Devaneio


Uma insinuação não é nada. Nada. Não se sustenta e pode incorrer em erro. Quem disse isso? Não faço a mínima ideia. Alguém já disse isso? Também não tenho ideia. O fato é que isso me veio assim, de repente, um corisco verbal. à minha mente chegou como quem não quer nada e se instalou. De tal maneira que não resisti e coloquei pra fora, em palavras. Assim, do jeito que está escrito acima. Sem mais. Uma ideia repentina e livre de qualquer volição. Talvez tenha sido a manifestação de algum resíduo recalcado dos dias letivos do passado. São trinta e dois anos. Haja resíduo. Haja recalcamento. Mas fazer o quê. A vida que segue – ai que expressão mais chinfrim – e continua a comemorar o dia do professor. Comemorar? O quê, de fato? Há mesmo motivo de comemoração? A sério? A dúvida é maior, nem maior que o conjunto de frases feitos e ditos coloridos e altruístas que circulam anualmente em data análoga. De fato, no frigir dos ovos é mais uma data, apenas uma data, um dia como qualquer outro. Não fosse pelo fato de se comemorar também o dia de uma das mulheres mais importantes que o planeta já conheceu: Teresa de Ávila. A Teresona, como costumo tratá-la, crente de que sou íntimo dela. Assim como do Joãozinho, seu conterrâneo, outro portento a habitar os rincões do seráfico planeta dos santos. Seráfico é uma palavra tão elegante, sonora, conspícua, chique, bonita. Ai, ai... Pois é, mais um dia do professor. Mas não vou ficar lamentando as vicissitudes de profissão tão vilipendiada em pindorama. E basta! Parece até que falta assunto, mas não falta. Terminada a leitura da trilogia que apresentou António Lobo Antunes ao mundo da Literatura escrita em Língua Portuguesa, localizadamente em Portugal – pois a tal Língua Portuguesa é falada e escrita e outras partes do planeta – pensei em escrever aqui algumas linhas. Talvez resenha, talvez crítica. Não sei dizer. Seria, isso sim, um texto nascido de leitura que refis dos três títulos. Mais não digo pois ainda não descartei esta ideia. No entanto, a dona preguiça tem vencido a luta até agora. Vamos ver o que vem por aí. Outra possibilidade seria falar de algum assunto, assim, mais comezinho, mais rasteiro, para fazer eco ao que se “lê” por aí, neste universo que preza pela pressa, pela superficialidade e pela falta de “cuidado”. Desisto, não vou fomentar mais uma paranoia social. Há que anotar a ida a uma sala de projeção de centro de compras – o edifício chamado honrosamente de “cinema” já quase não existe mais – para ver a cinebiografia da Hebe Camargo. Tenho a impressão, neste exato momento, de que já comentei aqui sobre isso. Pelo sim, pelo não, repito: gostei. Dois livros de prosas continuam empacados. Um de poesia, cozinhando em banho maria – com água bem fria – no prelo da Patuá, em São Paulo. Outro, em germe, ainda nos rascunhos de um arquivo perdido no One drive. O livro das cartas de Alberto, ainda na minha cabeça, e mais nada. E o tempo passou. E uma página se encheu. E eu fico por aqui.


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