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E a mesma sequência em repetição. Uma, duas, tantas
incontáveis vezes. A mesma repetição. Ora para um lado, ora para outro. E o sangue
de Jaime escorrendo. Abundante. E o chicote rasgando o ar, Mais um, mais dois.
O castigo de cem chicotadas pelo testemunho de um crime. Não poderia haver
punição para um superior. Jaime viu o crime. O assassino viu que Jaime tinha
visto. E as chicotadas como resultado do desleixo do destino. Desleixo. As chicotadas
pareciam não bastar. O sangue escorrendo. As costas tonadas de Jaime laceradas.
O banho de sangue não diminuía o erotismo implícito. As costas de Jaime. As brancas
e tornadas costas de Jaime. Os braços esticados no pelourinho. O sangue
escorrendo a avermelhar as cotas de Jaime. Que escultura! Uma obra de arte. João
não resistia. Quando mais calado ficava Jaime, e as chicotadas não o faziam
gemer, mais excitado João ficava. E o sangue nas costas de Jaime. As costas
brancas e tornadas de Jaime. Uma obra de arte. Os olhos de João não piscava.
Mesmo a dor lancinante, já nos dois braços, não diminuía o vigor das chicotadas.
O sangue. As costas. O silêncio. Os olhos de João brilhavam, num furor erótico
que assustava. A quem assustava? A quem não sabia o que se passava? A quem tinha
como justo o castigo. A João, que sabia da injustiça. João que se excita com o
sangue nas costas de Jaime. O silêncio da multidão no fundo do cárcere. as
feridas. O silêncio que não atormentava, mas se sentia como nuvem de chumbo. O
crime encoberto. O superior que escapa. O castigo que imobiliza. Jaime não
cede. João volta ao ataque. A perseguição, a busca, os avisos. A sede de
vingança que fica no ar. O tempo que passa. As relações que se desfazem e
refazem e cedem lugar a outras. A marca interna. O trauma de morte não vingada.
O pai que morre. E o tempo é incapaz de secar certas feridas e deixar fluir o
sangue por dentro. A lembrança do chicote. O silêncio. As perseguições. Os subterfúgios
e a ciência do crime não cometido. A sentença. A possibilidade da forca. As
fugas forçadas. Voltas e reviravoltas que o destino dá e não escapa do olho do
furacão. Uma obra de arte. Não era castigo. O desejo do reencontro e a memória
do sangue escorrendo nas costas de Jaime. As brancas costas torneadas de Jaime.
O banho de sangue na memória Não era castigo: uma obra de arte. Objeto a ser
admirado com olhos de ver. Admiração e desejo. O tempo que passa. Anos depois. Não mais chicote. Não mais praça pública. Não
mais sangue escorrendo. O silêncio do cárcere. as feridas. O mesmo furor
erótico nos olhos de João. O corpo de Jaime deitado no chão. A sujeita. as
marcas do castigo. O peso do ar fétido a conservar o miasma erótico que
chamava, em silêncio, pelo olhar brilhante de desejo. João não resistia. A tortura.
O ferro em brasa. A repetição das palavras. Uma convicção a quebrar. O sarcasmo
de confessar o crime para o prisioneiro por ele responsabilizado. Um sabor
amargo de vitória no olhar rutilante de desejo. Uma obra de arte. Que corpo
escultural! É meu. O silêncio de Jaime e do cárcere. O sarcasmo. O ferro em
brasa. “Repete comigo: sou seu. Anda, repete: sou seu”. O silêncio pesado do cárcere.
O corpo de Jaime a tremer. A honra ferida. A mora vergastada pelo desejo
alheio. A lembrança de Clara. O cheiro de mofo, a umidade, a sujeira a
alimentar o miasma de desejo. A inocência que se vai perder. A imoralidade. A
vergonha. No andar das palavras, a história de um desejo guardado, alimentado.
O tremor, nem de prazer, nem de medo. De ódio. O tempo que passa e não apagas
as marcas. O fero em brasa. “Sou seu”. A carne queimada. O cheiro da carne
queimada a aumentar o desejo. O ferro em brasa. Óleo de amêndoas no cabelo. Não
foi um castigo. Uma obra de arte. O corpo coalhado de sangue e, agora, aqui,
deitado, sujo. Uma obra de arte. Que corpo, meu Deus. João não resiste. O corpo
queimado, A marca de posse. Os cabelos que roçam o corpo escultural de Jaime.
João goza. Força, não resiste. Invade, não vacila. Deflora o corpo de Jaime. O
escultural corpo com as costas brancas e tornadas. O sangue que desvanece, A
cicatriz que fica. O tormento, O grito. O gozo. O horror. O cheiro de amêndoas
do óleo que escorre. A memória de Clara. O choro da vergonha. A dor que não
existe. A sombra da memória do silêncio no banho de sangue. O corpo devastado.
A sujeita e o silêncio do cárcere. O resfolegar de João, insuficiente. O
silêncio. As lágrimas misturadas no óleo de amêndoas. O corpo desfalecido jogado
ao chão. O prazer conquistado. Jaime. João satisfeito. O desejo realizado numa
obra de arte que se repete em meio à sujeira do cárcere. a obra de arte com
banho de sangue. O rutilante olhar do desejo. O ruminar da sanha. O temo que
passa. A sujeira que acende o fogo da lascívia. As costas brancas e torneadas
de Jaime. O corpo de Jaime. O desejo. O fim.
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