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Depois do chá da Portela em 1981, toda em azul e branco, literalmente. Carros alegóricos representando seres marinhos. Todos eles. Depois da stravaganza da Beija-flor, com uma cascata de água em três níveis com mulheres seminuas rebolando. Tempos outros. Tempos idos. Na armação, com muita cerveja, muito cigarro, lança-perfume, maconha e choro. A afonia inevitável. O fim do caso com o arquiteto, definitivo e necessário. O início de nova década. No retorno, no mesmo bar do acontecimentos inusitados, o point da capital federal, o encontro. ali não havia como saber que o tempo de três décadas e quase meias ia ser mantido coeso. Amizade que nasceu espontânea. Cerveja, cigarro. Ouvindo Elis Regina  e bebendo guará no domingo de manhã. Um litro de leite na madrugada depois do bas fond federal. Toda semana a mesma cantilena. Já lá se iam alguns anos. O namorado feio, Carlos Alberto, vulgarmente chamado Casalberto. Feio, óculos de lentes grosas, cabelo vermelho, espinhas e acne por todo o rosto. Feio. Combinava com a sua timidez de olhos arregalados, lábios carnosos e vermelhos, pele muito branca. Muito  magro, muito inteligente, fumante de Charm. O ritual dos encontros de finais de semana. A diversão gratuita, sincera, partilhada. A turma de amigo de Carolina-MA: baião de dois, Marizabel, maconha, cerveja, risadas. Tom e o fetiche com Maria Betânia. Tudo sobre Maria Betânia. O folclore do Maranhão, as histórias, as genealogias. Maconha, cerveja, risos e lágrimas. Domingos quentes que custavam a passar. As discussões “filosóficas” em mesas de bar, em casa – nos dias de não sair – nos domingos à tarde, antes da volta para o lago, na primeira fase. Na segunda fase, durante o mestrado, a volta para a casa de Dona Victória. Victória Maria Guaitolini, aposentada do Banco do Brasil. Apartamento funcional grande, espaçoso. O carinho de mãe, a atenção e os mimos, a confiança. Complemento para a amizade que crescia e se fortalecia. Nada parecia desfazer o elo de afeto e inteligência que envolvia os dois e a todos os que conseguiam penetrar neste círculo exclusivo. As sessões de cinema, domingos à tarde, na Cultura Inglesa. O bate papo comentado, falando, aprendendo. Inteligentíssimo! A turma do Maranhão e o chato do Rubens. A amiga médica, completamente detraqué, sem senso de ritmo algum, divertida. A outra amiga chata, gaúcha chata, metida, burrinha. Chata. A literatura que não deixava espaço para mediocridade. O gosto pela música de Itamar Assunção, Ney Matogrosso, Arrigo Barnabé e tudo que nos anos 80 (do século 20, bem posto) significasse destaque e diferença, inovação. A preferência por Elis Regina a Maria Betânia não afastava do amigo Tom e seus fetiches: cabelo igual, roupas parecidas, panos na cabeça – para disfarçar a careca. Tom e a Unb, sempre reclamando da comida e trabalhando na Editora. Uma cultura rara e senso de humor dos mais refinados. O esquema na casa de Rubens foi outro. Aos sábados pela manhã, eles dormindo, a porta da sala ficava fechada. Lavar roupa e fazer café. Ir à padaria. Arrumar a mesa do café da manhã e planejar o dia, depois de lavar roupa. Bebedeira, sesta alcoólica, anho e bas fond. No domingo, a casa da Ray. O fusca da Sô,: as panquecas, a piscina de água corrente, a conversa com as lésbicas, muita cachaça e muita cerveja, muito cigarro. Domingo terminando e a roupa passada, a carona de volta para a casa de Dona Victória. O ritmo acadêmico ditando o movimento das semanas que só faziam reforçar a amizade, o carinho, a confiança, a troca auto ática de impressões sem palavras, somente com um piscar de olhos ou um esgar ensaiado. Lugar comum entre amigos. Os anos que se passaram e de uma felicidade que se acreditava duradoura, firme, inabalável. A mudança para Belo Horizonte. As trocas de endereço. A viagem para Nova Iorque com a surpresa na volta: um companheiro. Rapaz feinho, aparentemente interesseiro. Não demorou muito, todo o grupo se desfez. A provocação na festa de Natal da “turma”. Nenhum amigo “das antigas” frequentava a casa. Só os estereotipados em tudo: comportamento, discurso, ideias. Ideias? Difícil. Mais rápido que os 30 anos a brincadeira na rede social. O silêncio, Nada a declarar. O discurso de rejeição esculpido, não em mármore de Carrara, mas em palavras. A hostilidade envenenada do outro. O Clodovil da academia: feio, burro e chato. Quase 32 anos. A separação definitiva, decepcionante e inexplicável, inexplicada. A morte não anunciada, nem esclarecida. A ignorância dos fatos. O estereótipo que reinou nos últimos anos: responsabilidade pela ruptura. A separação. Um divórcio impensado, sem razão e sem sentido. Nada das três décadas podia sobreviver. O peso nefasto do estereótipo, do interesse, da falta de caráter. Quase três décadas e meia. O que foi mesmo que se passou?

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