Experiência
Depois de trinta e seis postagens, em série, com algumas
interrupções, encerrei a publicação do material a compor seis dos oito ou nove
capítulos de um livro que estou tentando escrever. Trata-se de uma segunda
experiência estética. Pela segunda vez, procuro utilizar o princípio motor da
poética aldravista – a metonímia – para construir uma narrativa de ficção.
Claro que está que tal texto não há de se parecer com um romance, em sua
conceituação mais comum, tradicional, para não dizer clássica. Geralmente,
ainda que de forma não linear, os romances acabam por contar histórias. Mesmo
aqueles em que nada parece acontecer – há alguns exemplos muito instigantes e
bons da Literatura Portuguesa, no conjunto de obras de João Tordo, ou mesmo de Valter
Hugo Mãe. No Brasil, algo em torno de certa parte da obra do Caio Fernando
Abreu, ou do João Gilberto Noll e até mesmo do Bernardo de Carvalho – sonhei um
dia em escrever um ensaio interpretativo do conjunto de suas narrativas longas.
A preguiça ainda não me autorizou... Esta “tradição” está muito longe do
horizonte de expectativas da narrativa ficcional a que me proponho neste livro.
Fiz esta experiência uma vez e resultou num livro que já está no forno (deve
sair entre o final deste ano e o início de 2021. Seu título é Tanto ruído no
interior desse silêncio. Não vou explicar o sentido ou o que desejo dizer
com este título. Atenho-me a esboçar algumas linhas narrativas da ficção que estou
por concluir. O título provisório é O hexaedro de Sísifo. É óbvia a
referência ao mito de Sísifo e à figura geométrica do hexaedro. “Hexa” é
prefixo que significa seis. Logo, a remissão à aldravia: forma poética
genuinamente aldrávica que prima pelo princípio absoluto do movimento
metonímico da linguagem a articular seis vocábulos como seis versos. Seis são
os tópicos da Psicanálise oferecem nova pista ao leitor que se aventurar a ler
esta ficção: paranoia, esquizofrenia, associação, desejo, histeria e neurose.
Para cada uma, seis depoimentos. Estes podem ser de um só paciente, como podem
ser de pacientes diversos. Vai caber ao leitor determinar. As anotações, feitas
por um(a) psicanalista, são acompanhadas de considerações teóricas sobre cada
um dos tópicos. As anotações não querem, a priori estabelecer relação
direta com os comentários acerca de cada um dos tópicos. A reunião de cada
conjunto de seis depoimentos sob a tutela de cada um dos tópicos é
absolutamente aleatória... ou não! Este final de frase lembrou o chato Caetano
Veloso. Ai como ele está chato. Um poeta de mão cheia, mas um chato. Consegue
ser mais chato que eu! Os outros capítulos são mais triviais. Falam da
biografia do(a) psicanalista (quem será o(a) autor(a) destas informações?), de
sua apresentação (será ele(a) mesmo(a) a se apresentar?). Tudo depende única e
exclusivamente do leitor. Exceção feita à organização do texto, sua estruturação
e apresentação gráfica. Isto é um projeto estético. Não cabe ao editor dizer
que está errado, ou que cansa o leitor, ou que faz a leitura ficar lenta e
difícil, ou.... ou... ou... Nada disso! Por fim, depois do “hexa” há que apontar
para o mito. Daí, fica só uma dica: a infinda sentença do gajo que tinha que
empurrar um pedra colina acima. Lá chegando, a pedra rolava, colina abaixo. E
tudo começa de novo. Preciso desenhar? Quando do lançamento, faço saber. Quem
sabe alguém se arrisca a comprar e ler o livro...


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