Momentos que vêm e vão...
Num momento como o que relata o “perdão judicial” a uma mãe que é cúmplice – declarada, documentada e provada – do assassinato de seu próprio filho; como o que coloca um homem vestido de mulher na presidência de uma comissão que existe para defender... as mulheres; como o que um padre fica sentado, com as pernas cruzadas a olhar para o alto, enquanto os ministros da Eucaristia fazem o seu trabalho que deveria ser “colaborativo” – é bom prestar atenção ao prefixo... Nesse momento eu sinto uma preguiça enorme, uma vergonha imensurável e uma tristeza abissal... A conclusão é a de sempre: estou ficando velho... e mais chato do que sempre fui. É com este espírito que partilho o texto que segue, recebido de outra velhota amiga, já da terrinha. Se gostarem, bem... se não gostarem... amém!
“A idade em que o tempo se
senta à mesa
Existe uma fase em que o
espelho abandona a diplomacia.
O cabelo sai de fininho,
o joelho vira locutor, a memória se esconde justo quando o rosto do mercado
sorri. Levantar da cadeira pede um “opa!” como senha, como se a coluna
precisasse de autorização.
Mas há uma beleza secreta
nisso tudo.
Enquanto o corpo negocia
prazos com o tempo, a alma se expande. Fica mais larga, mais paciente, mais
gente.
Chega a idade em que
largamos as guerras inúteis. Não precisamos mais vencer debate, provar brilho,
colecionar importância. A vida ensina que certos troféus pesam mais do que
valem.
Então trocamos pressa por
presença.
E tudo muda de tom.
O café deixa de ser só
café. Vira rito, encontro, desculpa bendita pra conversar sem relógio.
As amizades antigas
ganham luz de relíquia.
Sobreviveram a décadas,
desencontros, teimosias e até a opinião política no grupo de WhatsApp — milagre
raro depois dos setenta.
E o amor também
amansa.
Não precisa mais
incendiar o mundo. Basta aquecer o coração. Às vezes chega num “você está bem?”
e ilumina o dia inteiro.
Descobrimos que aventura,
agora, tem outro nome.
Dormir a noite toda sem
escala no banheiro é experiência mística. Exame normal dá grito de final de
copa. Viajar sem esquecer remédio já é medalha de bravura.
Mas o verdadeiramente
épico é continuar terno apesar de tudo.
Apesar das ausências.
Apesar das despedidas. Apesar dos amigos que partiram cedo e deixaram cadeiras
vazias e silêncios sem tradução.
Ainda assim marcamos
encontros.
Planejamos viagens. Rimos
das mesmas histórias. Inventamos festa por qualquer aniversário. Plantamos ipês
brancos na memória.
Talvez seja isso que
sustenta o mundo sem alarde: gente comum insistindo, delicada, em amar a vida.
Porque envelhecer não é
desaparecer.
É baixar o volume do
mundo pra escutar melhor o essencial.
É descobrir que
felicidade nunca foi linha de chegada. Era a conversa boa depois do almoço, o
telefonema inesperado, o abraço demorado, o amigo que ainda guarda seu apelido,
a mesa com lugar reservado pra você.
No fim, a grande vitória
da maturidade é esta:
aprender que a vida não
precisa mais correr.
Agora ela pode apenas
sentar conosco à mesa.”
(Autor desconhecido)
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