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O álibi perfeito seria o jantar com a esposa. Ninguém
poderia desconfiar que àquela altura ele poderia estar fazendo o que fez. A
esposa não faltaria com a palavra. Não haveria como contestar os dois
depoimentos. O fato de serem casados, neste caso, não teria qualquer
importância pois nenhum dos dois estava sendo acusado. Eram apenas suspeitos,
numa lista enorme que contava com nomes muito mai “quentes” para o tal fato.
Ainda assim, ele estava preocupado. Tudo tinha sido planejado milimetricamente
e seria um desastre que, justamente no final, tudo se esboroasse. O dinheiro já
tinha sido transferido. Os imóveis arrestados e o que sobrou de bens já devida
e legalmente organizado. Agora era pegar o avião e voltar. Aquele lugar ficaria
apenas na memória fotográfica de alguns poucos que anda acreditavam que nada
daquilo havia acontecido como aconteceu. Nada. Sua mulher, ainda ressentida
pela desconfiança da traição dele, estava ressabiada. Mas a cada dia ele
procurava intensificar mais e mais sua atenção. Ela começava a acreditar que a
denúncia anônima, recebida numa mensagem telefônica, não tinha fundamento. Seu
amigo investigador, bem que tentou rastrear o telefone de onde saiu a mensagem.
Em vão. O tal aparelho era do tipo descartável. Não há como conseguir
rastreá-lo. Encontraram um chip jogado no fundo do quintal de uma casa
abandonada na periferia. Só isso. Ela queria acreditar que seu marido era fiel.
Ao final, ele foi absolvido. A tal sócia foi arrolada como suspeita. Seus
advogados de defesa conseguiram a absolvição. Ela ameaçava o marido dizendo ter
sido ele a assassinar o outro sócio, para ficar com a maioria das ações da companhia
em que trabalhavam. Nem tudo estava assim tão claro. Foi quando seu corpo
apareceu boiando no rio que cortava a cidade. Um buraco na cabeça. Não foi
tiro. O mistério continuava insolúvel e o “caso” foi arquivado. Parece que não
deu em nada. O tempo passou e ela mais crente ainda na fidelidade marital. Ele
continuava viajando e, obviamente, traindo a mulher. Num dia qualquer, de uma
semana qualquer, por um motivo qualquer, a mulher é levada a procurar por um
livro de receitas e vai ao sótão da casa. Muitas recordações. Fotos antigas de
seus pais. Filmes em Super8 das férias na praia com as crianças. Cartas,
berloques, móveis empoeirados e caixas, muitas caixas. Ao se deparar com o que
procurava, puxa a caixa onde estava o dito caderno. Ao arrastá-la, vem junto um
retalho de tecido amarfanhado, endurecido, um tanto avermelhado. Estranho objeto.
A mulher puxa até perto de si e descobre, enrolado nesse tecido, um martelo. Há
alguma coisa agarrada a ele. Pustema. Parece cabelo enrolado. Esquisito. Quando
o marido chega em casa, chama por ela. Ele vai até o quarto. Ela está sentada,
com o martelo na mão. O marido a encara, mudo, paralisado. É como se você
revisitasse um romance importante. As cenas se repetem mentalmente. Os detalhes
vão se embaralhando, perdem-se numa poeira ósmica de confusão de falta de
nitidez. Parecem vidrilhos de um caleidoscópio que não funciona. Você acorda,
lembra-se de tudo com uma nitidez absurda. Quando vai começar a relatar, começa
a se confundir. lapsos de memória atrapalham sua narração. As incerteza fazem
você tremer, gaguejar. Você começa a chorar e nada parece fazer sentido. Por
que a imagem daquele corpo ensanguentado sempre volta? Não há situação em que
ele não apareça, de relance, como um corisco que passa. Flash. Nada faz
muito sentido. Sua certeza se desfaz em dúvidas que se multiplicam e, por
vezes, parecem mais seguras que a própria certeza. Confusão. falar não adianta.
Chorar muito menos. O médico volta a perguntar e você se lembra de uma mulher
que faz um alerta. “Não abra aquela porta”. que porta? A busca por explicações
é cansativa. Você continua a escrever e os sons das festas que ele dava
continuam a reverberar, O marido da moça era um tipo grosseiro. Rico, mas
grosseiro. Ele vinha de uma família pobre, honesta, trabalhadora, O namoro
aconteceu por acaso. A cidade pequena não comportava o namoro de um rapaz pobre
com a filha do homem mais rico do lugar. Vilazinhas de interior são assim.
Aldeias são. Veio a guerra. O tempo passa. Ele volta, milionário. Os negócios
escusos não precisam ser desvelados. Os fins justificam os meios, ele acredita.
A sedução começa, com certa facilidade. A mocinha amou mesmo o rapaz pobre e se
ressente da grosseria do marido. Mesmo a boa vida que leva parece não ser
suficiente para aplacar a confusão afetiva em que ela vive. Atormentada.
Dividida. Tudo era uma questão de tempo. E ele acreditava. Ela chega a ceder
uma vez. E você continua a escrever. Ainda que não entenda muito bem o porquê
de tudo aquilo. Loucura? Nada de explicações. Até que uma tarde, sozinho em
casa, pensando nela, ele leva um tiro e cai para a piscina. Ela sai em viagem
com a família. E você continua a escrever naquelas folhas amareladas, Será que
existe mesmo uma explicação?
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