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Só dezesseis. Isso. Era esse mesmo o nome. Só dezesseis. Uma
casa de dois andares. Linhas retas. Bege. No meio de um bosque num dos bairros
mais sofisticados da cidade. A vista era linda. A casa de dois andares. Em cima,
a residência. Embaixo, o restaurante. Só dezesseis. Era esse o nome. Durou pouco
tempo. Eram quatro mesas no salão que, de fato, era uma varanda. A vista da
cidade era linda. No segundo andar, a residência não era luxuosa. Comparada com
outras, poder-se-ia chamá-la de uma cela beneditina. Tudo muito claro, amplo,
sem muitas bugigangas aqui e ali. Uma casa “muderna”. O dono gostava assim. Ele
a chamava assim. Depois do trabalho, no restaurante, no andar de baixo, subia e
descansava. Só trabalhava de terça a quinta, sob reserva. Só dezesseis. Quatro
mesas de quatro lugares no salão. Todas com vistas para a cidade lá embaixo. Um
primor. Dois garçons para cada mesa. Um maître, uma recepcionista e um sommelier.
Tudo muito organizado. O ambiente climatizado era absolutamente isolado acusticamente.
A casa ficava num bairro residencial. Qualquer barulho levantaria suspeita e
traria confusão. Mesas grandes, cadeiras grandes. Uma saleta de espera muito
elegante e confortável. Música de um piano num nicho de parede, do lado oposto às
janelas. Na verdade, uma parede de vidro. A parede inteira. As quatro mesas
tinham a mesma visão. O movimento da recepcionista e do maître até
parecia coreografado de tão sincronizado. Tudo muito bem ensaiado. Rigor máximo
no sorriso, na amabilidade. Sem exageros, nem preferências. Só dezesseis. Era o
nome do ugar. Por conta do número de comensais. Nada mais. “Ops... uma rima”! As
toalhas de tecido sedoso e encorpado, bege. Os talheres de prata wolff90. Copos
de cristal. Demais adereços de colorido discreto e harmônico. Iluminação
indireta, em nichos embutidos entre as paredes e o teto. Nada que incomodasse
os olhos. As quatro mesas dispostas em linha reta, diante do janelão de vidro.
No inverno, vidros fechados e ambiente climatizado. Nas noites de verão, quando
muito quente, ambiente climatizado. Nas outras noites, janelão aberto. Os
perfumes da mata a coroar o serviço de dezesseis pratos combináveis. Duas
carnes bovinas, duas suínas. Dois peixes e duas aves. Dois tipos de arroz. Duas
opções de salada, duas de molho. Dois tipos de acompanhamento. Nada além disso.
A combinação fica por conta do comensal. A carta de vinhos tinha quatro rótulos
de quatro países diferentes: Espanha, Portugal, Argentina e África do sul.
Quatro sobremesa intercambiáveis. Café e chá. Quatro licores. A matemática,
obsessão do dono do restaurante, imperava, conspícua e definitiva. Tudo
funcionando à perfeição, O cliente faz a reserva. Chega e já recebe água – que não
é cobrada. Daí vinha o garçom com o menu. Anotava os pedidos. O sommelier
aparece com a carta de vinhos. Depois da refeição a garçonete trazia as sobremesas
e os licores. Ao final da repimpada tertúlia gastronômica, o maître
voltava à ação com a conta. Discreto. Elegante. Como no começo da noite. O dono
do restaurante, um estrangeiro abrasileirado, era o cozinheiro. Ou, o chef,
como se costuma dizer. Depois de recolhidos os pedidos pelos comensais,
costumava dar uma volta pelo salão a trocar sorrisos e mesuras com os
comensais. Se havia dúvidas, explicava. Em dias especiais, absolutamente
inesperados – dependia do humor dele, dizia o maître em inconfidência sigilosa –,
convidava os comensais a ver a preparação de seus pratos. Era mais comum
acontecer em dias com menos de dezesseis clientes. Casa cheia, ele apenas
passeava pelo salão, mesuras e sorrisos. Conversava com os clientes, sorrisos e
mesuras. Agradecia e se retirava para o comando da cozinha com um time de quatro
profissionais. Um para as carnes, peixes
e aves. Outro para as sobremesas. Um para os acompanhamentos. Um para o café e
o chá. Equipe enxuta, quase monástica. Disciplina japonesa. Limpeza hospitalar,
cirúrgica. Inacreditável saírem partos daquele laboratório asseado. Tudo muito
harmonizado. No salão, não havia diferença no rigor do trabalho da
recepcionista, do casal de garçons e do maître. Impossível não dar
certo. As primeiras semanas e o sucesso anunciado. Propaganda boca a boca e o
desejo de vencer as dificuldades circunstanciais. Sem absoluta certeza de nada.
Os moradores do bairro não reclamavam. Não havia grande movimentação. A comida
era apreciada. Os vinhos e sobremesas degustados com prazer. Os elogios à
equipe e ao serviço não podiam ser melhores. Tudo caminhando. Só dezesseis
recebendo número interessante de convivas a cada semana. Amigos visitando o
local. Nada de celebridades. Nada de balbúrdia. Tudo correndo bem. Até que um
dia, antes de abrir, um dos garçons derramou vinho sobre uma mesa. Um chilique.
Todo mundo dispensado. Só dezesseis agora é zero.
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