Finale



Para encerrar a série sobre o Aldravismo, hoje falo um pouco de um livro peculiar. O texto não será de saudação a um novo membro, não será prefácio de um livro de poesias, nem será a introdução de um assunto novo, com ares presunçosos de verbete enciclopédico. Não, definitivamente. Não se trata um livro (por mim) muito esperado. Li-o, por primeira vez, ainda encadernado, como primeira versão de uma tese, com capa plástica e espiral plástico preto. Li-o por completo e fique assaz admirado da força de suas páginas, da coragem de suas assertivas, da necessidade de trazer à luz aquele material, urgente para colocar as bases de um pensamento novo que surgia entre montanhas ferríferas e matas já não virgens assim, nas cercanias da primaz de Minas. Pois é. Trata-se de um livro de textos “avulsos” que formam um conjunto de ideias robustas e articuladas entre si: os fundamentos disso que tratei aqui por quatro outro textos: o aldravismo. Seu título: “Aldravismo: reinvenção da arte pelo jornalismo cultural”. Seu autor: José Benedito Donadon Leal. dileto amigo. Seguindo o subtítulo, na capa aparece uma pequena palavra: ensaio. Hoje ouvi numa estação radiofônica, um locutor dissertar por alguns segundos sobre o conceito de ensaio. Chamou-o “textão”. E, presunçosamente irônico, disse que se tratava de gênero muito comum na atualidade, dependendo, infelizmente da “qualidade” (sic!) do ensaísta. E terminou seu comentário com uma risadinha, igualmente presunçosa, marcada por uma pretensa ironia. Fiquei com pena. Por isso, não me estendo sobre a conceituação do gênero, mas circunscrevo minas observações para esse conjunto magnífico de ensaios, em nada comparáveis a “textões”, como denigrem as mentes ululantes do hodierno cotidiano da pressa, da superficialidade e da pouca substância. O livro de José Benedito reúne manifestos da criação do movimento adravista, observações atentas e cuidadosas acerca de manifestações artísticas – sobretudo pintura e poesia –, passeia pelo universo da Literatura, na perspectiva de seu particular discurso e finaliza com uma proposição poética. Corajoso o volume. Corajoso e bem escrito. Corajoso, bem escrito e fundamental para quem quer começar a entender do que se trata o tal Aldravismo. As circunlocuções críticas e assertivas do autor revelam sua verve poética, ao mesmo tempo que, galhardamente, advoga a originalidade do movimento em sua fundamentação, digamos, teórica. Quando o li pela primeira vez, disse que deveria ser publicado. Agora o foi. Discorri por suas páginas encantado com a capacidade de deixar clara a argumentação de cariz semiótico – balizamento de que o autor se vale, com maestria e brilhantismo – a orientar o raciocínio e a argumentação do texto. As proposições, ao final seguem idêntica orientação, apontando, subliminarmente, para o espírito deste movimento, o Aldravismo, que surgido em Minas, resgata o espírito desbravador e independentista dos árcades. Ao mesmo tempo, este espírito abandona a armadilha saudosista para apontar caminhos absolutamente originais que levam para a criação de uma forma genuinamente brasileira de poesia: a aldravia. Agora, depois de reler a última parte do livro, tenho quase absolta certeza da inutilidade de meu planejado verbete – quem leu os outros textos que escrevi aqui vai saber do que estou falando. Fica então, uma vez mais, um convite para a leitura deste volume instigante, sedutor, a desbravar a mesmice das repetições inócuas deixando o caminho livre a preparado para o florescer da nova forma poética. Evoé!!!


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