Ecos do passado III
Ouro texto cuja origem e objetivo se perdem no emaranhado de uma memória já combalida elo ócio criativo. Ao fim e ao cabo, não interessa - para mim, agora - determinar esta referência. Assim como não há referências bibliográficas registradas ao final - não se trata de artigo, tese ou dissertação - fica o texto como mais uma especulação a, se minha proverbial síndrome de Macunaíma deixar, fazer parte de um livro pretendido.
Filha (perversa?) dá Hermenêutica, a Estética
da Recepção desdobra o mito que acentua o caráter da consumição pelo fogo.
Hermes diz presente. Passando pela obsessiva metodologia, na busca de uma
verdade inalcançável – porque feita de palavras – Gadamer também diz presente,
algum tempo depois. Adorno contribui, num momento mais adolescente da especulação
“recepcional” – o nome é, em sua natureza, impróprio, pobre, mas muito
sintomático –, com a negatividade. Aqui, ela poderia apontar para uma interlocução
com Barthes e a sua noção de desvão. Mais tarde, a Linguística aponta para a
questão do caráter pragmático da linguagem literária. Denegação? A recepção,
nos moldes de Fisch daria conta de simbolizar a castração imaginária operada
pelo texto literário em seu leitor, novamente a ambiguidade.
A recepção
literária com uma (outra) escrita à deriva: estética ou teoria?
(...) o texto é lembrança de uma outra
tela. Texto, que se lembra de um texto anterior. O grau zero da escritura não
existe e talvez jamais tenha existido. A literatura é sempre de segundo grau, não
em relação à vida ou à realidade social de que ela seria mimésis (Auerbach), mas em relação a ela mesma, e
o plágio não é senão um caso particular dessa escritura sempre derivada de uma
outra.
(Michel Schneider, Ladrões de palavras)
Eu começaria fazendo, uma pergunta muito
comum. Uma pergunta que cada um de nós já se fez, pelo menos, uma vez na vida,
não importa onde nem quando: o que é que eu estou fazendo aqui? Banalidade?
Desinformação completa? Não parece. Esta pergunta é a responsável pela abertura
de um atalho, um recorte, uma rasura nesta folha em branco. Uma página que parece
uma boca aberta. A hiância da página em branco metamorfoseia-se agora nesta
fala que tenta, mais uma vez, suturar essa “falha”.
Nesta mesma medida, a Teoria da Literatura
pode ser lida como este texto que se inscreve num espaço desejoso de
esclarecimento, de compreensão. Ele é, também, mais uma demanda de amor. Neste
sentido, quatro disciplinas podem ser apontadas como os pilares de um edifício:
a teoria, a história, a análise e a crítica. Estou apostando na simplicidade didática
de um conhecimento pressuposto. Dentre os quatro pilares, destaco o primeiro,
mais ousado: a Teoria da Literatura. Ela tem se mostrado, na verdade, um grande
conjunto de disciplinas afins que se completam, se interpenetram, questionam-se
mutuamente. A continuar acreditando neste “modelo”, é possível afirmar que uma
destas disciplinas “segundas” é a Estética da Recepção. E aqui, uma primeira
questão aparece: é estética ou Teoria da recepção? A terminologia sempre foi, é,
e será um nó a ser desfeito, pelo menos em projeto, pela Teoria da Literatura.
A proposta deste texto se alarga um pouco
mais quando se vislumbra, na atualidade – e tome-se aqui este termo em seu
sentido mais largo – a articulação de mais uma disciplina igualmente pletora de
experiências, ousadias e desejos intelectuais voltados para a literatura. Trata
se da Literatura Comparada. Este alargamento é viabilizado pelo contato com a
Psicanálise e a retomada de uma linha de pesquisa específica: o estudo de
fontes e influências. Estes parecem ser os pontos que delineiam o perímetro de
abordagem do texto que se escreve aqui e agora. Qualquer outra especulação, ou
possibilidade, fica fora se cogitação, enquanto elemento específico a ser
considerado.
*******
Por volta de 1967, um grupo de
investigadores, reunidos sob o nome de “Escola de Constança”, publicava uma
série de textos que, paradoxalmente, não podem, ser classificados de
programáticos. Neste sentido, acrescento aqui algumas palavras de Wolfgang
Iser, quando faz considerações sobre o texto literário em seu artigo “Problemas
da teoria da literatura atual”:
(...) o texto literário é um ato
intencional dirigido a um certo mundo, o mundo com que ele se relaciona não é
repetido, mas experimenta ajustes e correções (...). A função do texto
literário se funda portanto nas maneiras de fazer um balanço de um mundo
problemático ou por ele problematizado.
