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Doze meses.
Com exceção dos três convites de Viviane. Café, cinema e almoço. Três dias no
meio de outros tantos, ao longo de doze meses. Quase exatamente doze meses trancafiado
num apartamento em Niterói. Nada de conseguir demover. Nenhuma linha. Nenhuma
página. Nem mesmo um relatório protocolar, por formulários a justificar o temo
e o dinheiro, o trabalho dispendioso. Nada. Doze meses e nada. Depois de ficar
quase dois anos empatando a vida de muita gente. Nada. Em quase exatos doze
meses, nada. Nada de nada. Se visse três pessoas que não eram de suas relações
conversando, já suspeitava de armação, conluio, trama para atrapalhar a sua
vida. Boicote e perseguição. Tudo contra. Nada a favor. Por dois anos, o colega
viajando pelo Brasil. Semana após semana. Seu nome incluído numa lista de
trinta que cada um dos primeiros trinta foi instado a fornecer. Jamais foi
chamado. O colega viajando e nada. No auge, no frigir dos ovos a acusação: o
colega impedia a sua nomeação. Boicote. Nada. Absurdo. O colega vagabundo. Traidor
Um punhal fincado nas costas. Deixou de ser amigo. Tudo era motivo para
armação. A diretora da Biblioteca da Torre do Tombo em Lisboa abriu as portas.
Todo o acervo à disposição. Bastava definir o período. Nada. Os doze meses substituíam
a viagem. O desconhecimento da língua inglesa foi o argumento. Fajuto. Língua
inglesa em Portugal? Que se saiba, ainda que com ritmo, sotaque, diferentes, a
língua lá e cá é a mesma. Há divergências, obviamente, mas ao fim e ao cabo, acaba
por ser a mesma. Lá e cá. Nada. Nem o convite fez desistir dos doze meses
trancados em Niterói. Num apartamento pequeno em Niterói. E nem era necessário
mudar-se. Tudo podia ser feito de casa mesmo. Doze meses. Jamais ter viajado
para o exterior, outro argumento. Não se aprende a viajar para o exterior na
escola. Aprende-se, obviamente, viajando. Tudo fajuto. Argumentos furados,
desconexos. Doze meses. E depois disso os dois aniversários denegados. As
férias na casa da mãe se repetindo. Sempre, ano após ano. Os amigos levando
bolo e champagne para comemorar o aniversário. As luzes da casa acesas.
As janelas abertas. O vulto passando pela porta da sala. Meia hora de espera no
portão, do lado de fora. A insistência. A cobertura do bolo derretendo. O champagne
esquentando. Nada. Ninguém veio atender à porta. Nem mesmo no ano seguinte. O
amante de ocasião mereceu a vez. Uma noite de espera. Nada. No dia, o
arrependimento. O amante não aparecera. O interesse era outro, tirar proveito,
esbaldar-se. Nada de afeto sincero. Nada funciona. Nada serve. O aviso do
lançamento de um antialérgico novo, menos agressivo. Não funciona. Sem jamais
ter tomado, o veredito: não funciona. A alergia ao sabão em pó, ao sabão em
barra, ao sabonete, ao shampoo. Alergia à vida, é o que parece. Nada servia. Os
doze meses reverberando,. Intensidade tamanha que fez sentir falta da
terapeuta. A de preto. A que almoçava e jantava com o paciente. Aquela que se
encontrava nos bares e, bebendo, fazia as sessões públicas. Inovação. Nada.
Despropósito. A saída. Os doze meses ficaram por isso mesmo. A mudança. O
calote do irmão. A morte do pai jamais vencida, realizada, administrada. O
fantasma do pai na confusão que turvava a realidade. O que é a realidade? A mudança.
Corte radical das relações: não eram saudáveis. As memórias não eram saudáveis.
O intervalo na capital. A reforma na casa alugada, sem arranjo contratual. O
sumiço. A volta às origens: a irmã puxando de uma perna. A mãe a reclamar de
tudo e absolutamente dependente. Os irmãos inúteis, um deles ladrão. As
cunhadas, outras inúteis, a falar banalidades, asneiras, boçalidades de gente pequena,
fútil, vulgar. As férias repetidas no interior. “Na nossa idade, temos que
pagar”. O trabalho nas férias, de outra natureza, mas trabalho. Os gastos, o
dinheiro se esvaindo e as férias se repetindo. Doze meses perdidos em Niterói.
Uma vida inteira praticamente perdida. As ilusões. Os desvãos. Os desejos e sonhos.
“Deixai toda a esperança, vós que entrais”. O mote. “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, o eco. “In hoc aliquid
gaudeo discere et docere”, o caminho.
Doze meses. Quase nada mais que doze meses e um monte de lembranças, de
memórias inefáveis. E o poeta, ainda uma vez, tem razão: “A vida inteira que podia
ter sido e que não foi.” Doze meses. Nada mais que doze meses. Muito que se
perdeu na linha do tempo. Sempre.
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