Ecos do passado
Faz algum tempo, publiquei aqui os textos que foram escritos como monografias para avaliação de disciplinas cursadas durante o mestrado que fiz na Unb. Desta feita, retomo o mesmo ímpeto de publicação, com a diferença de que vou trazer textos similares, mas apresentados durante o doutoramento.
Sobre uma
natureza das tesouras
Caetano
Veloso
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A mulher
tem cara de pateta. É revendedora de uma famosa marca de produtos de beleza. Tudo
em sua vida gira em torno disso. Ela mora em uma cidade pequena e provinciana,
perto da qual existe um castelo abandonado, muito antigo. É casada, tem dois
filhos e o marido trabalha na mesma fábrica em que trabalham os maridos das outras
mulheres, suas clientes. A personagem em questão vai ao castelo, num dia comum
de trabalho. Entra e encontra um rapaz estranho: cabelos arrepiados, num corte
esquisito; uma roupa preta cheia de cintos, amarras e remendos; a cara toda
marcada por cicatrizes e, no lugar das mãos, tesouras. Sua expressão é
absolutamente angelical. Ele é um misto de Frankstein, Blade runner
e Brinquedo assassino. Sua expressão é absolutamente inocente, angelical
mesmo. A mulher traz o rapaz para sua casa. Em rápidas palavras, ele conquista
toda a cidade. É quando, numa série de equívocos, aqueles que o acolheram, o
escorraçam. Uma inversão só cabível num conto de fadas. Trata-se de alguma
coisa muito próxima disso.
A sequência inicial do filme Edward, scissorhands, não dá conta de
preparar o espectador expectante para as surpresas que a história reserva. O
filme não tem muito de profundo, mas ultrapassa, e muito, o estreito limite da
ingenuidade. Posto que é uma obra de arte, já se chegaria à conclusão de que não
há ingenuidade neste “artefato”. Com este status,
o filme é exibido para ser recebido. E neste particípio verbal está a seta de
orientação de minhas observações.
Todos os
habitantes da cidade ficcional, que sintomaticamente não tem nome, ficam
excitados com a chegada de Edward. A representante dos produtos de beleza se
preocupa com os mínimos detalhes até o momento em que o contato se estabelece
entre a população e o rapaz. As relações são também, inicialmente, amigáveis. O
controle dela começa, então, a perder eficiência quando a série de equívocos
tem início. Edward é vítima desses equívocos. A ingenuidade desta personagem
não deixa que ele ultrapasse a faixa da infantilidade de suas associações e
reflexos. Ele volta a seu lugar de origem: um velho e empoeirado prédio antigo.
Cheio de teias de aranha. Ha uma série de elementos que consubstanciam a grande
metáfora no texto fílmico. Ela é apenas suscitada. Então, na cena final, aparece
uma velhinha contando uma história para sua neta antes de dormir...
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Nos estudos de Literatura Comparada, a moda
parece ser a dissenção e a diferença. De modo bastante generalizado, tudo
aquilo que faz pressentir um movimento de volta às origens tem a chancela do
vulgar, do pobre; e acaba alijado das esferas mais sublimes do comparativismo.
Num determinado sentido, é sempre isso que se faz: isolar, desdenhar. As coisas
parecem, então, tornar-se menores. Assim, não tenho medo de afirmar que a Teoria
da recepção – dever-se-ia utilizar a expressão Estética da Recepção? – tem
sofrido, de certa maneira, o influxo de uma crítica tendenciosa que teima em
limitar a recepção literária ao estudo de fontes e influências. Esta última
expressão, como é de conhecimento de todos, está carregada de sentidos
pejorativos, narizes torcidos e caretas. Sou forçado a concordar com Regina
Zilberman quando diz:
Oferecer a estética da.
recepção como um novo figurino ou esperar que ela encontre seguidores e adeptos
entre nós, seduzidos por suas promessas e já saturados de alguma outra corrente
crítica ou filosófica, é não apenas ter uma visão frívola da Teoria da
Literatura ou do intelectual brasileiro; significa também colaborar para a
alienação e dependência culturais, de que aquela frivolidade é um dos sintomas.