Deixando de lado, por ora, as possíveis
ligações entre a citação e o texto que se lê, não é sensato abandonar a imensa
operacionalidade de uma palavra simples “função”. Ela detona um movimento de revisão de certos conceitos,
igualmente operacionais, que a Teoria da recepção propõe para a Teoria da
Literatura, como um todo. O momento histórico em que os primeiros textos da Escola
de Constança aparecem é de extrema fecundidade. A revisão crítica do Estruturalismo
já se processava de maneira serie e profunda. Por outro lado, os
posicionamentos de uma outra linha de abordagem, a Hermenêutica, apontava para
a renovação criativa do trabalho de investigação literária. Neste sentido, a
função emerge como uma questão fundadora de uma “teoria da leitura”. A leitura não
é um movimento linear, progressivo, diz Terry Eagleton. Continuando em sua
linha de raciocínio, é mais que necessário afirmar que não se processa uma acumulação
de sentidos. Na medida em que se lê, as especulações iniciais acerca do texto
lido estabelecem, geram, um quadro suficiente de referências para aquele
momento da leitura. A interpretação, momento seguinte, acaba por continuar esta
sucessão, bem como pode modificar, em retrospectiva, o entendimento da leitura
original, da leitura primeira.
A partir, destes dados, a função do texto
literário deixa de ser meramente semântica. Outros quadrantes serão atingidos.
É nesta direção que Regina Zilberman, em seu recentemente publicado Estética da Recepção e história da literatura, diz: “Ler assume hoje um significado
tanto literal, sendo, nesse caso, um problema de escola, quanto metafórico,
envolvendo a sociedade (ou, ao menos, seus setores mais esclarecidos) que busca
encontrar sua identidade pesquisando as manifestações da cultura.”
Citada aqui para ilustrar o primeiro passo
dado neste “atalho”, a professora gaúcha acaba apresentando
duas outras questões cruciais para a Estética da recepção, a identidade e a história.
Com relação à primeira, é bom que se diga da oportunidade criada pelos
estudiosos da Escola de Constança, no sentido de abranger os trabalhos historiográficos
de determinação ou, ao menos, de delineamento do perfil nacional das mais
variadas literaturas. Por outro lado, a questão da história emerge de maneira
fulminante: é mais que necessário rever os parâmetros de aproximação entre
Literatura e História. Não há porque continuar acreditando na suposição de que
a Teoria da recepção fixaria os limites da importância de tais ou quais obras,
consagradas ao púlpito da historiografia literária, de qualquer nacionalidade.
Esta seria uma atitude até naif. Torno, às palavras de Regina Zilberman:
Oferecer a estética da
recepção como um novo figurino ou esperar que ela encontre seguidores e adeptos
entre nós, seduzidos por suas promessas e já saturados de alguma outra corrente
crítica, ou filosófica, é não apenas ter uma visão frívola da teoria da
literatura (...), significa também colaborar para a alienação e dependência
culturais, de que aquela frivolidade é um dos sintomas.
É neste sentido da antifrivolidade que se faz
útil, rentável e instigante ler a contribuição de Jauss, com suas “teses sobre
a história”. A Estética da recepção seria então uma nova teoria da literatura;
nova porque ancorada no interminável manancial da “historicidade da arte”. Este
e o elemento decisivo para que se possa desejar – sempre e mais – a compreensão
do significado da Literatura, no conjunto da vida social. Assim, pode-se afirmar,
como meta principal da Teoria da recepção a reabilitação – constantemente
perseguida – da Literatura enquanto marca outra desta mesma historicidade.
Ainda
na grande abrangência da Teoria da Literatura, a Estética da Recepção vem
oferecendo um leque de sugestões, variado e competente, instigante e
iluminador. Estas se voltam, principalmente, para a História da Literatura. Não
deixam de colaborar com a Literatura Comparada e marcam a crítica literária. É
obvio que as consequências disso recaem sobre a questão do ensino da
literatura: isto é outra história... Mas não é só isso, A Teoria da recepção,
nas palavras (mais uma vez!) de Regina Zilberman, apresenta-se como uma teoria
em que a investigação muda de foco: do texto, enquanto estrutura imutável, ele
passa para o leitor, o “Terceiro Estado” seguidamente marginalizado, porém não
menos importante, já que é condição de vitalidade da Literatura enquanto
instituição social.
Outro
desdobramento é vislumbrado aqui. A dupla dinâmica agora é formada pelas noções
de estrutura e de leitor. Com relação à primeira, é bom que se diga que existe
um relacionamento entre os elementos que constituem a “estrutura” do texto literário.
Este relacionamento instaura um certo “procedimento”, que possibilita a
produção, a construção de um sujeito do/no texto. Isto porque, nas propostas
vindas, inicialmente, de Constança, passou-se a ser verificado um esforço de
encontrar um conjunto de “modos de acesso intersubjetivos à literatura”, é a
derrocada da imanência do texto literário, tão cara ao Estruturalismo, herança
perversa de um certo olhar oriundo da fenomenologia husserliana, outra cesura
filosófica.
