Sussurrar ideias
Murmúrio: ato ou efeito de murmurar. Barulho
incessante das ondas do mar ou de água corrente. É o que em muitas passagens da
narrativa o leitor pode encontrar. Ora para marcar a espacialidade da cena descrita,
ora para qualificar outra cena. Ora para denunciar desmandos, exageros, crimes
e consequência de atos violentos. Rumor contínuo e sussurrante do vento sobre
árvores e folhagens. Da mesma forma que o barulho do mar, o ciciar do vento
entra como elemento compósitos de certas passagens. Intensifica a descrição, em
sua maior parte implícita, intrínseca, recoberta de um cenário muito conhecido
da Literatura Portuguesa: o território africano, especificamente aquele que foi
domínio colonial português por muito tempo. Comentário, dito, frase,
pronunciamento etc. feito em voz muito baixa. Em muitas passagens da narrativa,
em alguns diálogos e, mesmo em alguns solilóquios, o texto apresenta essa
acepção de murmúrio. Quase sempre, estas passagens marcam alguns devaneios da protagonista
e/ou de outras personagens da trama. O resultado final, na perspectiva deste
aspecto, é um clima um tanto sombrio para todo o relato ficcional. Ruído confuso
e contínuo de muitas vozes simultâneas; murmurinho. Sobretudo no começo da
narrativa, a confusão pressupõe animação ou agitação de grupos sociais, muitas
vezes como reação a acontecimentos fortuitos que acabam por envolver as
personagens em sub sistemas sociais e até afetivos, em função de que fazem
parte. Som plangente, choroso; queixume, lamentação. Talvez, esta seja a única
acepção que não encontra ilustração no texto. Pode ser que numa outra
perspectiva de leitura – a do amor, como faz a Cida Costa, isso seja possível
de averiguar, de experimentar, de inferir. Comentário malicioso, maledicente.
Ainda que o tema mais amplo não seja, percebe-se, aqui e ali, uma que outra
linha neste sentido. No geral, essa característica não define nenhum dos blocos
narrativos conglomerados no texto. Aqui cabe um axioma da crítica e/ou da
teoria que prevê como efeito de leitura a percepção desse sentido ou dessa
perspectiva. A história fala de uma festa de casamento e menciona o
aparecimento de cadáveres numa praia. O embate entre jornalistas e os devaneios
de uma noiva completam o que se pode chamar de um quadro preliminar a
identificar o texto a que me refiro. A História comparece – ainda que não no papel
de eixo organizador da narrativa – na medida em que a situação vivenciada pelas
personagens do romance estão envolvidas em acontecimentos que remetem a
capítulos importantes de História portuguesa, sobremaneira aqueles que envolvem
o processo de colonização de territórios estrangeiros e usa anexação a um
império desejado, sonhado, imaginado, mas jamais concretizado. Há, como mencionado
nas orelhas da edição que compulsei a ocorrência de uma traição. Evidentemente,
não poderia deixar de haver misturas de raças nesse episódio que, na leitura
que fiz, passa delicadamente ao largo das profundas considerações (delírios)
acerca do que ocorre em frente ao hotel, “zona de conforto” da narrativa
romanesca. A autora notabilizou-se por revisitar esse ambiente carregado que se
conforma quando da referência às guerras coloniais portuguesas. Lídia Jorge é o
nome dela. O romance se intitula Costa dos murmúrios. Vale a pena ler.




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