É evidente
a abrangência da observação de Regina. Não vou elucidá-la por completo. No
entanto, quero chamar a atenção para a tentativa de esclarecimento que ela contém:
os estudos de recepção literária não se propõem uma inovação absoluta e inflexível
da Teoria da Literatura. Muito antes pelo contrário, a Estética da Recepção,
para utilizar a terminologia da autora, pode auxiliar no trabalho da teoria que
acaba alargando o campo de atuação da Literatura Comparada. Isto, na medida em
que não postula uma originalidade epistemológica. Ela é mais um meio de
concentrar a atenção no particularmente literário, apesar de sobrevoar outras
latitudes. O que eu quero dizer, é que, com a orientação teórica desenvolvida a
partir de 1967, na Escola de Constança, hoje é possível colher melhores frutos
em nossas especulações críticas e teóricas em torno do emblema Literatura
Comparada. Especulações críticas e teóricas sim, pois nada pode ser tomado com
absoluta e definitiva chancela de conclusão final nesta matéria. Haja vista a
vastidão do campo de trabalho que a Literatura Comparada se propõe.
No
desenvolvimento dos estudos literários, a Estética da Recepção representa um “ponto
de mutação” na orientação dada a estes estudos. A História passa a ser
valorizada no computo geral de diversos elementos com alguma influência, no
quadro delineado pelo que se tentou chamar de “ciência literária”. Ora, a História
não se restringe a uma escavação de verdades fossilizadas que vão dando um
sentido, a cada momento de atualização da existência humana em curso. Desta
forma, este posicionamento “novo” condiciona os estudos literários a seu
aspecto, processual, à sua duração, no sentido de uma constante modificação e
desenvolvimento. Não se trata apenas de uma renovação, de retirar a pátina do
tempo, depositada sobre os sentidos obliterados pela “cegueira” hermenêutica da
própria Teoria da Literatura a cada passo. Todo e qualquer movimento neste campo
não pode abrir mão do leitor, sob pena de perder absolutamente sua razão de ser.
Este elemento aponta, possivelmente, para uma questão muito mais ampla: a construção
de uma imagem. A terminologia pode parecer exageradamente abstrata ou, mesmo,
estéril. No entanto, quero ressaltar que, com a preocupação voltada para o ato
da leitura – como jogo de relações efetivas entre os diversos elementos envolvidos – a Estética da Recepção começa a articular a questão do sujeito. Sou eu quem
quer pensar assim. Outra não parece ser a leitura possível de um elemento que,
no curso das teorizações da recepção literária, recebe vários epítetos: o
leitor. Este é um sujeito, operador e operado na/da/pela leitura. Sujeito na
dupla acepção da palavra. O sujeito-leitor é o elemento que, no final das
contas, vai dar sentido ao sentido geral gerado pela obra literária, ou aos sentidos
possíveis desta. E isso é um processo. Desta forma, é forçoso concordar com
Jauss, no sentido de negar a autonomia absoluta do texto. Ele não pode se
sobrepor ao sujeito “por contar com uma estrutura autossuficiente, cujo sentido
advém tão somente de sua organização interna”. Isso é uma posição
tendenciosamente perversa.
Entre
tantos outros aspectos, este me interessa em particular: qualquer um dos
direcionamentos teóricos que podem ser considerados para os estudos da Estética
da Recepção, sempre tomar-se-á como ponto de referência, a relação estabelecida
entre o texto e o leitor. A ênfase ora num ora noutro desses elementos vai
mudar, é claro. O problema da historiografia-literária, como pano de fundo para
estes estudos prevalece. Este pano de fundo acaba se tornando, por força das circunstâncias,
o conjunto de objetivos “finais” desta mesma historiografia. O que desejo
destacar e a emergência desta imagem, desta “figura”, como já citado. O leitor
vai ser, sem certo exagero, o objeto de desejo das teorizações da Estética da Recepção.
O ponto de partida aqui é a consideração de que o leitor é sempre uma “construção”
– tal como as personagens e, mesmo, o narrador. Estou falando do leitor ideal –
generalizando todas as “classificações” que este recebe ao longo, dos estudos
de recepção literária. Em termos de comunicação e na particularidade estética
da comunicação literária, não se pode negar que o receptor é sempre uma
construção “ideal”. Ele já está disseminado no próprio texto. Desta forma, a Estética
da Recepção se coloca também uma outra questão: a possibilidade, mesmo que tênue,
de delinear o esboço do que seria o público leitor de determinada obra
literária, stricto sensu.
É nesta altura que eu gostaria de colocar como análoga, a questão do sujeito.
Trata-se obviamente de um desejo.
