Ecos do passado II
Não me lembro a origem deste texto. Peno que foi preparação para uma monografia de final de semestre, durante o mestrado. Talvez para a disciplina "Teoria da narrativa", sob a batuta de minha orientadora: Margarida de Aguiar Patriota. O texto foi escrito à cause do impacto do filme O nome da rosa, depois da leitura do romance homônimo.
A cozinha, a
capela, a biblioteca: um elogio à Teoria da Literatura
Conta o folclore, que em reuniões de
postulantes à vida religiosa, para identificar a que ordem religiosa pertence
determinada casa de formação, bastaria ver onde a luz da tal casa está acesa.
Assim, se na capela, a casa seria de beneditinos; se na biblioteca, a casa seria
ou de jesuítas ou de dominicanos; se na cozinha, seria, fatalmente, de franciscanos.
A presença do poder da Igreja em suas mais
variadas formas e acepções pode ser constatada no discurso literário
(ficcional, mais especificamente) do Ocidente, em sua história evolutiva. Desta
forma, a ironia e o humor com que tais ou quais atitudes dos grupos formadores
desta casta podem ser tratados, acaba por conferir certa “dramaticidade” à produção
literária que se envolve nas malhas, hoje, vaticanas. Em O nome da rosa, Umberto Eco nos apresenta um painel interessantíssimo
dessas relações, para gáudio do autor, semióticas. Crimes são cometidos numa
abadia beneditina. Um frade franciscano é chamado para desvendá-los – enquanto
seus confrades estão reunidos para outros, fins, na mesma, abadia – até que um
dominicano chega para envolver toda a trama nas malhas da letra inquisitória. Nada
demais, não fosse a profusão de sinais fortemente evidenciadores de intenções
muito mais amplas e profundas que a própria realização literária – estética e
semiótica poderiam ser outros epítetos tranquilamente acrescentadas – da obra
ficcional pretendida. Assim, não é à toa que o monge responsável pela biblioteca
da abadia/cenário é cego e se chama “Jorge de Burgos”. Coincidentemente, todos
os mortos ousaram se aproximar da chave de um enigma que esse monge teria
ocultado em “sua” biblioteca. Sintomaticamente, a biblioteca acaba ardendo em
chamas: uma alegoria do inferno...
Um outro ponto a considerar diz respeito ao
noviço beneditino, auxiliar de Guilherme, cujo nome é “Adso”. Quem não se
lembraria de Sherlock Holmes? Toda a sua astúcia não foi suficiente para
fazê-lo perceber o pecado contra a humildade – carisma fulcral da ordem
franciscana – Guilherme é franciscano, lógico. Pecado cometido repetidamente,
intensamente a cada passo dado rumo ã solução do “enigma assassino”. Por
último, chega Bernardo Gui, o dominicano. Ele chega com a força e o poder do
fogo da Inquisição, “paradoxalmente”, sua grande arma é a palavra. Por
intermédio dela, o dominicano interfere na ordem dos fatos e envolve três
pessoas, que não articulam discursos completos no corpo da narrativa, nas
chamas da Inquisição.
Estes três tópicos são aqui considerados
por se relacionarem diretamente com os três pilares da trama “romanesca” de O nome da rosa. Dom Abade e as vítimas demonstram a prudência,
o equilíbrio e o senso de “segredo” peculiares à família de São Bento. Os
franciscanos que se encontram para discutir a pobreza de Jesus se assustam com
a vaidade e o senso prático de Guilherme, um “anátema”: ele peca pelo excesso
de vaidade. Bernardo Gui dirige o tribunal da Inquisição que se instala como
forma de demonstrar o poder da Igreja de Roma sobre as “questões terrenas”.
Vale lembrar que o senso pedagógico e a palavra (por extensão semântica) marcam
o carisma da intelectualidade do batalhão de Santo Inácio de Loyola.
Isto traduzir-se-ia como
vulgaridade de leitura, ingenuidade, não fosse a articulação ficcional que estabelece
um sentido logico, “racional” para a obra, enquanto narrativa. Pode-se dizer
que se trata de uma obra que “celebra” o gênero “romance policial”. Há uma
série de assassinatos. Coincidentemente ou não, os primeiros a morrer são
jovens, e a idade das vítimas vai aumentando na medida em que o suposto volume
sobre a Comédia, escrito por Aristóteles – uma contrapartida,
complementar, à Poética –, vai sendo colocado como pomo da discórdia
instaurada na abadia. A homenagem ao argentino Jorge Luis Borges e sua Biblioteca
de Babel é inequívoca. A sequência
do incêndio evoca o
dogma do inferno e os primeiros versículos do Eclesiástico, simultaneamente.
