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A praça vazia. Inexplicavelmente vazia. Mentira. Há uma explicação, um decreto municipal. O prefeito decretou que ninguém pode ficar na praça, andar pela praça, a travessar a praça. Nada. A praça está interditada sine die. A expressão atina é um luxo que o prefeito desconhece. A praça vazia e a senhora sentada num dos bancos da praça. Sozinha. A praça vazia e uma senhora sentada, sozinha. O carro da polícia municipal ao lado. Três servidores de azul. Alguém sabe explicar por que esses servidores usam uniforme azul? Por que o uniforme dos bombeiros e cinza e vermelho e o da polícia rodoviária e militar é cáqui? Há de haver uma explicação para o uniforme da polícia federal ser preto. Existe explicação para isso. Se existir, deve haver outra explicação para o homem ter se aproximado da mulher sozinha, sentada num da praça. vazia. Quieta. Tomando sua água depois da caminhada. Não devia estar ali, deve ter pensado. Mas estava. Sozinha. Bebendo água quando foi abordada pelo homem. O homem que passava e se identificou como jornalista. Havia um tempo já que a mulher sozinha estava sentada no banco da praça vazia. E os três guardinhas municipais não fizeram, nada. Não a abordaram. Não perguntaram o que ela fazia ali. Nada. De longe observavam. O homem que se dizia jornalista se aproximou e interpelou a mulher sozinha. Agora eram dois na praça. Mentira. Eram cinco: o homem, que se dizia jornalista; a mulher sozinha e os três guardinhas municipais, com seus uniformes azuis. Nada acontecia de anormal. A praça vazia presenciou a abordagem do homem que se dizia jornalista. Era mesmo? Vai saber. Os carros passavam pela ruas e mais nada. O homem insistiu com a mulher. Sozinha ela apelou para o direito de ir e vir. Continuava sozinha. Voz no deserto. O suposto jornalista insistia. E a mulher irritada repetia o seu direito de estar ali. Sozinha. Sem atrapalhar ninguém. Sem causar mal algum a ninguém. O suposto jornalista afirmou que ela não podia estar ali, mesmo sozinha. O decreto municipal. A constituição é superior a um decreto gritou a mulher. O homem, que se dizia jornalista, continuou a insistir e ameaçou delatar a mulher, sozinha, aos guardas municipais. Ali do lado, olhando. Sem fazer nada. Só olhando, como se não fosse com eles. Como se não fosse deles a responsabilidade primeira de abordar a mulher. Não deveriam eles ter abordado a mulher, sozinha, antes do homem que se dizia jornalista? O homem foi até os guardinhas e contou o que tinha conversado com a mulher. Os quatro se aproximaram. Os três guardinhas se atracaram com a mulher sozinha. “Me larga”. O suposto jornalista se afastou um pouco e contemplou a cena, mesmerizado, embevecido. Não resiste! Disse um troglodita. Outros dois agarraram os braços da mulher sozinha. Uma guardinha, sim um dos guardinhas era mulher, ajudou a imobilizar a mulher sozinha. “Me larga. Não estou respirando. Estou sufocando. Me larga”. O suposto jornalista observava. Não resiste, repetia o troglodita. Não resiste. E jogou a mulher no chão. A mulher, que estava sozinha na praça, já imobilizada, jogada ao chão. O troglodita colocou seu joelho nas costas da mulher sozinha. “Me larga. Estou sufocando. Não consigo respirar”. Não resiste, insistia o troglodita montado em cima da mulher, imobilizando-a mais ainda com seu joelho. A mulher sozinha morde o braço da guardinha mulher. A blusa rasgada. “Me larga. Estou sufocando. Não consigo respirar. Vocês estão me machucando”. Não resiste, continuava o troglodita. E o suposto jornalista observando, mais mesmerizado ainda. Silente. Conivente. Talvez feliz (?). É uma possibilidade. Dever cívico cumprido. Ordem obedecia. Serviço público prestado em prol da saúde pública. No meio de uma praça vazia. Somente a mulher sozinha sentada num banco. Calado. No canto. Olhando. Ordem restabelecida. A mulher condida violentamente, imobilizada, sabe Deus pra onde. O suposto jornalista (feliz?) num canto calado. Tudo por causa de uma mulher sozinha, sentada numa praça vazia, interditada pela prefeitura. Tudo errado. desde o começo. Nada de acerto e de serviço público bem prestado. Um equívoco atrás do outro. Arrogância e autoritarismo repetindo a mesma estupidez do erro cometido no começo de tudo. A praça continuava vazia. os carros passando em volta. Imperturbáveis. O homem que se dizia jornalista deve ter ido embora pera casa. Ou foi procurar outra praça para encontrar outra mulher sozinha. Teria que encontrar mais guardinhas de uniforme azul também. Tudo errado. 

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