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Não era como é hoje. Tudo para ter sucesso, aparecer. Dizer
que é melhor, mais isso e mais aquilo. Pode até parecer papo de gente velha.
Não tem jeito. É inegável. Eram tempos mais simples, mais puros. Alguém poderia
até dizer que eram temos de ingenuidade, que a malícia não existia. Isso é
diferente. O que está em jogo aqui não é isso, mas a simplicidade das coisas,
das elações. Não era preciso ter muito dinheiro. E se o dinheiro fosse fácil,
não havia a sede de aparecer, de mostrar pra todo mundo que o dinheiro era
muito. Nada disso. as pessoas se contentavam em ter o dinheiro e gastá-lo.
Claro que está que a perfeição não existe. Mesmo nesses tempos. Tempos de
madrugas e madrugadas bebendo vinho barato, Comendo salada de feijão frio com o
molho da dona Hélia. As noitadas no ateliê. Maconha, vinho, cigarro. Elis e
Ney. Muito vinho. Muito beijo. Muita risada. Não era preciso ter lugar público.
Os botecos e as boates existiam, claro! Mas não eram assim, uma obrigação. Não.
Os encontros em cada de amigos eram mais divertidos. Foi assim com Nonato.
Raimundo Nonato. O nome não ajuda, mas... Numa noite de sábado, do nada, ele
apareceu no ateliê. Visita inesperada. Não para todo mundo. Nonato. Engenheiro.
cara de menino, tamanho de homem. Que homem! Que tamanho. Um homem grande em
sua morenice pacata, simples. Sorriso sincero e olhos pequenos e negros. Vivos,
atentos. Um homem grande. Tímido. E grande, muito grande. Deus, como era
grande! (Obrigado Santa Eni!). No primeiro dia a saída para um boteco, a carona
pra casa. O beijo de despedida Todo os sábados, a mesma coisa. O encontro no ateliê,
os beijos. Deus, como beijava bem. Ou beija ainda. Vai saber. Os tempos
passaram. Pode ser que ainda esteja vivo... e ativo. O carrinho pequeno. A
primeira marcha arrastada até que o motor gritasse. Os motéis do baixo meretrício
nas noites em que o ateliê estava ocupado. A zona não impunha impedimento para
o prazer dos braços e da pele lisa do corpo enorme e moreno de Nonato. Até
nisso aquele tempo era mais simples. Melhor? Isso é relativo. Muito relativo.
No entanto, mais simples. isso é inegável. Mais verdadeiros como o prazer de
ser abraçado pela pele lisa e quente do corpo de Nonato. Os beijos de Nonato. O
corpo grande de Nonato. Que corpo grande, meu Deus. Braços imensos. Pernas
roliças. Sem pelos. Uma uva. Uma uva morena. Nonato. Que simplicidade, que sensualidade.
Que beijos. Beserol (?) com vinho. O ópio e seus feitos. Bastava Nonato soprar,
subindo a coluna e pronto. O prazer imenso, gemido, molhado com os beijos de
Nonato. As noites em lençóis limpos, mas ensebados, fora do ateliê. Um banho de
banheira num motel de luxo. Comemoração. Aniversário. Alegria redobrada. Mais Beserol
para gozar com o hálito quente de Nonato. O arrepio, o gozo, o fim. Dormir
enlaçado pelos braços e pelas pernas, quentes e grandes de Nonato. O amor que
começava. E o corpo de Nonato. O prazer intenso nos beijos molhados de Nonato.
A boca e sua língua coleante, quente e úmida. Intensa. Forte. Ousada. O corpo
imenso de Nonato. A paixão. Tesão. Amor. A proposta. Apartamento na capital.
Trabalho ainda em Acesita. Finais de semana a dois. Então era uma Amélia que
ele queria. Nonato queria uma Amélia. O espelho. Os dois nus diante do espelho.
Vê só. Iguais. Anatomicamente iguais. Dimensões, formas e cores, texturas diferentes,
mas a anatomia é igual. Não há lugar para Amélia. Não é casamento de homem com
mulher. Dois homens. Tesão demais. As delícias do corpo de Nonato. Dois homens.
Não. Assim não. Pra que copiar um modelo? Por que não uma relação única, não
uma cópia? De onde tanta sensatez? Os tempos, realmente, eram outros,
Diferentes, no mínimo. O fim. A tristeza. O amargo de não mais noites sobre
lençóis ensebados na zona. Os beijos molhados, já não mais. O calor do corpo
quente e liso de Nonato, passado. A despedida chorada, sem muita explicação. A
insistência. Não. A saudade dos beijos molhados, quentes e lambidos de Nonato.
Não mais. Passa o tempo. Nonato não se esquece, não pode ser esquecido. Numa
noite perdida, numa dessas boates que serviam de reduto, o reencontro. Nonato
ainda sedutor com cara de menino tímido e corpo de gigante. O elogio. A
expressão de saudade. A admiração. O papo rápido, de cometa, crepuscular. No
meio da noite, um período inteiro de prazer, carinho e alegria. Os tempos eram
mesmo outros. E de repente. A lembrança.
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