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Chegada em terra nova. Vida. Tudo novo. Uma nova etapa que
se inicia, muitos planos. Os livros em início de acúmulo: falta de espaço. O
jornal de Literatura da época, o mais importante, frequente, regular. Na
contracapa o rosto do escrito. Homem bonito. Claramente descendente de alemães.
O livro comprado em função do retrato do autor. Os livros, na verdade: Valsa
para Bruno Stein e A face do abismo. O homem bonito. A escrita
regional. A história da imigração nas entrelinhas e a fascinação por uma novidade.
Nada como alterar o quadro de referências tradicional por um bem pessoal. Rosto
de autor agora é critério de escolha. Olhares enviesados. Narizes torcidos. Mas
a magia da novidade fazia tudo isso sumir. As aulas. Os primeiros contatos. O
primeiro mês num quaro minúsculo de hotel, fechado. Empreendimento barrado na
justiça: briga por inventário. Correntes na porta. Entrada lateral. Café da
manhã no décimo andar. Três ou quatro hóspedes apenas. Um mês de exílio forçado.
A casa nova. A estante. Os livros começaram a chegar. O frio. E o artigo cobre
a metaforização do corpo em Memórias do cárcere de Graciliano. Livro denso.
Psicanálise em alta. Leitura atenta (ainda) válida. A ideia que pareceu
luminosa então. O corpo. A prisão como um corpo. O corpo dos detentos. O corpo
da história, da narrativa. Memória corporificada. O delírios terminológico, em sua
infinitude ainda seduzia e fascinava, As primeiras linhas. Os desvãos da
narrativa. O véu da ficção em luta constante com o registro da biografia. Luta?
A tradição diz que não são a mesma coisa: biografia e ficção. O tempo e a
prática levam a constatar que não é tão simples assim. A tradição também diz
que não se pode dizer o que se deseja dizer sobre um autor sem o devido
embasamento teórico. Ora, a crítica, por si, como consequência não produz
teoria. Ou é o contrário. “Não, seu artigo não pode desenvolver este tópico”.
Como assim, não pode. Se constitui a metáfora do corpo como operador de leitura
a Psicanálise como instrumentalizadora dessa mesma leitura, não é possível
impedir o exercício hermenêutico. “Não pode. A teoria não sustenta a hipótese”.
Não sustenta? Como assim? Por que não. “É indecente”. Indecente? “Você mistura pornografia
com Literatura. Não pode”. Pornografia? “É. Você fala em sexo, em corpo, em
prazer. Só tinha homens na prisão. Está escrito. Isso não quer dizer que faziam
sexo entre eles”. Mas quem disse isso, meu Deus? Onde está escrito isso no
artigo? “Não pode. É indecente. Pornografia não pode. É uma ofensa a um dos
maiores escritores da Literatura Brasileira”. O olhar desconfiado. A gargalhada
posta em tempo de espera. A vontade de dar risada e depois dar na cara de quem
deu o parecer. Parece que nem leu o artigo. Ou se leu. Não pode! Repetindo
sempre a mesma coisa, não pode. A lembrança da beleza da foto do escritor. As
capas dos livros. O prazer da leitura. Isso vinha à mente quando do pensar o
texto do Graciliano. Estava ai. Toda a metáfora diluída em passagens
significativas. ?Um leitor pode construir essa ponte de sentido. Pode e deve.
estava ali. Mas o talzinho só repetia “Não pode”! De novo a confusão entre
biografia e ficção. Como não pode? Os argumentos furados. A insistência no desrespeito
a uma celebridade. Graciliano não foi, não é. nem será celebridade. Graciliano
é, foi e será um escritor. Um baita escritor. Como não pode? Desonrar o nome do
escritor? Como assim? A prisão como um enorme corpo em decomposição. O corpo
dos prisioneiros macerado pelos maus tratos. A delicadeza do afeto do narrador
com um dos presos. Os sinais estão todos ali, na letra, em cima do papel Preto
no branco. Não pode! Que chatice. O copo que se movimenta como os movimentos da
História e da vida represada na Ilha Grande. Uma leitura plausível. Não pode!
Então, de fato, acontece o mesmo com a escolha do livro pela capa. Com a foto
do autor. O homem bonito da capa. A beleza que também escreve. Delírio? Não
pode. A metáfora do corpo não compreenda. A leitura raseira. O poder o veto no
alto, sombra, miasma. O poder que não existe. Não pode. O veto ao artigo. A
abissal e eterna ignorância de quem assina o parecer. Não pode. O artigo não
publicado. Por um tempo. Anos depois a redenção. Mesmo que não possa. Os
desvãos da Literatura. O leitor e suas vicissitudes. Qualquer coisa que diga
que pode. Pode sim! O corpo continua lá, nas páginas de um livro estupendo.
Então pode!
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