Um filme...
Pigmaleão ou Pigmaleão (grafia menos correta, tendo em conta a etimologia do latim Pygmalion, -onis, do grego Pugmalíon, -onos), na mitologia grega, foi um rei da ilha de Chipre, que, segundo Ovídio, poeta romano contemporâneo de Augusto, também era escultor e se apaixonou por uma estátua que esculpira ao tentar reproduzir a mulher ideal. Ele havia decidido viver em celibato na ilha por não concordar com a atitude libertina das mulheres dali, conhecidas como cortesãs. Até aqui, copiei da Wikipedia. O mito rendeu várias apropriações, como uma telenovela com Tônia Carrero (Pigmalião 70). História que costuma confundir. Penso que Sweet bird of youth, do Tennessee Williams, também pega carona no mito. Não há dúvida sobre o fato de que Fialho de Almeida, em seu conto “O funâmbulo” também passou os olhos – ou a imaginação! – pelo mito. De uma ou de outra forma, o que me traz à memória o mito é uma pequena passagem de um filme delicadíssimo e, simultaneamente, denso, pesado, forte, contundente. Um soco no estômago. O enredo narra a história, ou um passo dela, de um funcionário público britânico nos anos 50 do século 20. O plot: um burocrata do departamento de obras que descobre ter um câncer em estado terminal. O momento-chave para mim, no que diz respeito ao mito, é a conversa que ele tem com um ex-funcionária do departamento que coordenava. O diálogo, quase um solilóquio, na verdade, abre esta brecha, mas não é tudo no filme. Toda a história é uma sequência de lições e fragmentos de sofismas sobre a existência, as relações, o sentido de tudo. A narrativa flui, a certa altura, por flashbacks do protagonista. As demais personagens são como espectros que rondam a cabeça do protagonista que disto se dá conta logo depois do citado “diálogo”. A delicadeza contundente do filme é de uma elegância e de uma clareza impecáveis. As atuações seguem o mesmo caminho. Vi o filme sob estado de alerta. Chegando aos 70 este tipo de pensamento me ocorre sem sustos. O sentido de existir pode se desvelar num átimo inesperado, pelas razões mais diversas, e as consequências são, por natureza, inesperadas. A descoberta que se tem pouco tempo de vida – isso, a cada dia, parece estar mais distante do rol de “preocupações” do ser humano – pode causar as diversificadas elucubrações. Os recursos da medicina, hoje, retroalimentam a ilusão de que a longevidade é algo que beira a perfeição. Que ilusão. A materialidade da existência é irrecorrível em sua finitude. A fé pode sustentar certa consciência, mas a certeza do fim – pelo menos de uma “etapa” – é inescapável. Não há mais o que dizer. Veja o filme e tire suas próprias conclusões.
Ah... para quem gosta deste tipo de informação (estas também foram copiadas da Wikipedia), Living, nome original do filme, é um longa-metragem de drama britânico lançado em 2022, dirigido por Oliver Hermanus, a partir de um roteiro de Kazuo Ishiguro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2017, adaptado do filme japonês de 1952, Ikiru, dirigido por Akira Kurosawa, que por sua vez foi inspirado na novela russa de 1886, A morte de Ivan Ilyich, de Tolstoi.


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