda guarda com certo cuidado as lembranças de um passado de riqueza e glória, de influência econômica e histórica. Um passado, este artigo de luxo que muitas sociedades e seus “cidadãos” insistem em desmerecer. Este fenômeno é bem sustentado pela absoluta simpatia e delicadeza com que os marajoaras me trataram e tratam as pessoas em geral, pelo menos, os círculos pelos quais passei. Cabe uma explicação. Ipso facto, marajoara é quem nasce na ilha do Marajó que está circunscrita geopoliticamente ao Estado do Pará. Logo, por sinédoque, ou metonímia se quiserem, tomo uma coisa pela outra e já está: os paraenses são de uma simpatia ímpar. Outro atrativo é o sotaque que tem o “s” chiado, sem as excrecências enjoativas e daninhas dos cariocas – que me desculpem os mesmos e os demais que também “chiam” os “s”. Mas o sotaque dos paraenses é peculiar e delicioso de se ouvir, muito em função de sua delicada simpatia. Simples, um povo simples. Logo, culinária simples, com fortes influências indígenas tucupi, tacacá, jambu, taperaba, muruci, bacuri, filhote, maniçoba. Ai que delícia. Com o jambu, faz-se o tucupi e o tacacá. Para muitos, água suja. Mas uma delícia de sabor picante e marcado pela goma de macaxeira e pelo camarão. O tucupi, caldo amarelado que acompanha o pato ou o filhote – peixe enorme, de sabor marcante e muito, mas muito apetitoso! – é outra iguaria de se beber/comer ajoelhado. Se misturado à farinha d’água então... um manjar! As frutas e os sorvetes com elas feitos são de comer ajoelhado. O mesmo se pode falar dos sucos. A visita ao mercado Ver-o-peso, é irrecorrível. Ir a Belém e não ir ao Ver-o-peso é como ir a Roma e não ver o Papa, diz o adagiário popular, de lá e de cá. Finalmente, a “casa de Nazinha”. A Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Que prédio majestoso por fora e por dentro. O teto, todo em madeira, é de uma elegância sóbria, monumental e muito poderosa para compor a ambiência de fé que se percebe no ar, no bafo úmido do clima de Belém e se expande por mentes e corações nativos e estrangeiros. A monumentalidade só faz consolidar e revigorar, sempre, a qualquer hora esse fenômeno inexplicável: a fé. A imagem da santa é pequena, como a de Aparecida do Norte, majestosa no alto de um altar portentoso e vibrante. Minha visita não estaria completa se lá não fosse. Fui. Emocionei-me e voltei. Quero retornar ao Pará, quero conhecer Bragança e outros rincões marajoaras, no sentido metonímico que aqui agenciei. A distância é muita, a trabalheira enorme, mas vale a viagem!









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