Trilogia.
Substantivo feminino. Na Grécia antiga, nome dado a um poema
dramático composto de três tragédias que deviam ser representadas juntas. Por
extensão de sentido, quando se trata de uma narrativa, geralmente longa,
convencionalmente chamada de romance, é o nome que se dá ao conjunto de três
obras, unidas entre si por temática comum. Bom. Na acepção clássica, a ideia de
representação em conjunto traz para os dias que correm, por exemplo plausível, a
ideia da literatura “em série” dos três romances. É o que aconteceu comigo.
Acabo de ler três livros de um mesmo autor. Uma trilogia. O nome dele? João
Tordo. Um jovem escritor português em ascendente carreira literária na
península. Os títulos das três obras que acabo de ler são:
O luto de Elias
Gro,
O paraíso segundo Lars D. e
O deslumbre de Cecilia Fluss.
Não sou eu quem diz que se trata de uma trilogia. Não fui quem leu os três
romances como uma trilogia. O próprio autor concebe o conjunto como tal: “Comecei
logo com a ideia de que seria uma trilogia (...) Tinha deixado o personagem
Lars um bocado em suspenso no primeiro livro e senti que a história ainda
não tinha sido contada, mas aqui surge reinventada” (A íntegra da entrevista
pode ser encontrada na seguinte ligação: (
https://observador.pt/2015/11/04/o-luto-o-paraiso-e-a-trilogia-de-joao-tordo/).
Os três livros são interessantíssimos. Como o próprio autor afirma, são
independentes, apesar de constituírem um fio narrativo contínuo. Menos poético
que meu xará português, José Luis Peixoto, mas não menos cativante, João Tordo
pega o leitor a contrapelo de sua preguiça. A preguiça pode ser do leito, que
fique bem claro. A contrapelo, porque estes três livros fazem parte de um conjunto
que reúne obras diversas, de autores distintos, em momentos variados da
Literatura ocidental. Um conjunto peculiar. Peculiar porque faz com que o
leitor não tenha vontade de parar de ler, ainda que o faça, por circunstância.
O “menos poético”, aqui, não deve ser tomado em sentido pejorativo. Longe
disso. O fato é que p xará é, por natureza – e a responsabilidade por esta
afirmação é total e absolutamente minha – um poeta. Suas narrativas envolvem o
cérebro e o coração do leitor. A aura de uma linguagem plasticamente esculpida
pela trama narrativa seduz e enleia o leitor. A poesia vence, ainda que, na
forma, narre uma história, bem ao gosto dos relatos congêneres mais
tradicionais. Esta é a única diferença. A preocupação de João Tordo, a meu ver,
não deixa de ser com a plasticidade da palavra. Longe disso. No entanto, sua
índole, diversa daquela de meu xará, seduz pela fluidez com que leva o leitor
pelas sendas narrativas que desvenda. Sua linguagem flui, etérea, entre os
pilares robustos e consistentes que sustentam a narração. Neste caso específico,
as personagens passeiam entre os três livros. Elas trocam de desempenho. Fazem
coisas diferentes, são pessoas e coisas diferentes. Uma personagem,, por
exemplo, numa romance é um escritor, no outro é um cachorro. Há uma espécie de
sequência genética que povoa o dramatis personae da trilogia. Isso não fica.
Não fica pedante. Não. Absolutamente não. A delícia desta trilogia é que ela leva
o leitor a pensar sobre a morte, sobre o ato de escrever, sobre as vicissitudes
que as relações interpessoais constroem e impõem a todo mundo e a qualquer um.
Esta marca é de João Tordo. O pensamento que decorre da leitura está longe de
ser pesado, pedante. Chega a ser divertido. Há, em alguns trechos, referência –
eu ouso dizer explícita, mas o faço como leitor, sem autorização do autor, com
o pedido de desculpas pela redundância – a José Saramago. Especificamente,
alguns pequeno diálogo marcados apenas por vírgulas. Mas isso é um detalhe que
só faz consolidar a personalíssima escrita de João Tordo. O convite está feito.
Recebeu-0, quem prestou atenção. Aceitá-lo-á, quem assim o quiser!



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