Pastiche


Cuide da entrada. Da expressão facial na entrada. Este detalhe é crucial. Dele depende o desenrolar de reações a seu desempenho público. Sobrancelhas arqueadas (O plural serve para dizer que há pessoas que conseguem fazer isso com as duas...). Não muito, para não parecer desdém absoluto; nem tão pouco que possa expressar o tédio visceral de estar ali prestes a dizer o óbvio. O caminhar é lento, corpo ereto e ombros arqueados, não demais: pode parecer imposição de vontade. Sente-se confortavelmente. Olhe o interlocutor nos olhos e quando responder a alguma pergunta, dirija-se alternadamente entre o locutor e a plateia. Se olhar sempre para a mesma direção na plateia, pode conseguir um pouco mais de auto confiança. O grupo de pessoas na área apontada pela direção de seu olhar pode se sentir superior, importante, eleita. Isso ajuda. O risco existe do contrário, de você angaria apenas a antipatia geral pelo mesmo motivo. É risco. Não há regra a priori. Responda a todas as perguntas. Absolutamente todas. Jamais interrompa que se dirige a você. Jamais! Ao falar, se for interrompido, cruze os braços cobre as pernas, olhe fixamente para os olhos do interveniente ocasional e faça um sorriso dissimulado. Entre a Gioconda e as personagens de Carlitos em cenas “românticas”. Nada mais, nada menos. Não diga nada. faça apenas isso e pronto. Você acaba de colocar o inconveniente em seu devido lugar. Depois disso, volte a falar. Repita a mesma ação quantas vezes for necessário. É costume conseguir calar os inconvenientes que vão, no máximo, continuar resmungando pelos cantos. Ao final, vão falar mal de você. mas isso não interessa. ao comentar alguma coisa e tiver necessidade de alguma “referência”, procure ser imparcial e magnânimo. Amplie o horizonte referencial privilegiando, no mínimo, uma mulher, um negro, um estrangeiro (de preferência austríaco, alemão, francês ou judeu). Isso vai dar a impressão de que seu pensamento é plural e multifacetado. A palavra correta aqui seria multicultural, mas ô preguiça... Ah, se for falar numa universidade muito “muderna” não deixe de expressar simpatia pelas minorias, de qualquer categoria. Isso é muito bom para enfiar a dose certa de politicamente correto discursivo à sua performance (com sotaque londrino, por favor). Se o assunto é gênero, faça referência positiva à sigla incomensurável e elásticas, aquela das letrinhas seguidas de “+”. Não coloco aqui a sequência pois, a cada dia, inventam mais uma, sob o “argumento” de inclusão social... Há quem acredite nisso”. Se for falar de um livro seu e ele for fino (os parâmetros também variam, muito, de acordo com os mais diversos “protocolos”. Pense com o senso comum e imagine que seu livro é fino e pronto. Já está! Neste caso, diga que levou muito a terminá-lo. Fale das inúmeras revisões e cortes e substituições de termos e expressões, das idas e vindas entre você e o editor. Isso dá um charme danado e ajuda um monte na venda de seu livro, mesmo que ele seja uma bosta. No caso contrário, não acentue tanto as revisões e repetições e refazimentos. Dê preferência ao tempo e direcione seu raciocínio para a ideia de que aquele livro (o grossão) é a expressão mais acabado de seu “itinerário intelectual de formação”. Use, literalmente, essa expressão e mude o tom de voz para algo mais solene, mais pomposo, pausado, com sílabas bem articuladas. Todos os esses e erres, mas não demore demais. Se falar lentamente demais vai parecer esnobismo e arrogância. E você está longe disso. Isso causa o mesmo efeito, independentemente, de novo, da possibilidade de seu livro ser mesmo uma bosta. Não ria alto. Repito: não interrompa seu interlocutor. Jamais! Caso ele provoque você a externar uma opinião espinhosa ou incômoda (Para você, claro, essa gente está cagando e andando para o que você pensa. Geralmente eles pensam em criar saias justas para gozar com seu incômodo!). Use, com certa generosidade, as mesóclises. Os que têm mais de 40 anos vão gostar e comentar sobre a valorização da língua. Os que saíram das “universidades” nos últimos 20/30 não vão fazer ideia do que se trata. Você ainda corre o risco de ser hiper/super/mega valorizado por essa “geração” (Isso mesmo, a do merthiolate que não arde, da Nutella, da que sofre da síndrome da paúra do não.) O sorriso “inteligente” ou a gargalhada canalha da plateia é que interessam. Num e noutro caso, a fila dos autógrafos tende a aumentar sensivelmente. Nesta hora, não economize sorrisos. Cumprimente todo mundo. Além de ser de bom tom – afinal você é uma pessoa educada – faz com que o pedinte se sinta valorizado (“Ele sorriu pra mim, tirou uma foto comigo, me cumprimentou!”). Você fica bem na fita. Esses são apenas alguns conselhos. Os mais básicos, eu diria. Há outros vários, de matizes diversos. Depende da situação do local onde você vai falar, da plateia. A ocasião do evento também é importante. Se você vai ganhar pro labore ou não (Universidades públicas, praticamente todas, já não sabem mais o que é isso). Para lançamento de livro, é bom pensar num coquetel, “diplomático” (Noutra ocasião eu explico isso). É isso.


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