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Um escritório de advocacia que se preze, deveria ter, no mínimo, duas secretárias. Uma, interna, para os contatos diretos com os profissionais da banca e seus afazeres. A tramitação de processos, agendamento de reuniões e visitas, a manutenção dos prazos e da documentação necessária. A outra, externa, para o atendimento de clientes e não clientes, para os contatos telefônicos e para cuidar da correspondência eletrônica – dado que hoje, ao que parece, a correspondência em papel não é “politicamente correta”. Ai, que chatice. Pois é... Mas não é bem assim que acontece. Você liga e é mal atendido. A pessoa que atende – geralmente uma mocinha com voz melíflua, de quem está de saco cheio de ter de atender ao telefone – não diz coisa com coisa. Responde com desdém às perguntas e nunca sabe de nada. É incapaz de oferecer-se para anotar um recado, ou pedir o número para retorno da ligação. Não. Atende mal, não se importa. Tudo fica por isso mesmo. Toda vez que você liga, é assim. Sempre repetindo a mesma coisa. Da mesma forma, a mesmíssima sensação de incredulidade acomete a quem entra numa livraria à cata de um livro. Soe acontecer de o/a balconista estar de braços cruzados, com cara de enfado, querendo dizer que não tem saco pra fazer o que está fazendo. Você entra, dá boa tarde, e a pessoa não responde. Daí você começa a perguntar sobre o livro que procura. Antes de mesmo de chegar à segunda letra do primeiro nome do autor, o/a balconista já responde com um redondo, oco, triunfante e asqueroso “Não!”. Com exclamação e tudo. E ainda devolve um olhar de vencedor sobre a plebe ignara – neste caso, o imbecil que pede pelo livro – você! A sobrancelha arqueada, o ar petulante de superioridade, um sorrisinho de Gioconda mal ensaiado e você é obrigado a mandar a criatura para a puta que o/a pariu. Xingar o cérebro eletrônico que ela tem, por guardar os nomes de todos os livros de todos os autores enfileirados nas inumeráveis prateleiras da livraria. Isso é que é memória, sim senhor! Uma memória imensurável. Virar as costas e sair xingando a humanidade por simplesmente existir. No entanto, nada como resolver pagar um boleto de uma localidade diferente da que você está. O pagamento vai ser feito num banco que não é o mesmo que está no boleto. O pagamento vai ser feito com dois dias de antecedência. Você só quer aproveitar que está diante de um banco aparentemente vazio e não tem mais nada pra fazer. Aproveita o tempo e quita uma dívida. Ao entrar na tal agência, a surpresa, nem um pouco original. Duas dezenas de caixas, muito bem desenhados em madeira, fórmica e vidro. Duas dezenas. Apenas dois caixas funcionando. Você está no Bradesco. Uma fila digna de anaconda a enrodilhar-se dentro da agência. Você pega a fila, abre o livro e começa a ler. Quase uma hora e meia depois, você chega a um dos dois caixas que estão funcionando. Alguma novidade? Entrega o boleto e o cheque. O boleto é da “caixa”, mas tem o código 033. Já, já, você entenderá o que isso significa. O cheque é o azul da “caixa”. Você entrega para a mocinha com cara de bosta que atende você como se estivesse fazendo um favor impagável. Carimba o cheque todo. Risca pra tudo que é lado. Anota isso e aquilo. Carimba mais um pouco. Na hora de passar o dito cujo pela máquina de leitura de código de barras. Olha pra você irritada (!) e diz que não pode receber o cheque. Você pergunta o porquê. Ela diz que é de outro banco e de agência fora da praça. Você mostra o código 033 e pergunta se ela sabe ler. Se soubesse não diria o que disse, pois saberia que esse código significa “compensação nacional”. Ou seja, o cheque pode ser recebido em qualquer agência de qualquer banco dentro do território nacional. A mocinha não diz nada. Não reage. Não tem expressão alguma, o que também, não é novidade. Você arranca os papeis da mão dela e aos berros, você diz que o problema é que ela é feia, é pobre, é gorda, é mulher, é burra e é uma funcionariazinha de banco, que mexe com dinheiro que ela jamais vai ter e que vai secar atrás de um balcão de banco. Você diz isso aos berros. Um gerente, um homem negro, enorme, vem ao seu encontro com os braços estendidos e você, ainda aos berros, avisa para não ser tocado. Caso contrário, vai chamar a polícia e abrir boletim de ocorrência por agressão física. Tudo aos berros. Cuspindo para os lados. Furioso. Sai do banco e entra na agência da “caixa” na contra esquina da rua onde você estava. Enfrenta outra fila e paga o boleto. Tudo isso, tempos depois, parece muito exagerado. Inusitado mesmo. Tudo isso, tempos depois, você analisa com outros olhos, sob outra perspectiva e não invalida nenhum seguimento de nada, mas é capaz de avaliar que não faria da mesma forma de novo. Isso porque você constata, com o passar do tempo – é inevitável – que as pessoas não vão mudar. Que nesse tipo de situação a atitude vai sempre se repetir, mesmo contradizendo todo o altruísmo fajuto dos discursos de auto ajuda e de coaching que grassam por aí!

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