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Muitos quilômetros entre uma cidade e outra. A possibilidade da repetição de outra viagem, mais longa. Mas era só desejo. O pai, a mãe, o diretor. Todos no mesmo carro. Não era ônibus. Só um carro. Uma kombi, na verdade. E não era a versão tupiniquim de Little miss sunshine. Muito porque os fatos ocorreram anos antes. muitos anos antes. Um tempo em que os afetos eram mais cristalinos e menos influenciados. Um tempo em que a sinceridade do carinho extrapolava estereótipos e num simples gesto de estender a mão na queda de um bloqueio num jogo de vôlei vaia quase mais que um orgasmo. Um tempo em que as pessoas se olhavam e se viam. Se falavam e se escutavam. Se abraçavam e se sentiam. Não apenas porque o corpo era sarado, a sunga, da moda, a gíria, do momento. Não. Era tudo como era. Da maneira que acontecia. Pelo menos, era isso como se percebia então. A mãe e o pai na frene, com o motorista. O diretor no segundo banco com alguns atletas, Rosemberg no terceiro banco. Ainda havia mais uma. Mas foi no terceiro. A viagem inteira de agonia, de tesão, de desejo. Olhares faiscantes, arfar descompassado, E o pai e a mãe no primeiro banco. Atentos. Toda a viagem. Depois da chegada, na divisão dos quartos, imposta pelo pai e pelo técnico. João Batista e Ugo eram os companheiros de quarto. Rosemberg, decepcionado. Não podia fazer nada. Ugo atento. Feio e estrábico. Fala sonsa, voz esganiçada, óculos de fundo de garrafa. Vigia perfeito para o pai, a mãe e o técnico.  Nada, nem antes, nem depois. Tempo chuvoso. As provas diárias correndo como se nada fosse acontecer e nada acontecia. Estranho desejo esse. Contenta-se com tão pouco, mas busca sempre muito, no físico, no toque, no prazer. Duas três noites. E o penúltimo dia acabou. Chovia. A kombi cheia e a mesma disposição. Rosenberg mais alegre. A toalha sobre as pernas. Não foi como no ônibus, na outra viagem, o tempo todo mão na mão. O calor do toque. O intumescido e quente latejando debaixo do cobertor. O diretor e seus filho fazendo vista grossa. Dois a dois, os ingênuos amantes se acariciando. E as meninas nem desconfiavam. Não. O pai, a mãe, Ugo. João Batista, ladino, fazia piada à boca pequena. No penúltimo dia, a toalha sobre as pernas. A mão sobre a mão. A carícia terna, delicada, quente, vigorosa. as mãos de Rosemberg eram grandes. E não só as mãos. O calor intumescente. A vibração. O arfar do desejo que não se continha e queria se repetir no banho a dois. Na delicadeza do banho a dois. Depois o primeiro beijo, molhado, quente, lambido. Não foi como naquela vez. Mas fazia bem. Era gostoso. Fazia arrepiar e tremer. Olhar para Rosemberg era como gozar. Rosemberg sorria e piscava o olhos. Apertava a mão também. Intumescido, quente, latejante. O quase orgasmo debaixo da toalha. Chovia. João Batista rindo e fazendo piada. Ugo nervoso e calado, sem perceber nada. Pai, mãe e diretor no primeiro banco, A censura que não se mantinha,. A toalha sobre as pernas. A carne quente. O prazer. A viagem terminou, O tempo passou. As imagens, em flashes, voltam sempre, Não atormentam enternecem. Da primeira vez foi melhor. Dormir juntos, abraçados, pernados. O calor da carne de Rosemberg jamais esfriou na memória. Ainda bem que existe a memória. Constructo díspar, multifacetado que pulveriza a lógica e mantém as verdades indizíveis. O inominável prazer que dilacera o corpo no jogo do desejo transformado em versos a posteriori. Compensação. A memória. Os versos não trazem o momento de volta, o arrepio. Os versos só materializam a memória, essa sim, ainda que indizível, incólume à pátina do tempo. Até certo ponto, é verdade. Mas ainda assim, mesmo que até ali, no ponto de fuga desconhecido e inesperado, a memória reina, trazendo de volta o calor, o arrepio, o tremor e a alegria de estar junto, de estar perto, de estar do lado. Seria esta a essência da saudade? A saber... O fato é que a memória faz sempre voltar a imagem do céu enevoado, a risada da Suely e do João Batista, então experimentando de fato, o que no desejo Rosemberg partilhava. O pai, a mãe e o diretor no primeiro banco. Ugo do lado, sem ver debaixo da toalha, na volta da piscina. No retorno, a lembrança: poucos momentos que não se repetiram. Intensos. Tudo não passa de um momento agora quando Rosemberg não está mais aqui. Por onde andará? Que será feito das mãos grandes, das pernas de Rosemberg? Ah, as pernas de Rosemberg.

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