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A bandeja sobre a mesa cinza. Uma peça de prata antiga em
forma de coroa. A cerâmica pintura em fundo branco a realçar a mesa. Sem saber
o que estava por vir. A mesa, na sala azul, os convidados chegando. Eram
quatro. Duas a duas. Com um irmão entre os dois grupos. Vivaz e falastrão. Bigodes
enormes a emoldurar sorriso fraco, largo, contagiante. Violeiro e cantador. A
animação de todas as festas familiares. Não estava ali. Na sala azul, onde
abandeja de cerâmica pintura verde repousava sobre a mesa. Sabiam tudo.
Resolviam todos os problemas numa facilidade de ar inveja a mais rápido dos
mais rápidos aparelhos de laser. Sempre da mesma forma. Entrando na sala azul
como ratos a vasculhar os cantos. Procurando o que comer, os ratos farejam o
chão. Fungando, arrastando seus rabinhos roliços pela cerâmica calara que
sustinha a mesma onde estava a bandeja. Lembrança de antepassados. Da avó
italiana, o presente. Peça artesanal, folclórica, da Tchecoslováquia. Não
existe mais, o país que respondia por esse nome. As quatro sabiam. Claro que
sabiam. Elas sabem tudo. Olhando, resmungando, enquanto andam pela sala azul,.
Os convidados do lado de fora não sabiam de nada. A mais nova pega a peça. “Isso
é uma peça de arte. Está no lufar errado”. O olhar enviesado. A dona da casa
não gosta. O silêncio das outras três. E os convidados na algazarra exterior. “Trás
o martelo e um prego. Isso é uma obra de arte. Tem que fica na parede. É mais
bonito”. os convidados, na algazarra, não souberam. As outras três se calaram,
sorridentes. Coniventes com a decisão da mais nova, a mais talentosa, a
artista, a mais viajada. E a dona da peça, séria toma a bandeja. “A casa é
minha. A peça é minha. Fica onde quero”. A algazarra. As risadas. As quatro se
misturam, um pouco. na verdade, não “se misturam”. A bandeja sobre a mesa na
sala azul. A recordar outros tempos. Noutro dia, sem festa nem algazarra a
visita na casa das tias. Tudo mudado. Ergonomicamente adaptado. Novos tempos.
Novas necessidades. Não mais as quatro, mas duas. As outras estavam
trabalhando. “Quem trocou os móveis? Por que a cama e os sofás estão mais altos?
Isso não pode. Está errado”. A idade pesa para as tias. A vida continua, mais
lenta, mais cuidados. No silêncio cortado por conversas educadas e sóbrias.
Contraste com o alarido das perguntas. A idade. As necessidades. A explicação
óbvia. E o mesmo olhar sorrateiro, a escarafunchar cada canto, cada detalhes. A
procurar motivos para falar, deitar regras, corrigir. afirmar o que é certo e o
que é errado. Em qualquer circunstância. Em qualquer lugar. A qualquer hora. Na
porta do hospital, a desfaçatez. “Como não podemos entrar? O nome não constava
da lista. Política hospitalar. Esquecimento de alguém, da (outra) agregada talvez. O constrangimento. os telefonemas. “Não
pode!”. Para elas, não há limites. Tudo pode, tudo é devido. Tudo é como deve
ser para elas. Mesmo divididas, ou sozinhas. Cada uma a seu modo. Sempre com a
razão. Os telefonemas, a reclamação. Os resmungos a desfazer da (outra)
agregada. Como se o mundo devesse seguir suas normas, sem discutir. Como se a
(outra) agregada não fosse alguém ali presente. Invisível. As quatro n olhavam
pra ela, não falavam com ela. Não a reconheciam como alguém que existe, que
estava sempre ali, ajudando(até prova em contrário. as quatro sempre. E de
novo, a ruma de reclamações. “Nunca fomos consultadas. Nunca perguntaram se a
gente podia fazer alguma coisa. Sempre ficamos sabendo de tudo depois de feito.
Nunca fomos consultadas”. E a arrogância escorria como baba em boca de velho.
os telefonema. A insinuação. O veneno que escorre assim pelos cantos, esverdeado.
A amargurar ainda mais ao vida das quatro: o marido que só gostava de sexo
anal. O outro que se sentia o rei da cocada preta. O terceiro, boa pessoa,
quase um bobo alegre. O quarto, por fim, no fundo de sua timidez, escanchado,
escorraçado do seio da família das quatro. Quatro índias. O curumim sempre
ficou de seu lado. Desde a tribo, de onde vieram e se “civilizaram”. Deve ser
por isso. A convivência feminina como única referência. Elas sabiam tudo. Pensavam
que podiam tudo. Jamais se deram ao trabalho de olhar para o lado, a tentar
perceber a diferença. Como com a bandeja de cerâmica pintura. Lá na mesa, no
cetro da sala azul. Na casa para onde não mais voltara. “Temos que levar fulana
ao trabalho”. Duas e as sobrinhas? As outras duas apareceram mais tarde. O
protocolo exige. Mãe, filha e sobrinhas, as quatro outras, juntas, a levar a
fulana para o trabalho. Assim, desse jeito. Bonitas e altivas, elegantes. Na pose,
olhando de tudo e de todos. Ai não havia como dar palpite. Uma cena final. Não
mais a mesa cinza com a bandeja de cerâmica pintura verde da Tchecoslováquia.
Ali não. O silêncio da morte. Ainda que por meros quinze minutos. E
olha que elas eram “da família”...
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