Releitura
Terminei de reler Madame Bovary. Desta feita, a edição do Clube de Literatura Clássica, com sede no Rio Grande do Sul. Linda, a edição. Capa dura e ilustrada, com desenhos muito instigantes que vão sendo modificados conforme o andamento do texto. Uma ideia interessantíssima do editor. O que é que (ainda) se pode dizer sobre este “romance”? Aspas e parênteses se justificam. Trata-se de um desses livros que exigem de seus leitores uma certa devoção. Academicamente falando, já li mita bobagem acerca dele. Talvez seja efeito da minha chatice. Daí os parênteses. No “ainda” que dentro deles vai escrito, cabem miríades de considerações que a fortuna crítica da obra de Gustave Flaubert acumula ao longo dos séculos. Agora as aspas. Bem... O nome “romance” já foi ponto de fuga de polêmicas as mais diversificadas. Também já li muita bobagem deste assunto. Mas elas se justificam mesmo dado que a obra doe escritor francês não é meramente um romance, mas um “romance”. Se não for ROMANCE. A cada grafia, complica-se mais a minha vida, pois me vejo na obrigação de explicar os comos e os porquês do que aqui vou escrevendo. Vou deixar alguma gente com a cabeça cheia de dúvidas. Não vou me explicar. Não sou obrigado. Ainda assim, confirmo minha admiração por este texto que mergulha, de maneira sofisticada, no universo do desejo. Os quadrantes do século dezenove se fazem presentes e efetivos. Os desatinos a que se entrega a protagonista não são, nem de longe, arroubos de uma mulher romântica e ingênua – como pode ser considerado o caso de Luísa, em O primo Basílio. Veja bem, eu disse “pode”. Por outro lado, não dá pra afirmar que ela deixa dúvida sobre seus atos, como, de novo, pode ser considerado quando da leitura de outro romance fenomenal: Dom Casmurro. Refiro-me a estes dois outros “romances” porque, em priscas eras, escrevi um artigo – originalmente uma comunicação para um colóquio sobre ensino de Francês como língua estrangeira, em Toulouse. Pretendi utilizar-me de uma noção bem “pessoal” de tradução para explorar as sequências finais destes três romances e “ler” as três personagens femininas que protagonizam os mesmos como títeres de seus narradores. Neste sentido, elas – cada uma a seu modo – recebe o devido “castigo” por um crime comum: o adultério. No caso da francesa, algo deliberadamente cometido; no caso da português, situação a que foi maliciosamente conduzida; e a brasileira – na dúvida – é castigada com o desterro e o descaso de seu próprio marido, coincidentemente, o narrador do romance. Mas voltando à vaca fria... O romance de Flaubert é um daqueles livros que fazem a gente pensar no quão delicada é a alma humana, por um lado. Por outro, no trabalhão que dá debruçar-se sobre esta rede intrincada de reações, percepções, ideias e atitudes – como o do próprio autor do romance. De uma maneira ou de outra, é romance para se ler, reler, tresler e sempre ficar admirado, pasmo e deliciado. Fica aí o convite...
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