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Lisboa. O céu azul de Lisboa. Chegar a Lisboa é como entrar
em casa, depois de uma viagem muito bem sucedida. O estar em casa que nunca se
esgota, Sob um azul lilás, quase roxo, circundando o céu da cidade. Lisboa e o
Tejo. O rio mar. Lugar comum que não tira o prazer de repetir o nome da cidade.
Lisboa. O convite que chegou em hora inesperada. A alegria inesperada do
retorno. A possibilidade de rever os amigos. Seria uma oportunidade para
conhecer Samuel. cara a cara. O convite não possibilitava. Bem... Três dias
para a conferências e o protocolo de praxe. Depois nada. Nenhum impedimento.
Mas Samuel não sabia. Escondido em sua vida celebridade em Londres. Filmagens,
entrevistas, gravações, papelada. Atender fãs e patrocinadores. A troca de
mensagens truncada. Sempre a mesma. Sempre os mesmos erros de Inglês. De um e
de outro lado. Na tradução do google apareciam alguns. A consulta à
colega tradutora desvelava outros. Samuel não sabia disso. Estava lá em seu
mundo de celebridade a sonhar com o encontro que não acontecia. E a dúvida
permanecia do outro lado. muitas dúvidas. As fotos eram sempre cópias da rede.
Nenhuma selfie. A explosão de raiva. O xingamento. “A vida de celebridade tem
um preço. Você sabe! Você tem que se acostumar a isso! Eu já disse a você! Sabe
quanto custa uma sessão de fotos? Lisboa e o céu azul não dissiparam certa preocupação.
Três dias passam rápido. As conversas continuando. A notícia que escapa. “Eu
pago um bilhete para você vir a Londres. Cancele o de volta ao Brasil e venha
até aqui”. O susto e a incerteza. Cancelar? E se não desse certo. E se, de
fato, Samuel fosse um perfil falso? Todas as tentativas falhadas. Nenhuma
certa. “O hotel já está reservado”. A mensagem confirmando. O voo inesperado.
Tão inesperado quanto convite para Lisboa e a conferência. “Não há reserva para
este voo em seu nome, senhor”. Era o fim. Nervosia. Como explicar numa língua difícil
o que se passava. Com muito custo, a confirmação. Inexplicavelmente. O pedido
de desculpas da funcionária. O sorriso amarelo. O despacho. Londres, cidade
desconhecida. O voo ansioso e desgastante. O aeroporto cheio. A língua difícil.
O sotaque mais agradável. As filas. Gente falando. A ansiedade e o medo. Grandes
espaços, confusão. Vozes. O controle de passaportes eletrônico. A demora. O
sinal verde que não aparecia. Ninguém para perguntar, ajudar, resolver. A
ansiedade do encontro tão sonhado. A um passo de ser concretizado.
Inesperadamente. Saudade de Lisboa. Certo arrependimento pela insegurança. De
repente a voz perto do ouvido. Os militares. Os dois de preto com coletes
amarelos. Chapéu xadrez. O braços
seguros, o passo cadenciado. Os corredores. As vozes e olhares estrangeiros. O
longo corredor até uma sala. Espera. Silêncio. Ninguém e espera em silêncio. O
interrogatório. O passaporte. As caras sisudas. O olhar desconfiado. s
perguntas difíceis. A dificuldade da língua. Inexplicavelmente, a cala, a
tranquilidade. A tentativa nervosa, mas contida, de responder. Um convite para
conferência em Lisboa. O contato com Samuel. As conversas durante algumas
semanas que antecederam o convite para Londres. O cancelamento do bilhete para
o Brasil. O desconhecimento geral sobre Samuel. “Quem?”. Não conhecido.
Perguntas e perguntas. As mensagens no celular. As fotos. O insistente desejo
de um encontro. A postergação. As mensagens com as fotos que poderiam ser
verdadeiras, mas usadas por alguém falso. Tudo falso. O mundo desmoronando. Não
existe essa pessoa. Desconhecimento geral. Mais perguntas. Entra e sai na sala.
Os cochichos. O olhar sisudo e desconfiado dos guardas de preto usando coletes
amarelos. O chapéu xadrez. Uniforme. Todos brancos e arrumados. A mesma roupa.
O mesmo chapéu. O mesmo olhar sisudo. O entra e sai que não acabava. Quem é
Samuel? O que é que veio fazer em Londres. Quem pagou a passagem. O tempo que
passa. Lembrança do céu de Lisboa. O azul do céu de Lisboa na memória. Bálsamo
do pensamento. O estridente rumor da dúvida. A sala amarela com luz intensa. O
reflexo dos distintivos. Os cochichos. O homem de gravata. O dedo apontando. O
sorriso amarelo dos guardas. O passaporte na bolsa. A porta se abrindo e o dedo
indicando a saída. O sorriso amável do engravatado. Clic! Não. O convite não
pode ser aceito. Como cancelar um voo sem ter certeza de que o perfil de Samuel
não é falso? Como não saber se tudo não passou de uma brincadeira maldosa, de
mau gosto. Não. O convite não aceito. Só a conferência. Os três dias em terras
portuguesas. O vinho do Alentejo. Os peixes e as carnes. O céu azul de Lisboa a
coroar todos os sonhos. Possíveis e impossíveis. Não. Definitivamente não. Somente
a conferências. Três dias e o retorno. Nada de cancelar voo Nada de confirmar
reserva. Não. Só os três dias em Lisboa. Sob o azul do céu de Lisboa. Como
voltar pra casa depois de uma agradável viagem.
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