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Uma coisa é fazer uma pergunta por mera curiosidade, ou por necessidade de esclarecimento, de aprendizagem. Fazer uma pergunta para alcançar uma resposta. Outra coisa é fazer uma pergunta sem sentido e sem razão. Um silogismo ilógico e sem rumo. Uma terceira coisa é fazer uma pergunta que, em si mesma, já carrega a resposta. E pios: de maneira tendenciosa e, não raro, pejorativa. Isso tem um nome, Isso tem de ter um nome na ciência da linguagem. Há de ter um nome, ainda que este não seja assim uma necessidade irrecorrível. Fica a observação como marco: a percepção de que a malícia ou a perversidade podem conseguir coisas inimagináveis com perguntas desse tipo. Esse terceiro tipo. O universo das perguntas é inexorável. Como o das observações canhestras. Um nome numa lista. O comunicado ao indivíduo assim nomeado: seu nome está na lista de indicados. Você deverá indicar outros trinta nomes. O objetivo é formar um banco de inspetores. Ou seriam auditores. Ou não seriam nada disso. Não importa, O nome estava na lista. Os outros trinta nomes foram enviados e os chamados começaram. Em seguida, quase que semanalmente. Cinco anos seguidos de viagens daqui pra acolá. sertãozinho, Janaúba, Nova Venécia, Curitiba, Brasília, Passo fundo, Salvador, Jandaia do Sul, Valinhos, José Bonifácio, Diadema, Montes Claros, São Paulo. Uma correria entre aeroportos e carros oficiais. Reuniões e almoços/jantares. Cenas hilárias, saias justas e trabalho, muito trabalho. Sempre com a presença efetiva e eficaz de perguntas. Daquelas que desejam uma resposta. Sem mais Cinco anos mais ou menos  ter de ouvir o colega chamar o outro de vagabundo. Era mais fácil encontrar o colega numa sala de espera de aeroporto que na sala de aula. Vagabundo. Tudo por conta de ciúme. “Você nunca indicou o meu nome”. E o nome dele era o primeiro da lista dos trinta que deveriam ser indicados pra começo de conversa. O ciúme e a traição. Tudo fruto de imaginação fértil, de boa dose de paranoia. Nada de racional. E o nome dele estava m outras bocas. Na tentativa de desmerecer os seis anos de trabalho na tentativa de implementação de m projeto importante. Nada deu certo. A saída de alguém com nome de peso. A briga com a carreirista de plantão. Os desentendimentos internos. Numa sequência nefasta de desorganização e falta de tino. Ao fim e ao cabo, a aposentadoria. E depois os ditos colegas montam um circo para responsabilizar quem não fez nada de errado. Nada de mudança.  Tudo sempre na mesma medida, no mesmo ritmo, na mesma sequência. Nem dois anos de intervalo serviram para mudar o efeito da sanha local. O sujeito entreva com sede de novidade. Os projetos pululavam. As ideias de reformulação e adequação a novos tempos na ponta da língua. Certo estranhamento no ar. Não eram precisos mais que seis meses. Um semestre apenas. E tudo voltava como era antes. O discurso era o mesmo. As ideias se repetiam nos erros que se acumulavam como poeira em prédio abandonado. Sem explicação plausível. Como é que podia? O princípio da inércia é que dominava tudo e todos. Os movimentos acompanhavam a mesma lógica. A necessidade de mudança se apresenta. A constatação é feita. Miríades de discursos proferidos a favor da bendita mudança. O prazo se esgotando. Nenhuma ação. Na ponta do laço, no frigir dos ovos, alguém tomava uma atitude intempestiva porque já não era mais possível protelar. Se deu certo, o sucesso era partilhado, discursiva e exaustivamente, na tentativa de angariar sempre mais credibilidade. Se deu errado, o abelhudo que se meteu na frente de tudo e de todos era o responsável. Execrado. Quase executado em praça pública. Oblivium. A pergunta que já traz a resposta, encharcada de cinismo, preconceito e más intenções. Um veterinário cuidando do programa de vacinação da cidade. Absurdo. A capacidade do profissional questionada sob o argumento subliminar da incompetência. O pressuposto de algo que só pode ser comprovado empiricamente, depois do experimento. A falácia que se esquece de que o “gênero humano” situa-se no reino “animal”. Um homem ou uma mulher não são uma espécie de planta ou um tipo de gás ou mineral. Não. Animal. Dizem que racional, mas animal. A inteligência e a racionalidade já são atributos que não mais sustentam uma supremacia absoluta e inquestionável. Ao contrário, muitas das vezes, levam à conclusão contrária. Aparentemente, em muitas situações a tal de inteligência e a tal de racionalidade parecem muito mais efetivas, eficazes e consequentes em seres considerados irracionais. Plantas e minerais guardam certa lógica que não pode ser negada. Já os animais, ditos irracionais. Animais demonstram certas capa idade que destronam a humanidade e sua soberba. E tudo por conta de perguntas que não desejam respostas, mas servem apenas de instrumento para conquistas canhestras e absolutamente inúteis, porque passageiras, e suscetíveis de fracasso absoluto. Só uma pergunta!

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