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Uma época em que as férias significavam duas coisas: o
tormento da viagem e a delícia da praia por quinze dias ou um mês. A viagem num
fusca com três crianças e toda a quinquilharia para a casa: panelas, guarnição
de cama, mesa e banho. Utensílios e produtos de limpeza, a prancha de isopor,
os óculos entortados do irmão que dormiu sentado, sem jeito. Quase dois dias
inteiros. Para em Macaé ou Itaperuna. Dependia da hora de saída de casa.
Dependia do trânsito, O carro mais parecia uma nave espacial. Nas paradas, a
mãe saía e trazia o lanche. Impossível sair. Se saíssem as crianças, tudo desmoronava.
O fusquinha com porta-malas interno e externo abarrotados e mais os espaços
livros entre os guris. Um tormento. Mas a chegada ao litoral era sempre uma
festa. Cantigas populares, contagem de cemitérios e a contagem regressiva com
aposta para quem via primeiro o mar. A estrada subia um pouco e... bum! O mar.
Verdinho. Encapelado. E a chegada era outro tormento: a desmontagem da nave
espacial. Ops, do fusca. Todo ano a mesma coisa. O reencontro das famílias
também associadas ao “Condomínio”; Vizinhança temporária. Surpresas e chatices
repetidas. A primeira foi Elisa. Oito anos. Elisa Nogueira. O nome que não se
esqueceu. O primeiro amor. Sim, o primeiro. Mesmo na primeira infância o amor
se manifesta. Nas férias. No verão. Não importa. O primeiro amor. Brincar de
manhã na praia. Castelos de areia molhada. Jogar bola. Furar onda. Pegar
jacaré. A infância ingênua. Os passeios de mãos dadas à tarde. Ficar de mãos
dados muito tempo. Olho no olho. Sentados na varanda da casa olhando o mar.
Amor não é só paixão, sexo e casamento. Não mesmo. Depois do almoço, a tia que
pagava sorvete. A pracinha. Os passeios de bicicleta e no lombo de cavalos
feios, cansados. A alegria da garotada. A torcida nos jogos de voleibol dos
pais. Disputa anual. Tudo mágico. A segunda foi Mônica. Magrinha. Feinha. Irmã
de um colega de sala do colégio. Parecia a Olívia palito de tão magra. Ninguém
namorava com ela. O próprio irmão participava da gozação, da ofensa. Hoje é bullying
que fala, né?! A mesma praia. O mesmo cenário da primeira infância. O mesmo
tormento e sequência. Tudo igual, menos Elisa. Agora era Mônica. Uns beijinhos,
assim, roubados, na praia, de tarde. Os amigos em volta. Constrangimento. Falta
de graça. No fundo, era um sentimento de compaixão, mais que afeto, ou amor.
Não era como Elisa. A ingenuidade já quase não havia. Mônica foi um estágio
intermediário, obviamente. No tempo e na experiência. Muita conversa. Muita
explicação. Duas vezes. Só duas vezes. Nunca mais. Na história dos verões e
invernos no litoral – depois de um tempo as viagens dobraram. O tormento não
mais. O carro era maior. O condomínio expandido. Nova unidade. Mais apartamentos
num só prédio. O bar do Valtinho. Não mais os mesmos vizinhos. A cada ida um
surpresa. Os amigos da Tia. Filho e seus amigos da amiga da Tia. Os passeios da
tarde. A gozação dos amigos do filho da amiga da tia. Vergonha. Mas a mesma
aventura, já sem muita emoção, ingenuidade ou fantasia. Os campeonatos de
voleibol rareando. Virgínia. Família grande. Só filhas. Os pais, comerciantes,
zelosos das casadoiras meninas que se multiplicam em cinco, com diferença de um
ano. Virgínia era a segunda. Estudante de medicina. Bonita. Engraçada, As
noites regadas a vodca e soda limonada. Dançar música alenta agarradinho. Ela
dormindo no peito. Música lenta. Os amigos em volta como cinturão de segurança.
As irmãs. Os amigos do verão, ou do inverno. Dois anos. O primeiro beijo na
escada do condomínio. Beijo enfurecido. Molhado. Mordido. A boca machucada. A surpresa
da aventura jamais desejada. Não havia tesão. O beijo era tudo. Começava e
terminava ali, nele. A escada do condomínio. O segredo. As noites regadas a vodca
com soda limonada no Chalé 70. Música lenta. Os beijos na escada do condomínio.
O aniversário de Virgínia dois meses depois. Namoro. Encontros semanais no
estacionamento da faculdade de Medicina. A indecisão. A dúvida. Os beijos
fogosos, molhados e mordidos. Virgínia era sedenta. O estacionamento por
testemunha de uma experiência perturbadora. O aniversário de Virgínia. Antes, o
fim. Virgínia recuada, ressabiada. Virgínia desmarcando os encontros no fusca,
no estacionamento da faculdade. A volta de Pavan, o último namorado. Homem mais
velho – já, naquele tempo, ter trinta anos de idade era ser “mais velho” – mais
experiente. Mais maduro, Namoro com segurança para casamento. O choro. A dúvida.
A declaração: não se engane. Não há sofrimento nisso tudo. Na festa de
aniversário, Pavan dançava com Virgínia, agarradinho, mas olhava para outra
pessoa...
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