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Sábado. Noite de sábado. Sábado à noite, era mais explícito.
Título de música, até. Dia de dormir à tarde. Ficar de bobeira em casa. Tomar
um bom banho. fazer a barba. Sair de casa. O trabalho só volta na segunda. A
faculdade ficou pra trás, na manhã do mesmo sábado. À noite, a fantasia. Os
sonhos. A aventura. Sábado à noite. Como todos os outros sábado. A mesma cantilena.
O mesmo itinerário. O carro estacionado do mesmo lugar, da mesma esquina. No
mesmo bairro, a mesma casa. Sábado à noite. D. Hélia recolhia-se cedo. Domingo
era dia de almoço em família. Quando a família aparecia. Sábado à noite. De
repente, do nada, a prima chega e se refestela no cantinho preferido do ateliê.
“Quero saber como vai sua sexualidade”. Assim na lata, sem mais. Da convivência
mais chegada, apenas um carnaval com alguns familiares e amigos na capital
federal. Nada mais. Os drinks, as fantasias. O rebolado na hora do samba.
O marido machão e machista a criticar. A prima a incentivar. A tia mais jovem e
mas aberta a rir. Muita cerveja. Os anos 70 foram mesmo de uma liberdade jamais
conhecida. A geração de 50 sabe disso muito bem. O carnaval na lembrança. A
pergunta (implícita) direta, na lata. E a conversa rola. E choro. E risada. E
cigarro. Vinho tinto barato. O ateliê apertado. Carlos e a prima. Mais uns dois
ou três. Prelúdio de mais uma noite de sábado. Depois, a capital federal. O
passeio de final de semana. O choro convulso por conta da volta. O retorno O
prazer intenso de mais um sábado à noite. Sylvio. Voltar. A lembrança e Paulo.
Buenos Aires, nem um ano atrás. Depois de mais um sábado à noite, a promessa de
realização de um de muitos sonhos. Sylvio. Voltar. O choro convulso e a
solidariedade da prima. A psicologia ajuda. ais um sábado à noite. A prima
solidária. Passa o tempo. O sonho não se concretizou. Morreu na casca. A prima
solidária. O apartamento. Os passinhos curtos da prima chegando para o almoço.
Joga os sapatos para o alto. Arranca a roupa e vai soltando pelo chão a caminho
do banheiro. De banho tomado, nua, anda pela casa fumando. Veste uma camisa e
se senta para almoçar. Todo o dia a mesma cantilena. O câncer no cérebro. A mudança
para o Rio. A bomba de cobalto. A volta trágica. Corticoide. Corpo deformado.
Na cama, ofende e xinga a melhor amiga, a confidente. A prima irritada.
Transtornada. Manda a melhor amiga embora. Cai na rua e quebra a perna. A
convalescença e a solidariedade de volta. O segredo. O aborto escondido da mãe,
da família. A capital federal tem seus segredos. Sábado à noite. Não mais nos
anos 70. Agora, no trabalho. Das 19 à uma da manhã. Todos os dias menos domingo.
Sábado à noite, não mais. Aparece a prima. Amarfanhada. Descabelada. Bêbada?
Cigarro torto na mão. “Vim aqui para você tirar a sua máscara”. O cordão de
ouro A falta de atenção que levou a joia a leilão e a perda da cautela. A
acusação de roubo. “Com a criação que você teve...”. A ousadia. O almoço. A
joia reposta. O almoço a despedida. Não mais solidariedade. Não mais saber da
sexualidade alheia. Não mais. O tempo passa. Os sábados à noite perdem brilho
com o tempo. A pátina das experiências falhadas. Dos sonhos despertados. Das
decepções. Sábado à noite não do mesmo jeito. A morte do pai. O velório com
todos os irmãos. A repulsa. O abraço que a prima rejeita. Empurra. Faz careta.
Constrangimento. Cena que se repete anos após ano. Volta o problema grave de
saúde. Não mais corticoide. Não mais bomba de cobalto. O tempo que passa e as
reviravoltas que causa. Inexplicável. Compreensível, mas inexplicável. O
definhamento, Pés e mãos ficando redondinhos, fechadinhos. A risadinha
infantil. A confusão mental. Os cabelos ficando grisalhos e compridos. A
magreza. A voz infantilizada. Não mais a pergunta na lata. A sexualidade
esquecida. Nem choro, nem solidariedade. Aborto, não mais. A amiga perdida. O
primo afastado. A rejeição do luto. Um corpo estirado na cama, emagrecendo. Com
um sorriso infantil A vozinha fininha de menina travessa. Enfim, a reunião de
família, depois de muitos sábados à noite. O suspense. A aflição. “Vamos botar
uma pedra sobre todos os problemas. É Natal. Recomeçamos do zero. Gosto muito
de você!”. A surpresa. A indiferença. As memórias indo e voltando. As cenas em
flashes escurecidos pela pátina do tempo e pelas controversas mudanças de
comportamento. Da curiosidade sobre a sexualidade do primo a uma
degenerescência digna de compaixão. Indo e vindo. Sobe e desce. Ri e chora.
Grita e fica apática. Cai. Expulsa todo mundo de uma festa. Chora de saudade do
pai. Chama para almoçar. Acusa de ladrão. Uma e duas medidas. Imprevisibilidade.
Mudanças que se explica. Talvez não se aceitem, mas se explicam. O tempo que
passa. A coleção de sábados à noite que deixa marcas. Umas claras, outras
escuras. Contrastes constantes.
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