Ecos do Sul



Faz um tempo. Foi na agência dos correios. Ali é comum encontrar livros à venda em agências postais. Para além de todos os outros serviços. Isso pareceu-me sinal de civilidade e cultura. Uma gente que, ainda que não leia em sua totalidade – seria muita ingenuidade minha pensar assim – está preocupada com a EDUCAÇÃO, através da leitura. Iniciativa mais que instigante. Pois é... Foi numa dessas agências. Exatamente na agência de Coimbra, na avenida Fernão de Magalhães, de saudosa e doce memória. O livro havia saído naquele ano mesmo. Capa vermelha. Formato 16x24, muto mais interessante que o desgastado 14x21, mais elegante e pomposo. Capa vermelha. Letras em branco. E o nome bem no meio, Os memoráveis. Para quem conhece, é dela mesmo, Lídia Jorge. Um livro que, em certa medida segue os mesmos trâmites ficcionais de A costa dos murmúrios. A voz narrativa é construída a partir do trabalho de uma das personagens. Esta, por sua, vez é responsável por uma escrita – neste caso, a produção de um documentários sobre pessoas que sobreviveram às guerras coloniais e conseguiram vencer o 25 de abril – que se faz “por tabela – a expressão é minha. A narração não é direta e vai se constituindo na medida em que as peripécias da tal voz narrativa vão sendo esfiadas entre os mais diversos procedimentos narrativos. Uma ficção instigante e sedutora. Na aparente simplicidade do entrecho, a autora revisita meandros da História numa bisada peculiar: em geral, a do olhar feminino. Dos livros que li de sua autoria, e este é mais um rico exemplo, a Revolução dos cravos, seus antecedentes e suas consequências constituem a matéria prima sobre a qual esta escritora se debruça com galhardia e paixão. Uma leitura que prende, não pelo suspense, mas pela espessura da divagação inconsciente, pela análise acurada do detalhes, pelo desvio do olhar que provoca para iluminar o que parece obscuro e se faz óbvio, então. Uma leitura que vale muito a penas.


José Saramago conta uma história – de que agora não me lembro em detalhe – sobre como “chegou” ao título de um de seus romances, talvez o mais polêmico – O evangelho de Jesus Cristo. O de que me lembro é que o título, na história cotada por ele, acaba se envolvendo com o acaso, ou dele é fruto. Isso é o que eu quero destacar: o acaso. Lendo o jornal numa de minhas manhãs gaúchas – o recente retorno aos pampas me encheu de alegria – li matéria sobre um romance que estava sendo vendido num sebo do Rio de Janeiro, no quilo. Este romance, junto de outros, previamente selecionados pelo alfarrabista, poderia ser adquirido por modestos seis reais. Não se quantos livros dão um quilo. O número há de ser variável, por óbvio. Mas o acaso, neste caso, é o título e o autor do livro: Carne viva, de Paulo Francis. Imediatamente depois da leitura, quando de uma de minhas andanças pela capital gaúcha, passei pela rua dos livros, a Riachuelo – tem esse epíteto por contar com inúmeros sebos em sua extensão – e encontrei o livro. Trata-se do último romance escrito pelo jornalista de notável memória. Deixou pronto, mas só foi publicado post mortem, por sua esposa. Um livro interessantíssimo. Lembrou-me Nelson Rodrigues, sem aquela aparente ingenuidade carola que por vezes marca a escrita deste outro jornalista cariosa. A escrita de Paulo Francis, é nervosa, eloquente, rasgada, maliciosa e muito, mas muito sofisticada. A história envolve parte da sociedade cariosa do final dos anos 60. O universo de empresários corruptos, especuladores financeiros, burgueses entediados e todo tipo de “desvio” de conduta – moral, afetiva, social, política, sexual e quejandos – se faz presente numa fabulação que faz rir, mas que desnuda sem piedade as entranhas de uma sociedade miasmática, aquela que a mídia – mesmo a social – não dá conta de revelar, seja por pudor (culpa?) seja por incapacidade mesmo. Paulo Francis é escritor de quilate superior, com perdão pela rima. Em que pese seus posicionamentos morais e ou políticos, sua escrita é fascinante. Revela autoria mais que preparada, de um intelectualismo espesso, forte, bem assentado, temperado por malícia hilariante e sarcástica, do tipo que faz um sujeito rir de nervoso. Adorei!
Li os dois durante esta viagem de retorno. Os memoráveis, acabei de ler no hotel, numa das noites tranquilas de hotel, em Porto Alegre. Carne viva, durante a viagem de volta, acabando a leitura no transporte até minha casa. O primeiro, deixei no quarto do hotel. O segundo, no ônibus. Faz parte de minha campanha de estímulo à leitura. A ideia não é minha, por suposto...



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