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Foi assim, de repente. Do nada. Uma angústia no peito. Uma vontade de gritar. O olhar triste e enviesado. Suspiro atrás de suspiro. Anos depois. Sempre cuidado dos outros. Sexta na linha de nove filhos. Antes dela, só uma mulher. Quatro homens. Pai e mãe trabalhadores. Um negócio na cidade: secos e molhados. Um cavalo de estimação: Cilindro. A cidade pequena. Terra vermelha: boa para o café. Vida simples na cidadezinha de duas ou três ruas maiores e cinco ou seis transvertais. No meio do mato luxuriantemente verde que nascia da terra vermelha. A matriz. O sino. As tardes entre o verde e o vermelho. Melancolia. Anos e anos na terra. A vinda para a cidade. Aos poucos. Um ou dois de cada vez, começando com os homens em busca de trabalho. Todos estudando. Ela parou no ginásio. O diploma diz que foi com média superior. Anos de dedicação. O trabalho. A paixão por um padre. Os prazeres da cidade vedados pela moral interiorana, estrangeira. O padre, o cinema, o trabalho. Vida reclusa a cuidar dos outros. Ajudar irmã e cunhadas que trabalhavam. Uma delas não queria saber de sexo. A filha foi um milagre. A mudança para um bairro melhor na capital. A irmã mais velha fazendo sucesso. Carreira brilhante. Dinheiro não rolava solto, mas o apartamento em bairro mais “chique” ainda reunia a família aos domingos, dia das mães, véspera de Natal, Páscoa e os aniversários dos avós e tios. Eram seis. Pai, mãe e mais três irmãos. Seis vidas num espaço pequeno, mas próprio. A doença do pai. Trombose, talvez misturada com diabetes e demência senil. A memória anda se apagando. A mudança de ritmo. A dedicação total ao pai. Trabalho em segundo plano. A morte do pai. O trauma e a crise. Pinel, sonoterapia. A volta e cuidar da mãe, diabética, perdendo a visão. O que sempre foi alegria e brincadeira, agora zelava pela mãe. Nas festas, sempre cantando, comendo de tudo, reclamando do sobrepeso, mas jamais recusando doces. Perdição os doces. Cantava. Sorria. Brincava. Era a alma das reuniões familiares. Agora era só cuidar da mãe. Todo dia. A vida que se acaba e mais um choque. O medo. O temos dos irmãos e cunhadas. A vida que continua. A mudança para um apartamento ainda maior. O irmão caçula que se casa e vai embora. As três mulheres. Entre elas a hierarquia que não se quebrava. Os silêncios. Mas a alegria das festas continuava. Os doces, ai meu Deus, os doces. Risos. Cantoria. Dois copos de cerveja e já vinha a zonzura. Nunca mais o trabalho. Para o limbo a autonomia e o amor. Lembranças do padre (?). A irmã mais nova se vai. Sofrimento. Depois de mais um temo de dedicação. De novo os temores. Foi a vez da irmã mais velha. Os sábados fora de casa. O carteado. Os suspiros começaram. O olhar enviesado. Cuidar de mais uma irmã. A morte. O surto. Gritos no meio da noite. Brigas domésticas. Impaciência do irmão, tutor. Cocô espalhado pela casa. Gritos na noite. Janelas vigiadas. Perigo Dificuldade. E de repente, a doçura, mesmo sem o carteado. Não mais os suspiros. A autonomia e a tranquilidade. Ginásticas, caminhadas, visitas. Não mais cantava nem reclamava dos doces. E recomeçava o ciclo de gritos. Brigas. Duas internações. Dificuldade. A psiquiatra provocando a revisão de tudo. Remédios. A bobeira. Cambaleante, repetia as coisas. Suspirava. Chamava pelos mortos. No dia seguinte, nada. Uma tranquilidade só. Memória viva, ativa, vibrante. Até piada fazia. Alternando com os suspiros, as lágrimas. Reclamação de dores, falta de dinheiro, abandono, sujeira. “Sou suja. Ninguém gosta de mim. Não tem dinheiro pra nada”. Sobe e desce. Vai e volta. A mudança O corte na medicação. certa tranquilidade da psiquiatra. A mudança que revigora. Crianças, gente na casa o dia inteiro. Caminhadas pela manhã e à tarde. Atividade. Barulho. Uma vida diferente. “Sou suja. Ninguém gosta de mim. Não tem dinheiro. Quem está cuidando do apartamento? Não posso comer porque dói a boca. Não tenho roupa”. Mas sorri. Memória bem lúcida. A conversa que se repete, sem muito nexo. Não mais tantos suspiros. Mas a cantilena que se repete a cada encontro. Depois, tranquilidade. Crochê, palavra cruzada, caminhada. Um outro padrão que não fez esquecer os mortos. Não mais o suspiros. Não mais a cantoria e os doces. “Ai, meu Deus, os doces!”. A alegria e diversão das festas familiares substituída por memórias empilhadas, confusas, pesadas. Nem um resquício da animação e entusiasmo. O olhar ainda é o mesmo. O vai e vem. O sobe e desce. A oscilação. Nunca mais...

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