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A delicadeza do arranjo de frutas na mesma de café da manhã.
Uma imagem inadequada para o percurso que chegou ao ponto que chegou. Cada gomo
de mexerica devidamente limpo daqueles fiapos brancos. Cirurgicamente limpos. Sua
disposição entremeada com uvas passas criou a ilusão de girassóis visitados por
abelhas. Uma pequena cumbuca, não mito funda. e os girassóis feitos de gomos de
mexerica e uvas passas. O contraste com o vermelho do queijo do reino. A toalha
rebordada, em estamparia rococó. compunha com a guarnição de café, uma delicadeza
a mais. No alto daquele prédio do Itaim. Visita há muito esperada, era de se
supor. Requinte delicado daquela mesa de café da manhã e o absoluto contraste com a história que se arrastou
até aquele ponto. As ruas de Vila Mariana. A Igreja do Socorro. A lanchonete
árabe: quibes fritos, tahine, homus tahine, guaraná gelado. Mais uma rua que se
perde na memória das idas e vindas. De cá pra lá. Sempre que possível. As
árvores da Vila Mariana. O centro cultural, a avenida larga e movimentada. O
sanduíche mais tradicional da cidade. A vista do alto do prédio do Itaim. A conclusão
de um percurso. O sofá branco, imponente, apertado na saleta diante do projeto de
varanda. Como de hábito em construções daquele naipe. O sofá branco. A
travessia do tempo, dos espaço. das histórias. Paulista, Santo Amaro, Vila
Mariana, O sofá branco e as noites mal dormidas ou os sonhos abortados. Tantas
histórias. Em nada e por nada combinavam com a cumbuquinha enfeitada com gomos
de mexerica entremeados com uvas passas. Girassóis dissimulados. Como parecia
simulada a aceitação, a trégua. O primeiro sinal. Viva Mariana O sofá branco
diante do armário, divisória, do minúsculo apartamento. Cedinho, ainda de
manhãzinha, mudar para a cama. O sofá branco livre do peso dos sonhos
repetidos. O ciúme. O branco do sofá contra o ciúme doentio. A festa de
inauguração. O bar lotado. Holofotes, escadas magirus, dente falando e gritando
no frio que fazia todo mundo encapotar-se. A festa. O dissabor da festa abortada
pelo ciúme. A cena na frente do prédio. Os gritos. O constrangimento. Não
acontecia nada. Não havia nada. A impossibilidade de aceitar a amizade,
profunda e afetuosa. Só isso. Bater o pé no chão. Fazer careta. Gritar. Xingar.
O arroubo de ciúmes tarde da noite. O primeiro passo. O sofá branco na Santo
Amaro. Não mais a divisória. Outro apertado apartamento. O mau cheiro. A raiva.
As lembranças de Vila Mariana. O tráfego que gritava e zunia, noite e dia, sem
direito a rima de consolação. O sofá branco acumulando lembranças. Quarenta
anos. A passagem entre o sul e o leste. A parada. O sítio. As fotos de Santo
Amaro da Purificação. A festa da cinquentenária. A confissão do arranjo para ir
à festa. O dia de sábado como presente de aniversário. Mudança de
comportamento. A docilidade e os sorriso. Mais gente a conhecer. Mais amizades
prováveis. O contrário de tudo o que se conhecia até ali. A surpresas. Quarenta
apitos ao mesmo tempo, todos cor de rosa, todos imitando una boquita pintada.
Quarenta anos. O bolo enorme com a bailarina vestindo um tutu cor de rosa ao
lado do Bambi. Os laços de fita cor de rosa. Os balões cor de rosa. Quarenta
velas acesas e os apitos a gritar até o parabéns pra você. Que surpresa. O
segundo passo. A passagem dos anos. O mesmo senso de desconfiança e a simpatia
forçada, o sorriso ensaiado, a educação de manual de pedagogia. Tudo falso. Os
anos. A amizade. O carinho O apartamento do Itaim. A visita. O gnocchi do
dia 29. O sofá branco de frente para o projeto de varanda. O compêndio da
memória do tempo que passa. Lugar comum. A tarde de trabalho com o telefone
tocando intermitentemente. O ciúme. Duas garrafas de vinho. A massa que não
secava. As risadas altas na cozinha. Cara feia. Muxoxo. Sangue nos olhos (?). A
massa do gnocchi que não dava ponto. O choro. As lembranças. Mais uma
garrafa de vinho. Os convidados chegando no doce toque da amizade celebrada. As
lembranças trocadas. Os percursos desde a Paulista, pela Vila Mariana, na Santo
Amaro. O apartamento do Itaim apertado para tanto afeto. Os amigos. Os sorriso.
Os brindes. Do outro lado do sofá branco a cara feia, o muxoxo, o ciúme entre
os dentes do melhor amigo, do outro lado. A massa pronta. Os brindes. Os
elogios. Do outro lado, a recusa do prato “Está sem tempero. Também, com aquela
bebedeira”. Silêncio na pequena sala. O vinho e os brindes. As risadas dos
amigos e os brindes. A massa que se esgotou na travessa. Sucesso. O sofá branco
como testemunha de mais uma tertúlia. Itaim. Doa alto do prédio. A cidade
enevoada, também pelo sereno acompanhado dos miasmas do vinho. O tempo que
passa. Tanta história. E o sofá branco silente. Incompreensível aquela mesa de
café da manhã. Gomos de mexerica simulando visitas de abelhas. Uma doçura que
não se perdeu com o tempo. Ainda que inexplicavelmente.
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