A literatura é resultado de um trabalho com a
linguagem. Ela é linguagem. Neste processo, pelo menos três elementos são essenciais:
quem escreve, o que escreve e quem lê ou articula o que está escrito. Se
tomarmos a ideia de que o sujeito se constitui na e pela linguagem, é possível
pensar na analogia proposta. O “leitor adequado” é desejado pelo crítico,
depois de ser desejado pelo escritor, mesmo que inconscientemente. O crítico
trabalha com os postulados da Estética da Recepção, na medida em que se coloca
no âmbito de um possível horizonte de expectativa a ser reconstruído. Isso para
não dizer que este mesmo horizonte de expectativas é provável, o que implicaria
em outras formulações de sentido. Este horizonte faz parte dos elementos
fragmentariamente disseminados no próprio texto, objeto de especulações do
crítico. O aspecto “pretensioso” da Estética da Recepção facilita certas aproximações.
Uma delas é a que se esboça aqui. Esta pretensão pode ser entendida como um
desejo desta modalidade de crítica literária; por que ela também se volta para
a Literatura, enquanto texto que possui uma certa autonomia. Não há condições
de estabelecer, portanto, parâmetros definitivos para o horizonte de
expectativas. O sentido, ou os sentidos, poderiam ser concretizados de
diferentes maneiras, supondo então sua sujeição a diferentes necessidades e
contextos. Por que não pensar aqui em desejos?
A palavra
sujeito supõe duas leituras para seu próprio sentido. De um lado, é o indivíduo
responsável pelo texto em si mesmo, aquele que o escreveu; ou ainda, aquele que
está submetido pelo texto. Sujeito, aqui, equivale a uma estrutura de sentido.
Não se trata efetivamente de um indivíduo, mas de um sentido possível a ser
concretizado, mais um sentido, outro sentido, talvez. E concretizado por meio
da estruturação da linguagem nos próprios textos que venham a ser escritos e
lidos.
Seguindo a ideia de sujeito, tem-se a ideia
de estrutura. Esta ideia pode ser tomada como mais um ponto de apoio para a
desejada proposta de aproximação esboçada aqui. Nestes termos, é necessário
lembrar que alguns dos teóricos da recepção, senão a sua grande maioria, devem
muito ao Estruturalismo, tão em moda nos anos 50/60, o que não os desautoriza.
Sem entrar em aprofundamentos indesejados, é bom que se diga que a ideia de
estrutura perpassa os trabalhos de Riffaterre e de Stanley Fish. Articulando
noções, da Linguística, eles procuram, na observação do trabalho estilístico
realizado no texto, uma possibilidade de se entender uma das concretizações de
sentido que o próprio texto possibilita. Da mesma forma, mais recentemente,
Umberto Eco, trabalhando com material da semiótica e o equivocado Antonio
Garcia Berrio, perdendo-se num labirinto de impressionismos, travestidos de
considerações psicanalíticas sobre a lírica contemporânea, Eles são dois
outros exemplos de teóricos que, partindo da noção de estrutura, desenvolvem
abordagens muito instigantes, curiosamente convergentes, no que diz respeito ao
elemento que, em termos de comunicação, se chama receptor. No âmbito dos
estudos da recepção literária ele é identificado como sujeito.
Nas
diferenciações provocadas durante a leitura, pelas diversas linhas perseguidas
pelos estudiosos, uma outra questão que se coloca subjaz à própria proposta de sistematização
da Estética da recepção como disciplina integrada ao comparativismo. Ela se encontra
atualizada sob aspectos diferentes; trata-se da leitura enquanto interpretação.
Partindo deste elemento, é possível apontar para outras direções no propósito
aqui delimitado. É mais que sabido que o sentido de uma obra não é único. Na
medida em que se aceita operacionalmente o fato de que a linguagem dissemina e
fragmenta o sujeito, como faz com o sentido do texto, há de se supor que o
leitor, enquanto uma representação adequada deste sujeito, uma instância do
texto, não é igualmente único. Outra maneira de ver este ponto é pensar nas estratégias
que o texto articula e potencializa, na tentativa de representar os sentidos
possíveis de si mesmo. Ainda assim, a presença de um sujeito é mais que
necessária, é essencial.
No
entanto, na articulação de mais esta rede de significantes, escapa alguma
coisa. O adjetivo “adequada” é o representante desta coisa. Ele é o
significante de uma subjetividade que elabora critérios e determina parâmetros
para a desejada chegada a um destino indeterminado: o sentido. Em sua
multiplicidade, que nega toda e qualquer unidade absoluta, total, unitária
mesmo, o sentido é outra instância textual que aponta para um desejado
equilíbrio de forças, na relação que mantém com seu agente concretizador: o
leitor, o sujeito. É mais uma das possíveis estratégias do texto, por que não?!
