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Cheia de si. Sobrancelha arqueada em gesto de superior
arrogância. Sua chegada, nem sequer sentida, ficou no esquecimento do cotidiano
que nem sempre satisfaz. Ilusão. A algazarra diminui um pouco. Respeito também
pouco. Nenhuma expectativa ou ilusão. Muito segura, abre a boca e... Encontros
vocálicos. São os encontros ocorridos entre as vogais. Há três classes de encontros
vocálicos: ditongo, tritongo e hiato. O primeiro e o terceiro se dão entre duas
vogais, o segundo, com três. Só há hiatos entre as vogais ‘a’, ‘e’, ‘i’ e ‘o’.
A sobrancelha continua arqueada quando ela se volta para a classe. Um braço se
levanta. Irritada, ela atende. “Existe hiato com ‘u’ também. Aliás, ‘i’ e ‘u’
não são vogais, são semivogais.”. Não conheço nenhum hiato com ‘u’. Nenhuma
gramática registra esse tipo de hiato. Logo, ele não existe. “Errado. Existe um
hiato com ‘u’: ‘duúnviro’.” O quê? “Duúnviro. É o nome que se dá ao sujeito que
divide com outro o governo. Triunvirato, governo de três. Cada um deles é um
triúnviro. Duunvirato é o governo de dois, Logo, duúnviro é o nome que recebe
cada um deles.” Mas isto não está em nenhuma gramática. Aliás, se este é o
único exemplo, não é suficiente para dizer que existe hiato com ‘u’. “Aí é que
a senhora se engana”. Na fila, um pouco antes a grávida na frente. Ocupar o último
lugar. O prazo se expirava naquela noite. Nenhuma decisão sobre o pedido em
processo. Nada. Dois meses de espera. Ninguém sabia por onde andava o processo.
O resultado seria desastroso: pagamento de todas as disciplinas cursadas já uma
vez, de novo. Uma vez mais. Repetir o desnecessário. Não. A fila não andava.
Mas não vai ser de outra forma. A porta se abre. Por cima dos óculos, o barbudo
diz que vai atender até a grávida. Quase nove da noite. A aula já ia começar.
Da fila não havia possibilidade de sair. Andou, andou, andou. Quando a grávida
saiu, o barbudo ia saindo também. Pé na porta. O barbudo gritou. Já sentado.
Não sairia da sala sem uma solução para o sumiço do processo. O barbudo gritou,
babou, esbravejou. O único argumento repetido: encontrando processo, resolvido
se aceito ou não. Tudo resolvido. Caso contrário. Nem um passo para fora. Nem
pensar. Outra sessão de baba, grito e confusão. Outros diretores chegaram. Um
deles era conhecido. Dois seguranças, com olhar ameaçador. Caso alguém encoste
a mão: exame de corpo de delito e denúncia de agressão física Um pouco mais de
gritaria e baba. O barbado puxa uma gaveta com força. Tudo se espalha no chão.
No fundo da gaveta, o processo. Consternação. O diretor conhecido às
gargalhadas. Os seguranças saindo de fininho, constrangidos. O barbudo, sem
graça, resmungando, ainda tentava ficar em posição de vantagem, de mando, de
poder. Agora que o senhor encontrou o processo, sabe o que o senhor faz com ele?
Enfia no cu. A sobrancelha mais arqueada ainda, a irritação pulando dos olhos e
o vermelhão na cara não foram suficientes. A dona ainda vociferava que não
podia. Um exemplo só não sustenta o reconhecimento de um fato. “De onde é que a
senhora tirou isso? Desde quando ocorrência única não é suficiente para
constatação de um fato linguístico? Onde está escrito isso? Em alguma
gramática? Quem foi que disse isso pra senhora?” Estou dizendo que não, é
porque não pode! Pronto! “Vamos fazer o seguinte. Pegue seus livros e seus
cadernos e venha se sentar aqui, ao meu lado. A senhora ainda tem que estudar
muito. Não tem ainda condições de dar aulas para mim”. E pensar que todo começou
com um engano. Sábado de farra, na noite, esbórnia, álcool, cigarro e sexo.
Muito álcool. De manhãzinha o banho rápido. O copo de chá mate gelado, sem açúcar.
O zumbido no ouvido. Prova de redação.
Zoooooooooooooooooooooooooooommmmmmmmmmmmm. Domingo de agonia, manhã de domingo
de agonia. Na segunda-feira, ao final da tarde o estranhamento. Movimento inesperado
na avenida. A loja fechada. O saco cheio de aguentar a pose dos donos. As
risadas com o pessoal da oficina. A chatice de ter que cobrar dos inadimplentes.
E o movimento inesperado às seis da tarde. O ônibus se aproximando. Ao pegar o
bilhete, vem junto o catão de inscrição. Ainda há provas. Mais três dias de
provas. Por isso o movimento! Ih... Quase sete da noite... Correria. O portão
se fechando, mas ainda deu tempo. Sem zumbido no ouvido. Depois do trabalho. Três dias a mais, seguidos, a mesma
cantilena.
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