Ano novo
Duas garrafas de vinho tinto (Tarapacá, Carmenere), uma taça
de espumante à meia-noite, um shot de tequila depois das duas da manhã,
montes de croquetes, empadinhas, pão de queijo, linguiça defumada e
caramelizada, tabule, salpicão e pra terminar uma pratada de macarrão frito
feito em casa. Copos e copos de água mineral com gás, São Lourenço. Mais dança,
trenzinho, gritaria, risos e lágrimas, fotos e mais gritaria. Esse é o resumo
da passagem de ano. Um dia antes, escrevi o texto que vai em seguida. Era para
ter sido ontem, mas a ressaca não deixou. Não só a ressaca. Acrescente-se o
calor, a moleza, o fígado aos gritos, sem dor, mas aos gritos, mais calor e a
preguiça, a macunaimicamente proverbial preguiça. Isso tudo não deixou que
fosse hoje, que fosse adiado para hoje. Um adiamento que serve para inaugurar a
nova cara do meu blogue. A cada seis meses... cara nova!
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Passagem
E pensar que o mesmo ponto foi alcançado, uma vez mais.
E a imagem (in)desejada apareceu assim, de repente, sem
pedir licença, para falar da inveja e da mágoa que, juntas, alimentam a
fantasia de histórias passadas.
A palavra, que não foi usada pelo poeta, pode ter sido usada
pelo ladrão, pela freira em recolhimento, pelo feirante em seu anúncio oral. A
palavra é assim, múltipla em sua natureza, aberta em sua configuração, flexível
em sua atitude. E continua sendo palavra que depende do poeta.
Ou seria o contrário?
O ano terminou. Mais um. Quantos outros antes, série
incontável. Quantos depois, impossível simulação, ainda que em sonho, no
pedido, nas simpatias.
A traição do desejo se revela pujante, sem o menor senso de
propriedade e joga na cara da gente o que a fantasia não sustenta, o que a
saudade alimenta e o que o tempo deixa passar, sem deixar cicatrizes na pele
que pulsa pelo afeto investido.
Depois de amanhã, como hoje, tudo vai estar no mesmíssimo
lugar. Talvez, num voo mais longo, a promessa de parar um pouco no meio do
caminho – a tarefa de educar o que se cria exige paradas, inflexões, curvas – deixa
de lado a História de tudo, o início de tudo, para chafurdar-se no consumismo e
na manutenção de um certo elitismo – burguesismo ficaria muito pesado aqui. E
como o retrato na parede, dói, sem sangrar, mas dói.
Depois de amanhã, o homem do chup-chup vai passar de novo,
anunciando os sabores fantasiados nas cores voláteis de uma ilusão.
Tudo no mesmíssimo lugar, mas em dimensão diferente, de
acordo com a tendência de cada um, mas tudo no mesmíssimo lugar.
O fulgor do sol sobre o mar, onde é possível vê-lo, assim,
no ocaso. brilha.
E seu reflexo cega, mesmeriza, deixando fechadas para sempre
as comportas do possível concreto, cambiado pelo imensurável sem fim. O mar. O
sol. O olhar. A mistura que, sem tese, movimenta o ritmo da lua, senhora da
alma e da melancolia. Prata.
Pode ser que nostalgia e amargura não sejam assim tão
desconhecidas uma da outra, tão diferentes, tão distantes. Tudo é uma questão
de tom.
Parece que vale mais a pena pensar que é possível mudar,
guardando o que é bom – de ato e de memória – deixando de lado o que não presta
– sem as já famigeradas regras e convenções – percebendo que essa divindade sem
nome, o tempo, passa.
Que 2020 seja um ano bom para nós!


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