Contraditoriamente, este também não é único. O advérbio aqui utilizado
confunde e esclarece. Confunde porque poder-se-ia supor uma coerência natural, dada,
entre as multiplicidades análogas de leitor e de sentido. Esclarece por que o
que se busca nesta relação analógica não existe, não tem consistência mas
apenas representação. Nestes termos, pode-se dizer que este elemento buscado
concretiza-se num desejo: elemento móvel, dinâmico e dinamizador, que nunca se
satisfaz. Se fosse possível discorrer aqui sobre uma teoria do desejo, seria
igualmente possível apontar para uma unidade perdida. Uma origem totalizadora que
se perdeu num tempo, talvez arcaico e impulsionador deste processo, sempre na direção
de um “a mais”. É bom que se diga que esta unidade nada tem a ver com a
consciência racional pensante de Descartes. Estamos, todos, um passo adiante.
Tentando
colocar os pés no chão, retomo o fio da história. A Estética da Recepção, em
sua diversidade de abordagens de um mesmo “fenômeno hermenêutico”, possibilita
essas aproximações, pelos simples fato de que parte de um pressuposto bastante
instigante: o retorno da crítica e da teoria literárias para o segundo polo da
efetividade comunicativa na Literatura, esteticamente realizada no texto: o receptor,
o leitor. É evidente que muitas das especulações aqui suscitadas podem ser
tomadas no sentido do autor. No entanto, a proposta inicial da Estética da
Recepção e destas anotações é o leitor, o sujeito. Assim, a repetição tenta reafirmar
a validade das especulações e suas particularidades, de caráter apenas
circunstancial. O que faz possível recolocá-la no âmbito do comparativismo.
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Dizem que
um exemplo vale mais que mil palavras. Enquanto escrevo este texto, penso no
trabalho que uma gravadora realiza para a produção de um disco...
Paralelamente, penso na busca de definição de uma estratégia de marketing que se concretiza na
publicação de uma revista. Em ambos os casos, análogos à situação de um livro,
o marketing
dita as regras de funcionamento do jogo, para que o prazer catártico efetivamente
se concretiza na venda e na leitura/audição do produto. A atualidade dos termos
e da estratégia não desmerece o exemplo, em reação à Estética da Recepção, na Literatura.
O comércio,
tem demonstrado, cada vez mais, a sua necessidade atávica de atingir um público
sempre maior, mesmo que as condições econômicas não sejam compatíveis,
adequadas, aos projetos do comércio. O que destaco aqui é a importância da
determinação dos traços característicos da clientela potencial para o produto a
ser lançado. Neste ponto, o marketing e suas estratégias são obrigados a
definir, pelo menos em termos de expectativa, de desejo portanto, o tipo de cliente,
a cara do freguês, o perfil do consumidor adequado para aquele produto.
Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência... Em outras palavras, quem
vende, produz ou escreve, deseja que tal ou qual tipo de pessoa goste do que
lhe é oferecido. Guardadas as devidas proporções, acredito na efetividade deste
exemplo, praticamente conclusivo. Ele está aí para ser recebido, ou seja, lido,
analisado e criticado. Só desejo, agora, apresenta-lo.
Referências bibliográficas
EAGLETON, Terry. Teoria
da literatura:
uma introdução. Tradução de Waltensir Dutra. São Paulo, Martins
Fontes, s.d., p. 59-96. Fenomenologia, Hermenêutica e Teoria da recepção.
ISER, Wolfgang. Problemas da literatura atual. In: LIMA, Luis
Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. 2 ed.
rev. e amp. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983, vol.2, p. 359-383.
LACAN, Jacques. Écrits.
Paris, Éditions du Seuil, 1966. p.793-828. Subversion du désir dans l’inconscient
freudien.
________. O
seminário – Livro
20 – Mais, ainda. 2 ed. Tradução de M.D. Magno.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.
LIMA, Luis Costa. A
literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. p.9-39.
Introdução: o leitor demanda (d)a leitura.
OLGILVIE, Bertrand. Lacan: a formação do conceito de sujeito. Tradução
de Dulce Estrada. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988. Transmissão da
Psicanálise, 3.
Zilberman, Regina: Estética da
recepção e a
história da literatura: São Paulo, Ática, 1989. Fundamentos, 41.


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