É interessante notar como todos os
elementos, que articulam uma outra leitura para o romance de Umberto Eco estão à
vista. Esta presença evidente, apesar de não destacada, pode ser usada para a
estruturação de um outro discurso (ou poderiam ser outros...) que perpassa subliminarmente
o próprio texto. Há um livro interdito, sobre o qual pouco se sabe e muito se
suspeita. Existe uma pessoa que o encontra e que guarda sob sete chaves o enigma
que o envolve e que é responsável pela trama “macabra” do romance. Não há
assassino! O livro é quem mata aqueles que dele se aproximam. A beleza, a
juventude, a magnanimidade, a inteligência, a humildade, a prolixidade são,
todos, elementos de uma mesma estrutura: a vaidade. Esta desfaz-se como fogo...
O nome
da rosa descreve um
roteiro que aparentemente vai dar em lugar algum – ou poderia ser, vai dar em
todos os lugares. Todas as inferências podem encontrar pontos-de articulação
suficientemente consistentes. A busca do infinito nasce com o gênero humano e
sua racionalidade busca engendrar caminhos que tentem encontrar a saída para os
embates que se organizam. Teologicamente,
haveria muito mais que discutir pois as três famílias religiosas se dissolvem
em seus carismas semioticamente caricaturizados no bojo do romance. Haja vista as
citações em latim, que são parafraseadas no texto, a cada momento. Não é à toa
que o livro tem uma divisão em capítulos que reproduz as “horas litúrgicas”,
prática institucional dos mosteiros e, neste caso específico, também, parecem lembrar
a estruturação da própria Divina
Comedia, de Dante.
Do ponto de vista narratológico, a
semiotização do romance, enquanto discurso urdido, promete-se tão rica que qualquer
comentário tomaria o espaço de um ensaio. Basta lembrar, por exemplo, e mais
uma vez, a profusão de alegorias construídas no correr do texto e a narração,
quase gêmea, dos clássicos policiais, tão repetidos e reaproveitados. Neste ponto,
abrir-se-ia outro capítulo, pois teríamos que tocar em duas práticas bastante
valorizadas e utilizadas, até, pelo próprio romance: a intertextualidade e a
paródia. Algo que caminha para o caráter de pastiche,
que marcaria o espírito
pós-moderno que, insidiosa e capciosamente vai orientando a narrativa enquanto
discurso, como qualificado no início deste parágrafo.
Levantaríamos, se fosse possível, uma série
longa de dados que dariam consistência à afirmação capital, pretendida por este
texto; a leitura de O
nome da rosa
oferece a oportunidade competente para experimentarmos nossa capacidade crítica
enquanto teóricos da Literatura. Em outras palavras, não seria exagerado (e completamos:
talvez, mesmo, nada original) dizer que o romance
desenvolve de maneira exemplar a Teoria da Literatura que o Ocidente tanto
preza em valorizar, estudar, compreender e experimentar. A busca de um
arquitexto, que daria a chave final para todas as equações narrativas – que se
propuseram depois da Poética de Aristóteles. Este arquitexto acaba
queimado na ficção de Umberto Eco. No filme, a sequência final do incêndio,
quando Guilherme sai da biblioteca chamuscado, deixando cair do hábito ratos e
livros, é muitíssimo significativa. Este arquitexto, enquanto solução, é a
própria utopia da Literatura. É a tentativa de impressão de um desejo, 0
próprio livro faz isso...
Referências bibliográficas
GENETTE,
Gerard. Introdução ao
arquitexto.
Tradução de Cabral Martins. Lisboa, Vega, s.d. Serie Universidade.
LIMA, Luiz
Costa. O fingidor e o
censor: no ancien regime,
no iluminismo e hoje.
Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1988.
SANTIAGO,
Silviano. O narrador pós-moderno. In: Nas
malhas da letra.
São Paulo, Companhia
das Letras, 1989, pp. 38-52.



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