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"Fulgor de estrela apagada. Calor de gesto frio. Melodia de palavra muda. É assim a reação quando ele passa arrastando as chinelas, assobiando. Com uma estridência que dá gastura. Cantarolando músicas populares. Ou então, depois de comer, sentado no sofá a tirar pele da sola dos pés e colocar na boca, mordiscando o que de excremento seu corpo produz. Nojento. A pobreza da rima interna não se sobrepõe à vontade de sair correndo. Lá vêm as chinelas arrastadas. E o barrigão. E o vozeirão. Tudo é gritado, não é falado e sempre na mesma cantilena. Não tem diferença ao longo das horas do dia. Porque as horas do dia são sempre as mesmas, no mesmo ritmo, na mesma sequência. Dormir, dormir, dormir. Uma facilidade para dormir... Assim mesmo. Uma quase ingenuidade que faz ter pena. Mas será ingenuidade mesmo ou falta de informação. Faz tudo. Coração de manteiga. Aqui, ali, acolá, as opiniões toscas e geralmente bem conservadoras, quase preconceituosas: é xingar jogado de futebol, apresentador de jornal, repórter, gente na rua, político. Tudo farinha do mesmo saco. Reclama, reclama, reclama, mas não muda. Olha sempre para a mesma tela. Por que não muda, meu Deus? Que chatice. A experiência do conviver não é fácil. Uma utopia desconhecia que não se alimentava ao longo do tempo, que passa, sem mostrar sequer um lampejo de mudança. Vai tudo continuar como sempre foi. Mudança zero. Para quê? Da beleza dos vinte, trinta anos para a figura gasta e mal cuidada dos anos de depois. Algum tempo depois. Ainda o mesmo tempo, implacável. Da rebeldia adolescente para o preconceito da longevidade. Parece que não vai mesmo mudar. Conviver, compulsoriamente: uma agenda que não se quer de antemão, de graça, sem informação prévia. Basta a tradição, a voz da natureza. Mas não. As chinelas se arrastam, o assobio estridente, a gritaria, e a brutalidade. Apenas aparência. A brutalidade é apenas aparente e a repetição, necessária, confirma a suspeição. Coração de manteiga. Não há como escapar esta evidência. As páginas de um romance podem até produzir figura similar, gestar uma consciência mais aplicada, mais ilustrada, menos rica em arestas. Mas o romance não consegue. Não pode vencer a natureza. E esta, por sua vez, não se incomoda com a outra, a da ficção, da imaginação, da escrita. O indivíduo cartorial e o ente de papel sempre vão ser diferentes, vão ter sempre a natureza diferente, apesar de uma mesma origem em muitos casos. Este o milagre da escrita. Cria, reproduzir, enriquece, mas não supera. De outro lado, o que se faz com a escrita, a leitura – em primeira instância – torna a repetir o ciclo em direção não oposta mas diferente, às vezes contrária, mas sempre, indubitavelmente mais instigante, para não dizer enriquecedora. Assim é com as atividades, as habilidades, os traços de personalidade, com as vontades, desejos e caráter. Miríade de traços constitutivos que se misturam em dosagem aleatória, sob a conduta de um maestro aparente sem rumo: o tempo. Como o vento – a ocorrência, inconsciente da rima não diminui a veracidade da constatação – que não tem início. Ou tem? A pergunta sem resposta: Onde começa o vento. A gente só sente o vento em movimento, sempre. Não s consegue localizar sua origem. Determinar sua direção é mais plausível. Assim é com as atitudes: escutar vídeos e áudios em volume perceptível com a televisão ligada. Bochechar o suco depois de comer, como a querer limpar dos dentes. Lavar as mãos superficialmente, deixando digitais na toalha. Dirigir em alta velocidade. Resfolegar enquanto come. A gastura. A estridência o comum diário da repetição que não encanta, desgasta, mas não termina. É difícil. Deve ser como um casamento. Sem o sexo – o que parece bem pior. Mesmo que o sexo não faça mais falta. O afeto, talvez. A intimidade, mas o sexo mesmo, no duro. Vai saber! O arrastar dos chinelos que perpetua a mesma impressão de insolvência, de falta de perspectiva. O tédio de constatar o mesmo, diariamente, sempre a mesma coisa. Na mesma hora. O lugar de sempre e quase literalmente o mesmo texto. Sem o charme dos holofotes, o glamour do aplauso e da celebridade. Por inutilidade de absolutamente tudo. Mas não se escapa da estridência da gastura. Mais algumas palavras e a página se acaba. O limite imposto é atingido. Imposto por quem? Vai. Tenta. Mais uns passos e o infinito vai se dar a conhecer. Basta querer! Sonhar..."

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