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As salas empilhadas como caixotes num depósito. Miríades de
caixotes em corredores tortuosos e estreitos. Um andar acima do outro.
Biblioteca empoeirada. Livros velhos, de bibliografia básica jamais retirados,
há mais de quinze ano nas prateleiras. Pó. Burocracia. Caras e boca em
discursos ensaboados e desgastados, sem sentido, vazios. as salas empilhadas.
Muitos maçons e militares misturados. Interesses diversos e costurados por uma
única linha: lucro. Uma empresa. Em dia de vestibular, o risco era passar na
porta no último dia e ser aprovado. Uma empresa. O interesse encher as salas
como caixotes empilhados em corredores sinuosos. Biblioteca inútil. E o boteco
do lado sempre cheio, de segunda a sexta. Os andares se sobrepunham numa luxúria
de lucrar, lucrar, lucrar. O convite. Inesperado e insistente. Consuelo ela tinha cara de cavalo. Magra, alta. Muito
feia. Sempre com um lápis apontado na mão. O convite. “Venha”. A proposta para
renovação do projeto. Mudanças radicais. Uma turma boa, interessada, cheia de
vontade e energia. O café no intervalo, na beira da avenida movimentada. A
zoeira. Nas sextas feiras, o boteco ao lado, sempre cheio. O convite Inusitado.
Leonardo e seu brilhantismo. Nariz fino, olhos de lince, língua afiada. Um
portento,. A companhia certa para as cervejas de sexta-feira no boteco ao lado.
As salas empilhadas em corredores sinuoso. O boteco. O convite. Marcus e seu olhar
de coitadinho. A síndrome de Talidomida como identidade. Sempre uma piada
sutil, língua afiada também. Violeiro e prosador. Inteligente e feio, como uma
tartaruga. Américo, o médico. Três hospitais. Tradutor de alemão, Poeta e
ensaísta. Leitor de Lúcio Cardoso. Intérprete de Lúcio Cardoso. Crítico de
Lúcio Cardoso. Típico bibliófilo. Mirrado, bigodinho estragado, óculos fundo de
garrafa. Roupa esconjuntada. Olhar embaçado, mas vibrante. A timidez em pessoa.
quando falava ficava gigante, um tribuno. Lúcio Cardoso. O convite. Era, já
três confirmados. Consuelo, cara de cavalo, andando com o lápis na mão, em
riste. Sempre séria. As reuniões em salas apertadas. A poeira. O barulho da
avenida movimentada. O vozerio do boteco ao lado, sempre cheio. As propostas. Sorrisos.
Cumprimentos Caras e bocas. O andaço entre os corredores sinuoso. Oitenta e
duas pessoas numa sala. Quatro homens. A gritaria. A revisão. Professoras,
pedagogas, pedagogos, historiador e comadres, Todos comadres e compadres. O
vozerio a se confundir com o populacho no boteco ao lado. O das sextas-feiras,
sempre cheio. Muita cerveja. Os futuros jornalistas. A pose. A arrogância. “Isso
não presta. Não ensina a fazer entrevista”. Não há curo. Há que ter presença de
espírito, informação percepção. “Você é
tonta, burrinha e sonsa”. As salas sempre cheias. Consuelo e o lápis. A
primeira a sumir. Nenhum comunicado. De repente.. não mais. Zum zum zum... Diz
que diz... Falação entre dentes. O boteco sempre cheio e as cervejas. E lá se
foi o Marcus. Não mais prosa, não mais piada sarcástica. Não mais compaixão. A
proposta caindo em desuso. Os livros ganhando poeira na biblioteca, numa das
salas empilhadas de um dos corredores tortuoso. E o barulho da avenida
movimentada a embalar a queda. Américo cansou de se dividir em quatro. Os
hospitais exigiam muito. Lúcio Cardoso gritava alto em seu espírito. Uma tese.
O dinheiro não chegava. Muito sacrifício para quase nada. Não há suporte
institucional. Que delírio. Leonardo se foi, aos gritos. No meio dos corredores
tortuoso o escândalo, as ameaças. A cerveja das sextas-feiras, no boteco sempre
lotado, ao lado. No mesmo lado da avenida movimentada. Não mais. A proposta que
foi sem jamais ter sido, algo já conhecido àquela altura. E a poeira. Os corredores.
O barulho da avenida. O burburinho do boteco ao lado. sempre cheio. Não mais.
Nunca mais. A mudança do prédio. A mudança de endereço, O mesmo interesse, a
mesma jogatina. Agora em prédio próprio. Não mais proposta inovadora. Somente o
holerite em verde a estampar a manutenção de tudo como perdido. Bastava
aprovar. Fábrica de diplomas. Não mais Consuelo e seu lápis apontado. O sorriso
amarelo, a cara de cavalo. Não mais as piadas do Marcus. Não mais a erudição de
Américo. Não mais os delírios alcoólicos de Leonardo. Nada. Não mais as salas
empilhadas por entre corredores tortuosos. Não mais o boteco ao lado sempre
cheio. Prédio novo. A mesma cantilena. O holerite verde para não falar em
proposta de renovação. O que poderia ter sido e que não foi. O motivo que
jamais apareceu. O sumiço gradual, em sequência. Mudo e inexplicável. Agora, as
salas amplas, envidraçadas. Os livros limpos de sua poeira, mas ainda repousando
silentes na biblioteca, também ampla. Endereço novo, sem o alarido da avenida
movimentada. Sem o vozeiro do boteco ao lado. O convite inesperado, como o fim.
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