Afinidade(s) eletiva(s)


Um dos meus poemas “de eleição”. Minha afinidade com este heterônimo de Fernando Pessoa é, em certa medida, indescritível. Ele se dá com Álvaro de Campos e, na prosa, com Bernardo Soares. Creio que o fio que nos une é o do ceticismo e da melancolia. Ainda assim, é indescritível. Há outros da mesma “eleição”, é claro. Por hoje, fico com esse, dado o “estado de ânimo” a que sou levado a experimentar dadas as circunstâncias da realidade em que vivo, infelizmente...

“Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.”
(Athena, nº 5, fevereiro de 1925)

 

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