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Três vezes no ano. Eram só três vezes por ano. O professor
determinou assim. Filho de esportista, jogador de futebol e professor de
educação física. Filho de homem famoso. Feio como o pai. Determinou que seriam
apenas três vezes por ano. O comparecimento às aulas de educação física seria
reduzido a três aulas. O aluno era também atleta. Portanto, não precisava fazer
todas as aulas, já tinha seu treinamento. Três vezes no ano. A primeira, a
última e uma outra aleatória, à escolha do aluno. Qualquer dias. Apenas mais.
As duas outras serviriam para o teste de Cooper. De acordo com os colegas, o
atleta não precisava das aulas porque já tinha o Cooper feito. O cacófato
provocava risinhos sacanas. Gozações. Hoje isso teria o nome de bullying.
Mas eram gozações mesmo, das grossas. O Cooper feito. Esporte de homem era
futebol, no máximo basquete ou atletismo. Voleibol e natação eram “coisa de
mulherzinha”. Homem que nadava ou jogava futebol era mariquinha. Não havia
outro nome àquela altura. Mariquinha. E lá vinha vaia. E gozação. Nas duas
aulas obrigatórias, para o teste, tudo certo. O negócio era escolher a outra. Não
fosse isso, a vidinha era simples demais. Colégio de rapazes. Padres
Salesianos. Disciplina rigorosa. Controle quase nazista, sob a égide da cruz e
das batinas pretas que perambulavam pelos corredores. O diretor, Pe. Marino,
motivo de muitas fantasias. Pe. Jarbas, o disciplinário, dava medo. Enorme, mãos
imensas, vozeirão e uma cara medonha. Impunha respeito pelo medo. Pe. Henrique
tinha cara de fuinha. Cabelo grande no nariz. Não, não cortava. Fazia e vendia balas
de café. Pe. Alcides e sua coriza interminável e só falava em religião, com
sotaque alemão E Pe. Pedro, o primeiro contato com a pedofilia. Tudo se resumia
a uma vidinha boba. Na hora do recreio a vontade era o dropes de frutas.
Pastilhas pequenas, secas e coloridas. Azedinhas. Mas cadê dinheiro? As
pastilhas eram objeto de desejo e Rodolfo sabia. Rodolfo. Os cabelos pretos
curtos e encaracolados. Olhos cor de mel. Pele amorenada. As pernas grossas de Rodolfo.
A primeira paixão adolescente (?). “Comprei as pastilhas pra você. Pega aqui”.
A sala de aula: silêncio. Prova do professor Carlos Alberto, baixinho, sério e
bravo. Psiu. “Pega”. O sussurro chegava na nuca, Quente. Úmido e sedutor.
“As pastilhas estão no bolso. Pega” Psiu. Silêncio! O gosto das
pastilhas na boca. O medo da braveza do professor. O bafo quente de Rodolfo. A
imagem das pernas grossas de Rodolfo. “Comprei pra você. Só pra você. Não vai
pegar?” O sorriso sedutor de Rodolfo, imaginado. “Me dá sua mão”. Psiu! O
silêncio da sala. O bafo de Rodolfo. A mão no bolso. Gargalhada geral. O grito
de Rodolfo. O professor se levanta e xinga e chama a atenção. Todos os aluno apontando
e rindo. Rodolfo quieto. Sorriso malandro no rosto. Sorriso de Gioconda.
Sedutor. A vergonha. O pau de Rodolfo, quente, grande. Grosso e quente. O pau
de Rodolfo dentro do bolso. O gosto das pastilhas desapareceu da boca. A
vergonha. O professor manda os dois para a direção do colégio. Pe. Marino. Ai,
meu Deus, aquela boca. A vergonha. A gargalhada dos colegas. A lembranças das
aulas no colégio. As aulas de educação física. O dia da aula obrigatória no
meio do ano. Jogo de futebol. A turma adorando. A vontade de sair correndo.
Futebol, que merda. Rodolfo entra no vestiário e dá uma surra no Denis. O
estrangeiro. Branco, muito branco, pele branca e olhos azuis. Pernas grossas
também. Sem a sedução de Rodolfo, mas atrevido. Rodolfo viu. Entrou no
vestiário e deu uma surra. Gritaria. Gozação. Os alunos não entediam por quê. Rodolfo
e Denis foram para a diretoria do colégio falar com Pe. Marino. A boca do Pe.
Marino. Desde aquele dia a amizade, a camaradagem. Não mais gozação. Sem
pastilha no bolso da calça. A lembrança das pernas grossas de Rodolfo. As aulas
de educação física. O colégio de rapazes. Professor Carlos Alberto. As batinas
pretas flutuando pelos corredores. A pedofilia. As pernas de Rodolfo. O pau de
Rodolfo. O colégio e as aulas de educação física. O filho do jogador. O tempo crescendo
como grama. Buracos, moitas, pedras. O crescimento irregular aparado de vez em
quando, mantendo a raiz. O tempo. A passagem do tempo. As imagens do colégio,
dos corredores. As batinas. As palavras. Tudo num miasma quente e úmido de
prazer. A voz doce de Rodolfo entre os olhos castanhos. Cabelos encaracolados. Pastilhas.
As pernas grossas de Rodolfo.
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