Num
rápido intercurso, Heidegger, leitor de Husserl, trabalha arduamente nesta
linha. Motivo pelo qual, num certo sentido, pode compor esta herança
fenomenológica da Estética da Recepção. O sentido do texto, contrariamente a
este posicionamento, não é “dado”, aprioristicamente. Os procedimentos do
texto literário, neste âmbito da especulação teórico/estética, esclarecem o
modo como e produzido seu sentido de “conjunto”. Há a subliminar aparição do mito do
eterno retorno. O sentido, enquanto horizonte final, de expectativa do texto,
fica fora de cogitação. Desprovido de relações “conjunturais”, abstrai-se. E o sentido deste “sentido” é sua função.
Retomando o fio da meada, tentando acompanhar
o raciocínio de Wolfgang Iser,
as estruturas têm o caráter de indicações pelas quais o texto se converte em
objeto imaginário, na consciência de seu receptor. Este receptor é o
leitor – implícito, preparado, adequado, crítico, etc., as denominações são
muitas. É o aludido “sujeito” (e a etimologia não pode ser, aqui,
desprezada de forma alguma!). Este sujeito é “construído” pelo contraste, pela polaridade, pela diferença, pela
repetição, pelo paralelismo, pela sinceridade e pela gradação operados pelo
próprio texto. Seria demasiado pensar em alienação e clivagem? É isto que possibilita,
paradoxalmente, afastar a compreensão do gosto subjetivo, em favor de uma “consideração
objetivável” da Literatura. É claro que, rio jogo de
palavras, o desejo se manifesta, fazendo retornar um recalcado por demais
conhecido, e especulado! Este objeto serve a este desejo.
Seguindo estes rastros, não se trata de uma
aberração afirmar que os conceitos-chave da Teoria da Literatura deixam de lado
sua ingenuidade. Esta ainda é explosiva, desintegradora mesmo, quando se trata
de encontrar um “único sentido”, conforme quer Iser. Seria possível, então, perguntar
se a Estética da Recepção, no âmbito da Teoria da Literatura, se presta ao
papel de “instrumento” desta busca. O sentido não é o horizonte
de expectativa do texto literário, mas apenas dos discursos da Teoria da
Literatura, e por consequência da Teoria da recepção, que agem desta forma
para que o texto se torne traduzi- vel. A recepção, neste enquadramento, é muito
mais que um processo semântico. É um processo de experimentação, de uma
configuração do imaginário, projetado no texto. No âmbito da “recepção”,
produz-se, no leitor, o objeto imaginário do texto. É uma experiência sempre
revivida: desejo latente. A recepção está mais próxima da experiência do texto,
da experiência do imaginário que este texto projeta, desvela, revela. Não é uma
interpretação, uma semantização do imaginário. É assim que a recepção, por
força de experienciar um imaginário, transforma-se em objeto de uma
interpretação outra.
Mudado o foco das especulações para o
leitor, é bom que se diga, com as palavras de Terry Eagleton, em seu livro Teoria da literatura: uma
introdução, que “(...)
o leitor abordará a obra com certos “pré-entendimentos”, um vago contexto de
crenças e experiências dentro dos quais as várias características da obra serão
avaliadas.” O leitor é este sujeito desejado na/pela obra. Esta é originalmente
“aberta”, mas esta abertura é
objeto de gradual eliminação, pois o leitor passa a construir uma hipótese de
trabalho, capaz de explicar e fazer coerentes o maior número possível de
elementos desta mesma obra. Na ambiguidade do termo leitor, a Teoria da
recepção constrói o seu texto. Vai tecendo suas observações e constatações.
Inscreve seus desejos e metaforiza suas imagens no écran. A folha de
papel é o simulacro da tela branca. Nenhuma leitura é inocente. Por fim, todo
texto literário é construído a partir de um certo sentimento em relação ao seu
público potencial. Ele inclui a imagem do seu próprio destinatário.
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Hoje, depois de passado o momento em que a “tradição” reinou solene e absoluta como objeto de desejo – Octávio Paz
com suas rupturas modelizantes e Hobsbawn com sua fascinada invenção apontam
para estas “ruínas” –, os trabalhos da Recepção apontam para novas direções
igualmente questionadoras, inegavelmente sedutoras. Uma: a revisão provocada
pelos novos posicionamentos da História, Le Goff e Guinsburg seriam dois
vetores desta inversão molecular na busca, de verdades, pulsações de desejo...
Outra: a revisão de conceitos, caros à Literatura Comparada como o de fontes e
influências. Estar-se-ia nadando nas águas de um quinto oceano literário,
interdisciplinado e rebelde oceano?
No fim, a constatação óbvia: mais um texto
se escreveu e se inscreveu. Um texto para ser lido: criando um pequeno
horizonte de expectativas, em que a imagem desejada/desejante de um sujeito,
de um leitor em toda a sua ambiguidade, foi projetada. Como será a recepção
deste texto que, mesmo que não queiram outros leitores, é um texto “literário”? Ah, a etimologia... No fundo, continuam notáveis, perceptíveis,
as pulsações de um desejo, sempre o mesmo desejo.
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