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Os pés de chapa. Dedos mal desenhados e o calcanhar bem mal
cuidado – pra não dizer rachado. Todo cuidado é pouco. Tudo o que se diz é lido
e pode ser lido de forma diversa da que o sentido primário imprimiu. Este
sentido nem sempre é percebido. Quase sempre é distorcido. Todo cuidado é
pouco, pois. Mas os pés de chapa tinham dedos horrorosos, estavam bem mal
cuidados. Estavam sim. Eram sim. Ainda se fosse esse o detalhe mais degradante.
Foram tantos outros. Tantos... De nada adiantaram os mais de vinte anos de relacionamento
anterior. Um intruso não reconhece isso. Não é capaz de equalizar o que isso significa.
E não é pouco. Vinte, quase trinta anos, se não fossem mais. Ainda que fossem
menos, o intruso não saberia, por genuína incapacidade. O clube dos intrusos
começou devagar, insidiosamente. A aparente humildade do rapaz do interior que
vem morar na cidade fez seu papel. Desempenhou com galhardia a persona
simples, aprendiz, que respeita os laços de amizade e a experiência, a idade.
Assim, devagar, com sorrisos melífluos que, depois, se revelaram sarcásticos e
maldosos, maliciosos, num desvão de caráter comum entre os intrusos. É da cepa
desse vírus. Os restaurantes antes frequentados pelos amigos. O DNA com a
experimentação das criações do sushiman, em incontáveis noites de
sábado. O grupo que se encontrava religiosamente a cada semana, a destilar
ironia sofisticada, comentários cheios de conhecimento, gostos consolidados com
capacidade e conteúdo. Nada de bracinhos levantados balançando de um lado para
o outro. Nada de U-hu-hu-hu em lugar de letras de música que diziam o que a
poesia desejava. Nada de filmes que eram esquecidos dois minutos depois da
sessão. Não. Da literatura à música, da economia à política, dos costumes à História.
Comportamento e opinião. Memória e vivência. Havia de um tudo. E o grupo
sobejava criatividade, bom humor, graça e leveza. Sem estereótipos. Sem lugares
comuns. Sem chavões e modelitos desgastados e vazios, pífios manequins de
montra. Os anos que passam. Três endereços na capital federal. Quatro endereços
na capital das alterosas. As caminhadas a pé pela Bahia, com direito a intromissão
em casamento em Lourdes. O Lulu em sábados à noite, de antes. Com os intrusos,
um restaurante – até interessante – em Santa Tereza. As idas e vindas. As
festas e as conversas demoradas com marijuana, cerveja, cigarro e saudades de
tempos outros. Parece que nos 70 tudo era mais fácil. A impressão é de que os
anos 80 foram bem mais divertidos. Sem denegar a evidente diferença e suas mais
diversas manifestações. Mas nada disso se compara ao furor iconoclasta do clube
dos intrusos. Todos da mesma laia. Todos arrotando riqueza e poder. Todos regurgitando
verdades absolutas e, por isso mesmo, vazios sofismáticos, a dizerem nada. Uma
do interior como ele. Outra da capital. Um outro também da capital. Este não
podia falar. Não tinha o que falar. Cérebro de ameba gripada. O corpo obedecendo
aos padrões, as conversas sobre suplementos e rotina de “treinamento”. De quê?
Não sabia dizer. Não podia dizer. Não tinha capacidade de dizer. Então veio o
vice presidente do clube. Veio de lá, da terra da zangada. Do lugar que tem
mais antropólogos por milímetro quadrado na face da terra. A impressão que se
tem é que basicamente 95% da população “faz” antropologia lá. Estudar
antropologia não dá status. Assim mesmo, em minúsculas. Um lugar em que
as pessoas acreditam que só existe um continente que vale a pena considerar
como “cultura”, a África. Pouco se me dá se disserem que isso é preconceito.
Não é. Podem até dizer que é racismo. Não é. É simplesmente a constatação
triste de fatos que conseguiram, pela intrusão, destruir trinta anos de uma
história que teria muito a contar. Os registros se perderam. Não mais a
possibilidade de recuperação. O elo que ligava as duas pontas da corrente se
perdeu. Definitivamente. E o clube dos intrusos continua a babujar-se nos próprios
miasmas. O comportamento frenético de quem acredita que não existe mais nada
que tenha sentido, então. O conjunto de baboseiras que chamam de vida. Sem
perder a verve de intrusos. Inseminar-se insidiosamente, pelas beiradas. Usar,
com vilania, as armas mais pueris, para um contaminação nefasta e definitiva.
Nenhum do grupo de antes conseguiu permanecer em ambiente tão pegajoso, sujo,
engordurado e malcheiroso. Sem graça. Combinação perfeita para o vociferar de
vozes intrusas. Um único sobrevivente a tentar permanecer, não incólume – por impossível
–, mas a hastear a bandeira da memória. Esta que foi aos poucos perdida, entre
tosse, febre e complicações outras. A explicação inalcançável e o “poder” da
intrusão. Impedir o compartilhamento da perda com quem de direito. O supra sumo
da baixeza: falta de qualquer resquício de caráter. Vilania. Caminho perfeito, trilhado
por um par de pés de chapa, com os calcanhares mal cuidados, a soerguer um
paquiderme de nadas.
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