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Do alto do balcão, logo na primeira cena, aparece Gloria, em
sua gloriosa magnificência. Os óculos escuros. A boca pintada com batom bem vermelho.
O turbante perolado e a túnica recamada de pedrarias. “Hey you, down there!”. E
entra a música. O olhar altivo e a voz arrastada. Toda a carga dramática de
cada gesto, cada inflexão, cada movimento de corpo. Tudo muito estudado.
Milimetricamente pensado na possibilidade expressiva do ato. Uma atriz. O desconcerto
do rapaz fica patente. O susto e a admiração. Uma mulher exuberantemente
desconhecida. Evolução da história: o contrato, os papeis, o roteiro a refazer.
No roldão, o dinheiro, as roupas, os contatos. No meio do caminho a traição. A
tentativa de suicídio. O drama estampado, verdade revelada. A herança de um
mundo sem som voltando no flash que se acende no estúdio trazendo tudo
de volta num átimo. Puf! A compreensão de tudo. A revolta. O desprezo e o tiro.
Um corpo que flutua na piscina. De novo, magnificente, entre em cena Gloria,
vestida de Salomé. Olhos arregalados, maquiagem carregada. Mãos e dedos como
serpentes em movimento. “I am ready for the close, Mr. DeMille!”. O sotaque é
francês, Maria-France. Pequena e branquinha. Do tipo mignon, olhos negros,
boquinha pequena. Menina simples e pobre. No começo. A guerra devasta a Europa
e os soldados norte-americanos chegam pondo fim ao inferno. O encontro casual,
o beijo, a paixão, a cama e a promessa. O tempo que passa e o rapaz que não
volta. O aborto e o choro. O destino que traz um milionário grego. O casamento,
a riqueza e a vida melhor. O presente de bodas e a necessidade de um piloto. A
contratação, a cisma e a confirmação. O rapaz voltou, como piloto. O desdém, a
birra, a implicância. A busca da recuperação do tempo no afã de realização de
um desejo. Reencontro impossível que acontece como escrito pelo destino. A
impossibilidade que se concretiza. A sanha do desejo que envolve em miasmas
duas histórias interrompidas. Os dois casamentos que se desfazem. Ambos por
traição. Vingança tramada com calma, milimetricamente, com sabores de
perversão. De fato, uma história de meia-noite. Quase sórdida. O que ninguém
viu foi a policial bem formada, jovem forte e experiente. A sessão de tortura,
física e mental. A tentativa de estupro. Os diálogos rasgados de prepotência,
vilania e perversão. O que se passou entre quatro paredes não cabe em várias
linhas de um relato. O processo da corregedoria. A desconfiança e a acusação. Os
traumas que assombram o sono, o sonho, o trabalho. O adagiário ecoa no fundo: o
que os olhos não vêm o coração não sente. A policial que se liberta e toca a
vida. A reincidência. A pusilanimidade do crime que impera. O desejo perverso,
que sordidamente demanda por satisfação psicopática. Agora é a vez do
pervertido, o criminoso. Amarrado ao pé da cama. A repetição da tortura.
Os gritos e a baba gosmenta que faz
aumentar a densidade do clima de terror. Os fantasmas que gritam em cada troca
de imprecações. O homem, com soberba, a desfazer da autoridade policial da mulher.
Uma guerra mais que milenar. O ódio e a vingança, as pauladas, o quase assassinado.
Gritos, sangue, ofensas. A vingança realizada até a entrada do reforço e o fim
do patíbulo psicológico. O julgamento. A sentença. A liberdade do pervertido. A
condenação da policial ao convívio com seus fantasmas, e os dele. Uma jovem
indefesa, virgem, bem educada e religiosa. No tempo que já passou, valores que
ainda lutam por sobrevivência. O costume de disputar a vitória na cama no jogo
de sedução gratuito e mordaz. A vilania travestida em perversão erótica. A
disputa entre homem e mulher, repetindo a ancestral guerra. A cada vitória de
um ou outro lado, uma festa, uma comemoração. O que não se admitia e, de fato,
acontecia: o aumento de paixão guardada, fantasiada de aventura. O truque, a
aposta. A conquista. O professor de música com encanto, charme e inocência.
Puberdade gritante. Poros supurando testosterona. O vigor da carne jovem e firme.
A disputa. O fogo do desejo a esquadrinhar o quarteto no jogo do prazer da
carne. As cartas e a fofoca. Idas e vindas de uma sociedade que se corrompe sob
o apanágio de perucas perfumadas, maquiagem pastel e luxo requintado com
debiques de frescura. A corte que Paris jamais esqueceu. O segredo descoberto.
As regras quebradas do jogo: paixão. O desdém dela. A raiva dele. A tentativa
de resgate de um contrato perverso. A fúria do mainstream já chegando ao
fin de siècle. “War!”. O tempo que passa e o desaparecimento dele. O
banimento dela. E la nave va... A espécie humana parece não aprender em
seus estertores. Comportamento que se analisa, se observa, mas não se aprende,
porque se repete. Compulsão da existência que atormenta e choca. Catarse
impossível. As diversas possibilidade de se esboçar o mesmo desenho. Perímetro
do desejo.
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