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Mais de vinte anos. Desde a primeira vez que a ideia
ocorreu, mais de vinte anos. Uma primeira tentativa tinha que acontecer. Não
era possível que esta experiência não pudesse ser vivenciada. Não havia motivos
para não acontecer. Mais de vinte anos e a oportunidade se apresentou. De
repente. Inesperadamente. Por acaso, num momento de ócio, lazer, num intervalo,
apareceu a chamada, os critérios e as datas. Tudo parecia conspirar a favor da ideia
que demorou mais de vinte anos para se concretizar. Em tentativa, por início,
mas já valia apena ter esperado. Tudo muito simples. A preparação do curriculum
vitae não era trabalhosa. A carta de intenções não tinha segredo nem
dificuldade. Era mandar tudo dentro do prazo e esperar pelo resultado. Aceita a
inscrição, começava a verdadeira saga. A aprovação interna. Em três níveis,
obrigatoriamente. Sem esquecer de que ali, como alhures, a burocracia
agigantava os obstáculos e a falta de espírito de coleguismo e verdadeira
valorização do trabalho alheio impunham mais alguns percalços. Pra culminar, os
prazos estabelecidos antes mesmo da decisão de mandar os documentos. Havia todo
um caminho a percorrer. Cheio de obstáculos, reentrâncias, desvios e atalhos.
Uma saga, de fato. O primeiro passo foi dado. A inscrição foi aceita. No
contato com a chefia imediata, certa insegurança. A mulher não tinha pulso.
Temerosa, marinheira de primeira viagem – jamais enfrentara situação análoga –
estava insegura. De nada adiantaram as assertivas afirmações de que a
negociação podia dar certo com tato, paciência e muita, mas muita malícia. Ela
estava mesmo insegura, praticamente
apavorada. Isso não era nada bom. Alguns posicionamentos foram determinados, o
discurso preparado em seus argumentos fundamentais e uma data marcada. Apreensão.
Passado o tempo, veio a resposta. O contra-ataque. A dissimulada aprovação que,
no fundo, era uma armadilha. Aprovado o afastamento, não haveria possibilidade
de aumento numérico do quadro. O período era de vacas magras. Vagas raríssimas
e a disputa mais que feroz. Ainda assim, o afastamento foi aprovado, em
primeira instância. A segunda, matéria de mera burocracia processual, também
não causou espanto. Dois a zero. Mais um passo e estaria tudo acertado. Como
havia coincidência com o estágio anteriormente assentado, o pedido final foi de
acoplamento. Um período somar-se-ia a outro e nada mudava. Os dois anos se
passariam sem problema. A resposta começou a demorar. Na capital federal,
durante a entrevista, o compromisso com o processo devidamente aprovado. Era
questão de tempo, paciência e burocracia muita burocracia. A data final se
aproximava e nada de receber o sinal verde. De novo, da capital federal, o
alerta. “O que se passa? O que podemos fazer para colaborar? A quem procurar?”.
Todos os contatos repassados. De Budapeste outro alerta. A reclamação da
demora. O questionamento quanto à data de chegada. Daqui e de lá, a apreensão
crescia e se intensificava. Os prazos para o fomento chegando ao final. Foram
gastos extras: o toefl, as cartas de apresentação, os documentos acadêmicos
para o tio sam. Tudo junto. Budapeste seria o coroamento de um sonho. Dois
coelhos numa cajadada. O adagiário popular ajudando, mas a boa vontade não. Budapeste
gritando. Nada de resposta. O telefone tocou numa tarde. A voz irritada da
terceira secretária não deixava dúvida: a cama de gato funcionara. “Como é que
pode? O que se passa? Você garantiu a aprovação do afastamento!”. A informação
enviesada não deixava dúvida: o Cantinflas de araque aprontou uma definitiva. O
nutrólogo das gerais. Um merda. Afirmou que já havia aprovado o estágio. Nem
sabia onde andava o sujeito. O sabido é que estava nas terras do tio sam. Assim
mesmo, com minúsculas. A facada pelas costas. Fatal. O prazo “lá em cima”,
perdido. Nada de Budapeste. Cinco anos de geladeira. Cinco anos. Foram mais
quatro tentativas. Quatro editais em seguida. Todos com potencial positivo. O
perfil adequado. Os prazos obedecidos. Nenhuma das inscrições sequer recebidas.
Nenhuma notícia. Cinco anos que passaram rápido. Na quinta tentativa, o retorno:
inscrição aceita. O mesmo temor pelo processo moroso, burocrático e, acima de
tudo, maliciosa. Havia uma diferença então: o quadro mais numeroso e a
inexistência de ameaça oficial. Os pares, no fundo, adoraram a ideia de se
verem livres do sujeito por dois anos. Claro que jamais aprovariam a recondução
por igual período: previsão presente no edital, juridicamente plausível. Mais
fácil, menos insidioso, mas igualmente perverso, pra dizer o mínimo. O destino
ficava na mesma região. A aprovação veio, sem direito a remuneração. Não havia
prazo para recurso. Legalmente possível e, na circunstância, mais que adequado.
Não valia a pena. A burocracia mataria o sonho. Era olhar pra frente e tocar o
barco. Foi anos fora, O sonho que demorou mais de vinte anos pra se realizar.
Mesmo contra a má vontade alheia: uma realidade.
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