De antologias



Ele são dezessete. Nomes, os mais variados: Gabriel, Anjinho Barroco, Ana Maria, Elsa, Joaquina, Xamalu, Joel, etc. Muitos e variados nomes. Nomes e apelidos que se enfileiram numa média de 4,3 textos atribuídos a cada um deles, entre prosa e verso. Treze deles têm cinco textos, dois têm dois e um apenas um. O que importa, ao fim e ao cabo, é o desejo desses 16 sujeitos poéticos que se reuniram em comunidade e apresentam volume alvissareiro intitulado Fénix ardente, A antologia apresenta a produção literária de um grupo de pessoas que compõem o Grupo de poesia – Gente viva, de Vila Franca de Xira, em Portugal.
Bom. Vamos lá. Gosto de palavras. Gosto de procurar no dicionário as acepções de palavras. Não vou deixar esse gosto de lado. Antologia: substantivo feminino. No âmbito da Botânica, significa estudo das flores, coleção de flores escolhidas; florilégio. Aqui, seu significado mais preciso é: coleção de textos em prosa e/ou em verso, geralmente de autores consagrados, organizados segundo tema, época, autoria etc.; livro que contém essa coleção. Pensando nestas acepções relacionada ao livro Fénix ardente, de cara, me dá vontade de dizer que, mesmo a acepção ligada ao campo da Botânica, encontro nos textos do volume uma seleção de poemas que são flores porque palavras cultivadas brotando textos que evolam o perfume da arte. Bonito não?! Pois é. O livro é mesmo um florilégio. Apresenta passagens preciosas tais como: “Um músico é também um poeta, e, eu apenas / queria transformar a minha poesia numa singular melodia (...).” ou “Neste pouco caminho que ainda me resta / estou eu perdida demais, / (...) Perdida dentro das palavras.” Exemplos esses de flores delicadas, simples de suavidade inconteste. Exemplos de uma delicadeza apenas possível pela poesia. No entanto, faço uma curva acentuada e mudo a direção de meu olhar para cinco desses poemas, todos de um mesmo autor, David Fernandes Silva. Seu mote  é a figura de Dom Galvão. De cara, a epígrafe – como soe acontecer e aqui não é diferente – aponta para o ponto de fuga do tema: a figura lendária de Dom Galvão, um dos cavaleiros da Távola redonda. De quem se conta que era um dos mais jovens, supostamente sobrinho de Artur, que aceita o desafio de um Cavaleiro verde – um cavaleiro enorme, completamente pintado da cor verde, incluindo a pele, a barba, a roupa, o cavalo e sua arma, um machado – para ser atacado com seu próprio machado. Galvão corta a cabeça do tal cavaleiro. Diz a lenda que o corpo do tal cavaleiro pega a cabeça e a recoloca em seu devido lugar. Este, por sua vez, ao sair do castelo, diz a Galvão que o encontre na Capela Verde, dali a um ano. Diz a lenda que, chegado o tempo de cumprir o combinado Dom Galvão parte para a Capela Verde e, próximo de chegar, é recebido por Bertilak de Hautdesert, o senhor do lugar, e sua bela esposa. Nesta parada, o cavaleiro é tentado por três vezes pela esposa de seu hospedeiro que o tenta seduzir em vão. Ao aproximar-se o dia do encontro, Galvão parte da corte para encontrar a Capela. Lá chegando se depara com o Cavaleiro Verde que, na verdade, é Bertilak. Este explica que o sortilégio foi ideia de Morgana para tentar ludibriar Galvão. Ao final, como símbolo de sua atitude, Galvão recebe de Bertilak uma cinta verde que passa a usar. Voltando a Camalote, conta a seus pares a aventura e todos explicando que usa a cinta verde como sinal de vergonha por haver quebrado o acordo com seu anfitrião. Os poemas de David, por metonímia ouso dizer, faz uma homenagem a esta figura lendária, partícipe do ciclo arturiano, capítulo da História peninsular. Em seu conjunto de poemas, faz o elogio de cinco virtudes que dão cor à personalidade de Galvão: honestidade, cortesia, galhardia, caridade, fidelidade. O título do conjunto de poemas pode ser lido como um índice de representação da personalidade de Galvão que, por sua vez, ilustra o ideal cavaleiresco, item constitutivo do período a que se circunscreve a narrativa lendária. Os poemas, um por vez, anunciam as virtudes de que se deve servir o cavaleiro – o tom é didático, como faz supor o referido ideal em seu contexto. “Mais valoroso é teres força / para embalares um bebé / do que para dispensar adversários...”,numa alusão clara, diria eu, à sábia utilização da força física com a delicadeza que a caridade exige. Ou então, “Tudo o que és / deve ser Franqueza”. Note-se a personificação de  uma atitude mental/moral, a franqueza, procedimento poético já muito caro ao período do qual o cavaleiresco é devedor. Ou ainda: “Insufla nas tuas narinas / o espírito primordial, / aquele que pairava sobre as águas / e que cindiu a terra, / no tempo do vazio e das trevas!”. Os exemplos são muitos e variados, multifacetando as possibilidades dos poemas que, ao fim e ao cabo, concorrem para a construção de um discurso poético que, para além de remeter a um passado glorioso da cultura lusitana, revela espírito delicado, de acuidade refinada, para a percepção de nuances do espírito humano, tão raras nos dias que correm. Recordando a ocasião em que ouvi o poeta, certa feita, declamar um poema de sua lavra, “mano mais velho e mano mais novo” – creio que essas expressão é parte do poema lido então –, fica claro para mim, a partir da leitura de “O escudo de Dom Galvão” o fato de ser a poesia, aqui, o instrumento de expressão de uma personalidade artística genuína, ímpar, peculiar. Seu traço – ele, o poeta, é também artista plástico – só faz conjugar esta constatação. As virtudes que alimentam a construção poética e David, neste pequeno e precioso conjunto, remete como já dito ao período cavaleiresco peninsular e, voltando ao começo deste meu comentário, coloca luz sobre a imagem do “escudo”. Este elemento, componente do título do conjunto poético, pode estar a remeter o leitor para a ideia da carência desses valores que devem ser procurados e protegidos, por um lado. Por outro, a mesma imagem pode instrumentalizar outro índice: o da necessidade se valoriza, vivenciar, propagar e compartilhar as mesmas virtudes, como caminho de proteção do sujeito, perdido que está entre tantas veredas obscuras da falta de algo que o conduza “pelo bom caminho”. Parabéns ao poeta!




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