José, de novo


Não sei por que, fui me lembrar de um dia perdido no tempo, em que, terminando de fazer uma conferência, Gerson, o amigo que coordenava a sessão, disse que eu acabara de operar um milagre. Coloquei, lado a lado, dois homens que não “se bicavam”. José Saramago e António Lobo Antunes. Na verdade, a lembrança não era essa. Já não me recordo do que me lembrei. No intuito de ter uma desculpa para escrever alguma coisa e não deixar esta segunda-feira passar em branco, resolvi dizer que me lembrei da passagem acima descrita. De fato, a situação ocorreu, de verdade, numa data que já se perdeu no turbilhão e minha preguiçosa memória. No entanto, a desculpa não funciona da mesma forma e me faz assinalar aqui a notícia triste que acabo de ler, agora, no iniciar da noite: a morte de George Steiner, crítico literário, cuja obra conheço um tanto. Escrevia numa linguagem que me deliciava e sempre me pareceu alguém extremamente preparado para dizer a que veio. Sua sinceridade era alguma coisa de irrecorrível Pena. A outra notícia correlacionada diz respeito à saída do Reino Unido da União Europeia. Alarmistas de plantão – Infelizmente sempre os há! – já vaticinaram tragédias, dificuldades e apuros para os tupiniquins que para lá se mudaram e lá vivem, mesmo que com dupla cidadania. Queria saber o que é que andam ensinando nas faculdades de comunicação social, sobretudo naquelas que oferecem formação em jornalismo. Parece que para os que saem destas fileiras só existem duas coisas a fazer no/com o jornalismo: atacar, atacar, atacar, com críticas veementes, acaloradas em, por vezes, até ofensiva, mesmo que sem o devido embasamento e, de outro lado, o anúncio de apocalipses mal formados que só deploram, complicam, estressam e confundem quem anda atrás de informação correta. A tal saída apareceu numa página de jornal português – também não me lembro de seu nome – hoje, comentando o fato e trazendo à ribalta o romance de José Saramago, publicado em 1986, intitulado A jangada de pedra. Este ano é emblemático para Portugal, pois foi a primeiro de janeiro dele que o país peninsular entrou definitivamente na Comunidade Econômica Europeia, hoje mais conhecida como União Europeia. Todos os que expressaram sua opinião no referido artigo de jornal acabam por esbarrar num ponto comum: a ideia de que o autor português neste seu romance, vaticinou o que veio a acontecer de fato nesta semana com a saída do Reino Unido da mesma comunidade. O tom, pode-se dizer era funesto e, por isso mesmo, com esta referência, chego ao ponto de fuga de minha tergiversação: escrever umas linhas sobre um romance do mesmo autor, cuja releitura terminei hoje: As intermitências da morte. Um romance que faz pensar, rir e ficar de boca aberta. A sequência inicial chega às raias do risível, quando uma família vai para outra localidade porque um velho quer morrer e onde ele vive, ninguém morre mais. O miolo atravessa fases diversas e coloca o problema incomensurável causado pela parada da atividade da famigerada das gentes. É o conteúdo mais risível, pelo absurdo que tangencia. No final, o toque de mestre. Simplesmente genial o entrevero com a remessa de cartas em papel lilás, se não me foge a memória, para anunciar a morte, até que aparece o violoncelista. O inesperado da sequência final é que faz a gente ficar boquiaberto. A surpresa do desfecho, contrariando as mais variadas possibilidades e os mais inesperados palpites, conclui a narrativa de maneira contundente e, ao mesmo tempo, quase divertida. José Saramago, neste romance, pode não se superar, mas desvela, uma vez mais, as mazelas da criatura humana quando se debate na inexplicabilidade das próprias invenções, das próprias crenças, diante dos obstáculos quase intransponíveis que a existência humana impõe a cada criatura. Simultaneamente, desenvolve, subliminarmente, discurso de profundíssimo teor filosófico quando se debruça sobre a única coisa da vida: a morte. E que morte ele cria. A personagem é uma senhora conspícua, elegante, mordaz e paciente, quase desdenhosa de si mesma e do que tem que enfrentar diuturnamente em seu ofício. Um romance para se ler em estado de alerta, mas de alma aberta.


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