Idade...
Certa feita, já vai um tempo, conversando com uma amiga, ela
disse que a partir dos 60 eu ia aprender o real significado da palavra limitação.
É fato. Uma série de manifestações dessa coisa inexplicável – mas nem tanto – começa
a fazer parte da rotina. Agora, chegando aos 70, isso começa a se adensar. E
não de uma maneira negativa. Ainda bem! A pasta dental – ou dentifrício, como
eu aprendi e gosto de falar – vinha numa embalagem metalizada que sempre estava
“completamente” cheia. Não havia a bolha de ar que aparece hoje, na embalagem
plastificada, depois de dois ou três apertos. Visitar os avós nos finais de
semana. Brincar com as tias idosas no quintal de sua casa. Pedir a benção aos
pais, avós, tios. Levantar-se quando o professor entrava na sala de aula. O
tempo passa. E passando, ele traz coisas interessantes. Ontem recebei de outra
amiga – esta portuguesa – um recorte de jornal que reproduzo abaixo. (Ao fim,
vai a imagem enviada). Foi publicado ontem mesmo, até prova em contrário, no
diário matutino português que atende pelo nome de Público. Fez pensar...
mais um pouco. O intuito, aqui, é o mesmo...
“Os velhos poderosos
Ainda ontem
Miguel Esteves Cardoso
E se a maneira como
olhamos para os velhos for o contrário do que faz
sentido?
E se a velhice for um jogo em que todos os anos se arranjam para os concorrentes,
cada
vez
mais
velhos, novos impedimentos e novas sobrecargas, exortando-os: ‘Desiste!
Desanima!’ Começa para aí aos 50 anos. Apetece logo desanimar. Começam a morrer pessoas de quem gostamos muito.Com surpresas. Más. Começam
as doenças. Começam as dores. Começam os preconceitos. Começam os cansaços.
Cada vez que aparece o monstro – o monstro da vida, o monstro
da idade com novos encolhimentos da nossa alegria de viver, ele grita-nos
‘Desanima!
Desiste!
Ao
menos, entristece...’ Mas os velhos picam-se. Gostam do jogo. Não é como se houvesse outro
para
jogar. Sentem-se desafiados: ‘Aié? Aié? Então já vais ver!’
‘Então já vais ver, vida madrasta de um raio – ou julgavas que
eu me deixava ir abaixo com tão
pouco?’
Os velhos engolem os pais mortos,
os amigos mortos, as coisas que já
não podem fazer, mais a cara
que os fita no espelho,
com a língua de fora, e as cidades que se tornaram
irreconhecíveis, e as
paisagens que nunca mais voltarão, e as
análises que estão cada vez piores. Engolem,
enchem o peito, secam os olhos e apalpam
a alma para ver se desanimou. Não desanimou. Ainda
lá está. E é assim que ganham força:
ainda estou de pé, ainda me rio, ainda
me apetece brincar, ainda sou um gatinho.
Os velhos que não desanimaram são muito
mais fortes do que os jovens que nunca foram
desafiados a desanimar.
Aliás, desanimar com pouco
é próprio da juventude: é um luxo deitarmo-nos abaixo
com tão pouco. O monstro dos jovens
não é o monstro dos velhos. Não é a morte. É
pior do
-
que a morte: o monstro dos jovens
é a ignorância. E uma ignorância
invencível, por muito que se leia e se
viva. Leva a grandes desperdícios. Entrega-se de corpo
e alma a grandes desânimos, todos redundantes.
Já os velhos sabem. Sabem
e mesmo assim não desanimam. Não são
só sobreviventes. São vencedores.”
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