Opiniões


Faz um tempo, uma conhecida estava em casa, em férias, como Inês, posta em seu sossego, quando recebe um telefonema. Era a secretária do diretor de um colégio tradicionalíssimo da capital das alterosas. Confesso: por vezes, penso eu o epíteto funciona mais como condenação que elogio. Mas enfim... Recebeu o telefonema, tentou argumentar que estava em férias. Não teve jeito, a secretária contra argumentou com a ordem do diretor: “É de seu interesse”. A minha conhecida foi ao colégio na data e hora marcadas. Em lá chegando, deparou-se com um comitê de recepção formado por vários pares de pais de alunos, praticamente todos já dela conhecidos. O diretor encaminhou o grupo para sua sala e começou a oração. Isso e aquilo, pediu ao presidente do “conselho de pais” que lesse, ele mesmo, a carta que enviara para a direção da escola. Carta longa, com alguns senões sintáticos e terminológicos – segundo o relato, àquela altura, de minha conhecida. Carta acusatória em que ela, a minha conhecida era admoestada a dar explicações sobre a acusação de que era vítima, exarada por um dos filhos de um dos casais que compunham o tal “conselho”. Triste coincidência: o tal estudante era filho do presidente do “conselho”, que lia a carta. Faço uma ideia do tom de arrogância, prepotência e desdém com que foi lido. Só faço uma ideia. Pois bem, terminada a leitura, a professora, atônita, argumentou não alcançar o sentido da acusação pois não se lembrava de ter incitado seus alunos à prática de beijo entre dois homens, conforme a “peça acusatória”. A indignação do gruo aumentou. O semblante do diretor ficou ainda mais escuro. Ela continuou sua defesa tendo que interromper a própria locução por conta dos vitupérios e muxoxos dos “conselheiros”. Ao fim da balbúrdia, o diretor vociferou que o estudante o havia procurado dizendo que professora tinha dito na sala de aula: “minha língua roça a língua de Luis de Camões”. Como era estudante “aplicado”, o dito cujo, o dito cujo perguntou ao diretor se isso não era uma forma de a professora dizer que um homem beijar outro homem era uma coisa bonita, boa, gostosa. Afinal ela disse “minha língua roça”. Acreditem! Foi isso E o direto convocou o dito “conselho” e convocou a professora. Ela, diante de tal “argumento”, explicou o óbvio – para ela. Tratava-se de uma aula em que utilizou o verso da música do Caetano Veloso, um elogio à Língua Portuguesa. Era uma espécie de mote para a aula. Só isso. A vociferação aumentou. O clima ficou pesado. O diretor, então, calando a patuleia disse que a professora deveria se retratar diante do egrégio “conselho”, por escrito, para que a carta ficasse devidamente arquivada como documento comprobatório de sua obediência. Ela se negou a fazê-lo. O diretor insistiu, sob a nuvem negra de resmungos e mais muxoxos, desta feita, agressivos e condenatórios. Ela insistiu em negar, O diretor, então, para “evitar o pior” (sic!) disse que ela seria sumariamente demitida. Minha conhecida não se deu por vencida. Levantou-se e, antes que as medidas da demissão fossem tomadas, vaticinou sua própria auto demissão e saiu da sala. Saiu do colégio. Jamais voltou a por os pés lá. Não matriculou os filhos nessa “escola”. Faz tempo que não a veja, mas imagino que os filhos devem estar muito bem, assim ela própria, é o meu desejo. Este pequeno relato é fruto do resultado da cutucada em minha memória dada pela notícias que anda fazendo a felicidade de muita gente. No Colégio Loyola, outra escola tão tradicional como aquela em que minha conhecida trabalhou, anulou um teste de Língua Portuguesa, pelo simples fato de que o texto utilizado na tal prova era de autoria de um tal de Duvivier, tido e havido como comediante, em coautoria com outro indivíduo da mesma espécie. Creio que não preciso insistir na ideia de que não vou com a cara de nenhum dos dois. O argumento da escola, de novo apoiada por uma carta escrita por uma mãe “preocupada com a educação de seus filhos”, é que o tal texto é tendencioso, ideologicamente, e estava a sustentar doutrinação político-partidária por parte do professor – neste caso, não é meu conhecido, mas importa tanto quanto para mim. Confesso, antes de mais, a minha quase total ignorância a respeito acerca do tal projeto “escola sem partido”, por força da miríade multifacetada de opiniões, vaticínios, ameaças, sandices e pensamentos acerca disso. Em relação à minha pessoa, claro. Logo, não posso tirar conclusão alguma. De mais a mais, isso aqui não é um tratado, nem uma tese acadêmica, muito menos um “artigo científico”. Portanto, não sou obrigado a dar satisfações a quem quer que seja, pois não faço outra coisa a não ser abrir a cortina e observar o cenário. As conclusões ficam por conta de quem me ler. Se é que alguém vai me ler. Se é que a leitura vai motivar algum tipo de raciocínio posterior. Fica a dica...


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